quinta-feira, janeiro 26, 2006

O Último Suspiro

A morte é algo de estranho. Quer dizer, não será totalmente estranho pois é algo que é comum a todos os seres vivos que habitam este planeta. Mas mesmo assim continua a ser um daqueles mistérios que fascinam as pessoas, uma vez que ninguém sabe realmente o que há para além da morte, se é que há alguma coisa. Os únicos efeitos que podemos assistir são os de carácter físico, mas... E a “alma” da pessoa, também morre?

 

Todas as religiões tentam oferecer uma solução possível, seja ela a passagem para um nível de vida superior, a possível reencarnação da pessoa ou, simplesmente, o deixar de existir em qualquer plano dimensional. No fundo, todas são formas de “mexer” com os receios e anseios que qualquer um sente em relação à morte. Mas certezas é coisa que não há. E assim continuamos a voltar à estaca zero: o que há do outro lado?

 

Também em termos de culturas há aquelas que “celebram” o falecimento de alguém, enquanto símbolo de tudo o que a pessoa conseguiu realizar e “tocar” nas pessoas que o rodeavam, e há aquelas que são culminadas em momentos de dor e pesar dos familiares e amigos que sentem tristeza pela ausência da pessoa que gostavam e que já não se encontra no meio deles. Por mim, quando me vi confrontado com a morte de pessoas que significavam muito para mim, familiarmente e por relações de amizade, tenho de admitir que consoante os momentos consigo pender para os dois lados. Ou seja, haverá alturas em que me deixo dominar por uma imensa tristeza por não poder estar com a pessoa, raiva por sentir que a morte não foi justa e “colheu” uma pessoa que ainda tinha muito para dar aos outros, conformismo pois não existe nada que eu possa fazer para devolver essa pessoa ao meu convívio, e finalmente, muito por culpa da minha base católica, tento recordar os bons momentos que tive com esse familiar/amigo e pensar que está num local melhor que o resto de nós que continuamos na nossa vida dia após dia.

 

Isto tudo para dizer que a morte continua a ser daquelas coisas que “mexe” comigo e com as minhas emoções, e que no fundo me lembra constantemente que sou apenas uma partícula pequenina desta coisa redonda onde vivemos, não me devo dar a mim próprio uma importância desmedida. E por um lado até é bom que me continue a “afectar”, pois se há uma coisa que receio é a possibilidade de me tornar frio e indiferente perante tudo o que me rodeia, pois aí considero que acontece algo ainda pior do que a morte. É estarmos mortos por dentro enquanto ainda respiramos...

 

(Escrevo isto no dia a seguir a ter falecido o pai de uma grande amiga minha. Para ela e para a sua família, as minhas mais sinceras condolências e votos de força para suplantarem este momento triste.)

6 comentários:

o anónimo do costume disse...

Costumo alimentar a ideia (um pouco idiota, reconheço) de que o céu existe para aqueles que nele acreditam, como o "nada" é o que espera aqueles que em nada crêem, etc., etc. No fundo, por muito que me encontre "fixado" nas minhas ideias sobre a questão, conforta-me pensar que a projecção das ilusões que cada um de nós alimenta em vida é o que está para lá dela, nesse depois desconhecido. Assim, só pode ser o céu o que espera aqueles que tanto o almejam, a reencarnação o destino dos que nela acreditam, ou o nada o dos que nada esperam. Enfim, alimentamos tantas ilusões em vida, quantas vezes tão descabidas, porque não estas sobre a morte e o seu depois? Que mal farão?

Nuno Guronsan disse...

É um pensamento bonito, amigo, e que eu próprio partilhava, se calhar, até há uns anos atrás. Mas hoje a racionalidade obriga-me a colocar-me perante muitas dúvidas, e não sei mesmo se essas ilusões ainda significam alguma coisa...

barros disse...

é um receio muito grande e um nivel de inferioridade muito grande quando penso na morte, nós realmente somos muito pequenos e não somos nada, devemos aproveitar ao máximo o bom que a vida nos dá e não nos importarmos com coisinhas de nada que muitas vezes nos fazem perder tempo paciência e muitas vezes racionalidade, é lógico que se sente revolta, e eu que o diga, que ainda sinto a revolta de ter perdido o meu pai à bem pouco tempo como bem sabes amigo, mas tento aproveitar o que posso da vida, a companhia dos amigos, embora não seja tanta como desejava, a companhia da familia e das pessoas que mais amo e quero. abraço amigo.

M. disse...

A consciência da morte tem a melhor vantagem de todas... Lembra-nos que a vida que damos por garantida termina um dia.

E não é cliché dizer que é a certeza do fim que dá sentido ao que ainda falta. Mesmo quando fere. :)

Desambientado disse...

Por vezes é bom ser ridiculamente ingénuos e acreditarmos em qualquer coisa.Essa é uma forma de combatermos a morte, negando-a, porque aceitando-a, valorizamo-la.

Parece que já não passava no teu blog à meses......

Um abraço.

Nuno Guronsan disse...

Olhe-se o assunto de qualquer uma das formas possíveis, e mesmo assim não consigo deixar de pensar na tristeza que a minha amiga sente neste momento e que acaba por passar para mim um pouco. Mas como tanta coisa porque passamos nesta vida, presumo que seja uma questão de continuarmos o nosso caminho...