Prenda Minha - V
Enquanto se começa a paginar, será que nenhuma alma caridosa me quer pagar uma passagem para a grande maçã (atacada pelo verme Burton)? O Natal está aí...
...Porque a vida nem sempre é preta ou branca.
Enquanto se começa a paginar, será que nenhuma alma caridosa me quer pagar uma passagem para a grande maçã (atacada pelo verme Burton)? O Natal está aí...
Para mim, foi muito bom. E será sempre uma opinião pessoal. É uma das bandas que há mais tempo me acompanha musicalmente. A primeira música que me lembro de ouvir deles foi o Just Can't Get Enough. Fui ver e a data do single é de 1981, teria eu cinco ou seis anos. Era uma música festiva, alegre e adorei imediatamente. Como mais tarde iria adorar também as músicas mais escuras, negras que iriam criar.
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Aquela era a sua parede. A parede onde envergava os seus troféus. Nada que se parecesse com uma sala de caça, daquelas que se lembrava de ver sempre que ia em alguma visita de estudo a um antigo palácio. Aliás, costumava ter pesadelos com esse tipo de salas. Como se a qualquer momento aquele javali ou aquele outro veado fossem ganhar vida e persegui-la raivosamente, como se tivesse sido ela a disparar a bala que para sempre os tinha plantado naquela parede. Sentia um pequeno arrepio só de recordar esses pesadelos. Não, a sua parede era muito menos dolorosa para os respectivos troféus. Afinal de contas, só tinham perdido os seus chapéus. Nada de mais na verdade. Talvez ainda hoje os procurassem, desconhecendo o seu verdadeiro destino. Isto se ainda se lembrassem dela. Bom, alguns lembravam-se de certeza, aqueles em que o desvio do seu chapéu só tinha ocorrido depois de alguns meses ou anos, e não a seguir uma noite de suor e sexo. Como o chapéu do seu guia, durante uma viagem pela savana africana. Depois de cinco dias e cinco noites de convívio, com muitas fotografias de animais e paisagens, em que ele tentava meter conversa a todo o custo, tentando saber tudo o que havia para saber sobre aquela turista fotógrafa de outro continente, após esses dias e noites, e chegada a última noite que iria passar naquela terra tão estranha e tão maravilhosa, deixou-se abandonar aos encantos do seu guia, deixando-lhe a memória de uma noite de desejos e múltiplas posições e o ar quente da savana a entrar pelo quarto adentro, enquanto ela se saía do quarto antes do sol nascer, levando consigo o chapéu do seu guia engatatão. Será que ele sabia que o seu chapéu se encontrava ali, numa parede de uma casa no meio da cidade mais ocidental da europa? Talvez. O antigo dono do chapéu de côco sabia de certeza absoluta que era ali que o mesmo estava. Tinham sido dez meses a partilhar a cama e os lençois com aquele actor de teatro inglês, numa casa perto de St James Park. Dez meses que se foram passando lentamente, ela a fotografar os meandros do nevoeiro, ele a representar peça atrás de peça num pequeno teatro num beco londrino, personagem atrás de personagem, ela sentada sempre na plateia, imaginando com que personagem iria ela dormir nessa noite, se o rei lear se o polícia destroçado pela vida se o cavalheiro inglês de chapéu de côco do século passado, imaginando-se ela também actriz envergando as roupas dele enquanto ele a olhava maravilhado, em pelo, deitado na cama. E assim se passaram os dez meses, e assim concluiram que não iriam ter um final feliz, e assim acabou aquele chapéu de côco na sua parede. Mas havia mais. O chapéu do professor de inglês da faculdade. O chapéu de palhinha do colega madeirense do último ano do doutoramento. O chapéu do seu primeiro marido, que acabou por lho tirar da mão na altura em que se despediam e já depois de terem assinado os papéis que punham um ponto final em cinco de anos de casamento malfadado. E ela pensava que ainda havia muito espaço naquela parede. Muito, demasiado espaço. Especialmente se considerarmos que o seu actual marido não usava chapéu e nem tão pouco compreendia o porquê daquela parede. Talvez que se o sol continuasse a brilhar por aqueles dias, ela lhe oferecesse um boné daqueles com pala, esse ele até provavelmente o usasse. E afinal de contas, ela ficaria com a casa. E a parede, mais os seus adornos de uma vida, continuaria a ser sua.
Por vezes deixo-me seduzir pela floresta, quando tenho a árvore mesmo à minha frente e nem assim viro o volante para evitar o embate que se avizinha.

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"Dentro do seu corpo grande, debaixo da sua pele, debaixo dos arcos largos das costelas, havia um coração que já não tinha força."
Etiquetas: José Luis Peixoto
"Once there were brook trout in the streams in the mountains. You could see them standing in the amber current where the white edges of their fins wimpled softly in the flow. They smelled of moss in your hand. Polished and muscular and torsional. On their backs were vermiculate patterns that were maps of the world in its becoming. Maps and mazes. Of a thing which could not be put back. Not be made right again. In the deep glens where they lived all things were older than man and they hummed of mystery."
Etiquetas: Cormac McCarthy
"Andamos todos meios perdidos, disse ela de forma contemplativa e quase resignada, como se lutar contra a vida fosse semelhante a lutar contra o mar em tempos de bandeira vermelha. Como se apenas fosse possível tentarem manterem-se à tona."
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| 1. | sentimento melancólico causado pela ausência ou pelo desaparecimento de pessoas ou coisas a que se estava afectivamente muito ligado, pelo afastamento de um lugar ou de uma época, ou pela privação de experiências agradáveis vividas anteriormente |
| 2. | [plural] cumprimentos a uma pessoa ausente; lembranças |
| 3. | [plural] BOTÂNICA nome de várias plantas da família das Dipsacáceas e das Compostas, e das flores respectivas; morrer de saudades sentir muito a falta (de) |





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" I've never loved anything the way he loves music."
Etiquetas: O Solista
"Porque no fim de contas o mar deve ser como Deus e Deus não pede que nos lastimemos e soframos e fiquemos sentados diante do mar ao frio da meia-noite para escrevermos sons inúteis, afinal de contas ele deu-nos as ferramentas da confiança em nós mesmos para que cortemos a direito através da mortalidade desta porcaria de vida e cheguemos ao Paraíso, espero eu - Mas alguns infelizes como eu não o sabem e quando chega a nossa vez ficamos atónitos - Ah, já que a vida é um portão, um caminho, uma via que conduz ao Paraíso, por que não havemos de viver para o prazer e a alegria e o amor de uma qualquer garota junto a uma fogueira, por que não havemos de buscar o que desejamos e RIR... mas eu fugi daquela praia e todas as vezes que lá regressei esse conhecimento secreto perseguiu-me: que ela não me queria lá, que para começar eu era um palerma por ter-me lá sentado, o mar tem as suas vagas, o homem tem a sua lareira, ponto parágrafo."
Etiquetas: Jack Kerouac
Ontem, o céu recebeu nos seus braços uma linda e maravilhosa alma.
(ou de como umas quantas palavras minhas e uma pequena troca de galhardetes, podem estimular a inspiração de alguém que muito prezo e dar origem a uma prosa tão bonita de tanta amargura e dor que a envolve. Obrigado, é o que posso escrever. Transcreve-se de seguida.)
Etiquetas: Bill Callahan
Acabei de me aperceber de uma verdade (que não política).

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Estava à espera mas não sabia bem do quê. Afinal, estava tudo terminado ou assim ela o tinha dito da última vez que tinham estado juntos. Ela tinha sido bem clara, disse-o com todas as letras, repetiu-o várias vezes e ele ficou calado. Um silêncio que, mais que consentir que ela tinha razão, era um silêncio resignado e incapaz de contornar a racionalidade dela. E a conversa, bem como o seu relacionamento, tinham efectivamente terminado naquele instante. Então porque estava ele ali, em frente à estação de caminho-de-ferro onde em breve chegaria o comboio onde ela viajava?