Terça-feira, Novembro 17, 2009

Prenda Minha - V

Enquanto se começa a paginar, será que nenhuma alma caridosa me quer pagar uma passagem para a grande maçã (atacada pelo verme Burton)? O Natal está aí...




Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Ondas Sonoras - XXXVIII

Para mim, foi muito bom. E será sempre uma opinião pessoal. É uma das bandas que há mais tempo me acompanha musicalmente. A primeira música que me lembro de ouvir deles foi o Just Can't Get Enough. Fui ver e a data do single é de 1981, teria eu cinco ou seis anos. Era uma música festiva, alegre e adorei imediatamente. Como mais tarde iria adorar também as músicas mais escuras, negras que iriam criar.

Everything Counts, People Are People, Master And Servant, Somebody, Shake The Disease, Stripped (cantada a plenos pulmões, no sábado), A Question Of Time (com o Dave a rodopiar como um maníaco, no sábado), Strangelove, Never Let Me Down Again (magnífica, no sábado), Behind The Wheel (com aqueles sons que batem fundo no coração, como no sábado), três discos seguidos que guardo religiosamente ainda em formato cassete, o ao vivo 101 (que, no sábado, me passou inúmeras vezes pela cabeça, na altura em que o gravei estaria longe de pensar que iria vê-los também ao vivo), a obra-prima Violator, com as sublimes Personal Jesus, Enjoy The Silence, Policy of Truth e World In My Eyes (todas elas tocadas no sábado, e só com elas fiquei completamente nas nuvens), e o étereo Songs Of Faith And Devotion (com I Feel You e Walking In My Shoes a deixarem-me quase rouco), e tantas outras músicas que ao longo dos anos me continuaram a fazer ouvir os Depeche Mode, mesmo quando já não pareciam ter a fama de outros tempos, Home (melhor momento de Martin Gore ao microfone, no sábado), Barrel Of A Gun, It's No Good (outra cantada de fio a pavio pelo público que esgotou o pavilhão atlântico no sábado), Only When I Lose Myself, Dream On, I Feel Loved, Precious (também presente no sábado), Suffer Well, John The Revelator, e as novas músicas que também me têm conquistado aos poucos e que abriram o concerto, In Chains, Wrong e Hole To Feed.

São quase trinta anos de música e se os Depeche Mode fossem a tocar todas aquelas que eu gostaria de ouvir, o concerto teria durado a noite inteira. Assim, deixaram-nos com duas horas de memórias, refrões inesquecíveis, aplausos intermináveis, gargantas a cantarem bem alto, músicas que continuam brilhantes mesmo com o passar dos anos.

Foi muito bom. E foi um daqueles momentos de felicidade tola. Mas valeu a pena.




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Sábado, Novembro 14, 2009

Mais logo (espero eu)



Esta é mesmo muito especial. Portanto, se os senhores decidirem tocá-la, serei uma pessoa muito, muito feliz. Eu sei, é pouca coisa para se ser feliz, mas pronto, eu assumo, hoje sou mesmo nostálgico e não, não tem só a ver com a música. Vou mesmo ser transportado para um passado, um passado que foi também ele feliz. E recordar tempos felizes, deve deixar um resquício de felicidade dentro de nós, não? Meet you there, Dave, Martin and Fletch.


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Quarta-feira, Novembro 11, 2009

Caça grossa

Aquela era a sua parede. A parede onde envergava os seus troféus. Nada que se parecesse com uma sala de caça, daquelas que se lembrava de ver sempre que ia em alguma visita de estudo a um antigo palácio. Aliás, costumava ter pesadelos com esse tipo de salas. Como se a qualquer momento aquele javali ou aquele outro veado fossem ganhar vida e persegui-la raivosamente, como se tivesse sido ela a disparar a bala que para sempre os tinha plantado naquela parede. Sentia um pequeno arrepio só de recordar esses pesadelos. Não, a sua parede era muito menos dolorosa para os respectivos troféus. Afinal de contas, só tinham perdido os seus chapéus. Nada de mais na verdade. Talvez ainda hoje os procurassem, desconhecendo o seu verdadeiro destino. Isto se ainda se lembrassem dela. Bom, alguns lembravam-se de certeza, aqueles em que o desvio do seu chapéu só tinha ocorrido depois de alguns meses ou anos, e não a seguir uma noite de suor e sexo. Como o chapéu do seu guia, durante uma viagem pela savana africana. Depois de cinco dias e cinco noites de convívio, com muitas fotografias de animais e paisagens, em que ele tentava meter conversa a todo o custo, tentando saber tudo o que havia para saber sobre aquela turista fotógrafa de outro continente, após esses dias e noites, e chegada a última noite que iria passar naquela terra tão estranha e tão maravilhosa, deixou-se abandonar aos encantos do seu guia, deixando-lhe a memória de uma noite de desejos e múltiplas posições e o ar quente da savana a entrar pelo quarto adentro, enquanto ela se saía do quarto antes do sol nascer, levando consigo o chapéu do seu guia engatatão. Será que ele sabia que o seu chapéu se encontrava ali, numa parede de uma casa no meio da cidade mais ocidental da europa? Talvez. O antigo dono do chapéu de côco sabia de certeza absoluta que era ali que o mesmo estava. Tinham sido dez meses a partilhar a cama e os lençois com aquele actor de teatro inglês, numa casa perto de St James Park. Dez meses que se foram passando lentamente, ela a fotografar os meandros do nevoeiro, ele a representar peça atrás de peça num pequeno teatro num beco londrino, personagem atrás de personagem, ela sentada sempre na plateia, imaginando com que personagem iria ela dormir nessa noite, se o rei lear se o polícia destroçado pela vida se o cavalheiro inglês de chapéu de côco do século passado, imaginando-se ela também actriz envergando as roupas dele enquanto ele a olhava maravilhado, em pelo, deitado na cama. E assim se passaram os dez meses, e assim concluiram que não iriam ter um final feliz, e assim acabou aquele chapéu de côco na sua parede. Mas havia mais. O chapéu do professor de inglês da faculdade. O chapéu de palhinha do colega madeirense do último ano do doutoramento. O chapéu do seu primeiro marido, que acabou por lho tirar da mão na altura em que se despediam e já depois de terem assinado os papéis que punham um ponto final em cinco de anos de casamento malfadado. E ela pensava que ainda havia muito espaço naquela parede. Muito, demasiado espaço. Especialmente se considerarmos que o seu actual marido não usava chapéu e nem tão pouco compreendia o porquê daquela parede. Talvez que se o sol continuasse a brilhar por aqueles dias, ela lhe oferecesse um boné daqueles com pala, esse ele até provavelmente o usasse. E afinal de contas, ela ficaria com a casa. E a parede, mais os seus adornos de uma vida, continuaria a ser sua.


(Foto tirada por Teresa Serpa)

Prenda Minha - IV

Por vezes deixo-me seduzir pela floresta, quando tenho a árvore mesmo à minha frente e nem assim viro o volante para evitar o embate que se avizinha.


Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Festa


O relato oficial fica por aqui. Eu fico-me pelas palavras do pai do João, que ontem foi não uma homenagem, mas sim uma festa da música, a música pela qual o João tinha uma paixão do tamanho do mundo, e que onde quer que esteja, o João está contente, feliz, com todas as pessoas e músicos que ontem se juntaram para celebrarem essa paixão que ele manteve até nos deixar. E que ele tenha sentido que todos os muitos aplausos que ontem se ouviram foram para ele, e ao mesmo tempo uma forma de adiarmos as lágrimas e olhos húmidos com que todos saímos do auditório. Arrepiante, lindo, indescritível.



(Puta de vida, merda de vida... porque é que os bons nos deixam sempre demasiado cedo?)


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Domingo, Novembro 01, 2009

O Mestre (1950-2009)


Estou sem palavras. Estou triste. O éter português está mais pobre. Descansa em paz, Mestre, a tua voz continuará a ecoar nos ouvidos de quem fica com saudades tuas.

Sábado, Outubro 31, 2009

Homenagem


Obrigado, prima. Não podia haver melhor prenda fora-de-horas do que a oportunidade de celebrar a vida de alguém que tanto deu à música portuguesa. Viverás para sempre, João.


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A idade das mãos

"Dentro do seu corpo grande, debaixo da sua pele, debaixo dos arcos largos das costelas, havia um coração que já não tinha força."

José Luís Peixoto


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Sexta-feira, Outubro 30, 2009

The Road

"Once there were brook trout in the streams in the mountains. You could see them standing in the amber current where the white edges of their fins wimpled softly in the flow. They smelled of moss in your hand. Polished and muscular and torsional. On their backs were vermiculate patterns that were maps of the world in its becoming. Maps and mazes. Of a thing which could not be put back. Not be made right again. In the deep glens where they lived all things were older than man and they hummed of mystery."

Cormac McCarthy

(Brutal. Genial.)


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Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Para que serve um gato?




Obrigado, irmão.

Promessa

"Andamos todos meios perdidos, disse ela de forma contemplativa e quase resignada, como se lutar contra a vida fosse semelhante a lutar contra o mar em tempos de bandeira vermelha. Como se apenas fosse possível tentarem manterem-se à tona."

(palavras de RF)

E se ela fosse a única que tentava de alguma forma nadar contra as vagas negras que a envolviam? O oceano conseguia ser um lugar muito solitário, mas naquele momento qualquer ponto do planeta seria solitário. Ela era a única que ainda nadava naquelas águas, que ainda caminhava por caminhos outrora povoados, que ainda palmilhava estrada citadinas há muito abandonadas. O silêncio daquele mundo apenas era quebrado pelo vento e pela chuva e trovoada que antecipava a vinda da noite. E a noite, com a sua escuridão negra e impiedosa, trazia-lhe uma espécie de reconforto retorcido. Ela preferia a ausência de luz àqueles dias mortos que a acompanhavam para todo o lado. Aquela luz cinzenta, mortífera, para sempre filtrada pelas nuvens que cobriam todo o planeta. Até o mar tinha perdido os seus azuis, os seus verdes, apenas ondas negras, umas atrás das outras. Não sabia porque razão ainda não tinha acabado com a sua vida, como tantos outros antes dela. Existia ainda algo dentro dela que lhe pedia, lhe suplicava para continuar a respirar, para continuar a enfrentar a morte de frente. Não sabia por quanto mais tempo esse sentimento perduraria. Sentia-se a afundar lentamente, para dentro de um mundo que não descansaria até sugar toda e qualquer réstia de esperança humana à sua face. Manter-se à tona? Sim, continuaria a fazê-lo, sozinha e sem mais ninguém nem nada pelo qual fazê-lo.

Espécie de homenagem fraquinha ao mestre.

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Terça-feira, Outubro 27, 2009

Palavras (em construção)


Ainda não o acabei de ler, mas há três coisas que já posso dizer. Cormac McCarthy escreve palavras que nos aceleram o ritmo cardíaco e nos deixam sem fôlego. Se me dessem a escolher ser eu a escrever qualquer livro, teria muito provavelmente sido este. E, finalmente, tenho a imediata certeza que este vai ser um livro que vou ler muitas e muitas vezes. Agora vou acabar de o ler, algo me diz que ainda vou ter algo mais a dizer sobre The Road.

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Terça-feira, Outubro 20, 2009

Saudade

nome feminino

1. sentimento melancólico causado pela ausência ou pelo desaparecimento de pessoas ou coisas a que se estava afectivamente muito ligado, pelo afastamento de um lugar ou de uma época, ou pela privação de experiências agradáveis vividas anteriormente

2. [plural] cumprimentos a uma pessoa ausente; lembranças

3. [plural] BOTÂNICA nome de várias plantas da família das Dipsacáceas e das Compostas, e das flores respectivas;

morrer de saudades sentir muito a falta (de)

(Do lat. solitáte, «solidão»)

(in Infopédia)

Mas hoje o termo saudade foi sinónimo de um momento de descoberta, de sorrisos repletos de sinceridade, de calmaria no olho da tempestade, enfim, de descanso de alma. Ou então, podemos retirar sabedoria das palavras sussurradas pela Nina, que iam enchendo aquele espaço tão bonito, no sopé da serra plantado.

"But I'm just a soul whose intentions are good;

oh Lord, please don't let me be misunderstood."







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Domingo, Outubro 18, 2009

Real.

" I've never loved anything the way he loves music."

Mesmo em versão cinematográfica, é dificil de ver este filme. É dificil porque sabemos que tudo ou quase tudo o que ali está a passar é real e não imaginado. Todos os milhares de sem-abrigos que rumam pelas ruas mais escuras de Los Angeles são reais. O desprezo a que são votados pela sociedade dita civilizada é real. A esquizofrenia de Mr. Ayers é real. Os seus ataques de fúria são reais. O seu sentimento de claustrofobia perante o resto do mundo é real. O seu talento é real. O seu amor à música é real. O facto de sabermos que a sua cura não irá acontecer e que provavelmente ele vai continuar a vaguear perdido até ao fim dos seus dias, soltando sons maravilhosos das cordas do seu violoncelo, tudo isso é bastante real. E é por isso que, mais que avaliar da qualidade do filme e dos seus actores, o que é importante é lembrarmos que o mundo pode ser terrivelmente injusto e, por isso mesmo, não deixar de ser amarguradamente real.

And now, meet the real Mr. Lopez and Mr. Ayers.




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Quinta-feira, Outubro 08, 2009

Big Sur

"Porque no fim de contas o mar deve ser como Deus e Deus não pede que nos lastimemos e soframos e fiquemos sentados diante do mar ao frio da meia-noite para escrevermos sons inúteis, afinal de contas ele deu-nos as ferramentas da confiança em nós mesmos para que cortemos a direito através da mortalidade desta porcaria de vida e cheguemos ao Paraíso, espero eu - Mas alguns infelizes como eu não o sabem e quando chega a nossa vez ficamos atónitos - Ah, já que a vida é um portão, um caminho, uma via que conduz ao Paraíso, por que não havemos de viver para o prazer e a alegria e o amor de uma qualquer garota junto a uma fogueira, por que não havemos de buscar o que desejamos e RIR... mas eu fugi daquela praia e todas as vezes que lá regressei esse conhecimento secreto perseguiu-me: que ela não me queria lá, que para começar eu era um palerma por ter-me lá sentado, o mar tem as suas vagas, o homem tem a sua lareira, ponto parágrafo."

Jack Kerouac

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Terça-feira, Outubro 06, 2009

Da fé.

Ontem, o céu recebeu nos seus braços uma linda e maravilhosa alma.

Viverás para sempre nos nossos corações, Ritinha. Nunca serás esquecida, mesmo por aqueles que não chegaram a ver o teu sorriso.

Um beijo cheio de lágrimas.



Domingo, Outubro 04, 2009

Tell me something I don't know


(PostSecret... it could have been me...)

Sábado, Outubro 03, 2009

Das palavras sublimes

(ou de como umas quantas palavras minhas e uma pequena troca de galhardetes, podem estimular a inspiração de alguém que muito prezo e dar origem a uma prosa tão bonita de tanta amargura e dor que a envolve. Obrigado, é o que posso escrever. Transcreve-se de seguida.)

Peindre ou faire l’amour

O comboio partira há pouco da estação e no entanto, era como se aquela semana se traduzisse em horas, apenas. Sabia que tinha de fugir para algum sítio e o Porto, onde vivia uma tia a quem prometia sempre no Natal uma visita, parecera-lhe o melhor lugar possível. Seria o último lugar onde ele a procuraria. Não tinha sido uma boa ideia. Desesperadamente, queria que ele a procurasse, que a encontrasse. Tantos os momentos que havia estado na Foz, à noite, naquela semana, com o telemóvel por companhia e que patética a sua figura. à terceira noite desistiu; o orgulho levara-lhe a melhor. Ela não haveria de ceder, não podia sucumbir à saudade de alguém que lhe fazia tanto mal. Além disso, tinha a certeza que ele não a entendia, que não a acompanhava nos sonhos, nas coisas que ela gostava de fazer, em nada, que não a amava. Não tanto como ela desejava, não como ela o amava. Agora tinha a certeza. A revolta tinha-se apoderado de si naquela tarde, ao perceber o quão estúpida era, e como aquela relação não a levava a lado algum. Apenas tinha tido tempo de avisar a chefe que se iria ausentar por uma semana, e num ápice, ir a casa fazer a mala. Aquela tarde, os gritos que dara em casa, os gritos que os vizinhos certamente teriam ouvido, os gritos de desamor, de uma pessoa mal amada, de uma pessoa amarga, os gritos de alguém que tinha chegado ao fim da linha, os gritos que esperavam obter uma resposta... por fim, os gritos que ficariam sem resposta. Os homens nunca entendem, os homens nunca sabem. As mulheres gritam porque estão assustadas, porque têm medo, os gritos servem apenas para encher o vazio, a frustração e o frio desse medo. O silêncio de um homem é a única coisa que deixa uma mulher que grita, assustada, sem rede. O grito que ela dá é o salto para o precipício, um precipício sem rede. Ele não lhe deu a rede, a resposta, o eco, nada. Silêncio. Resignação. Então falou, ela falou, falou, falou, falou até não poder mais, disse tudo o que lhe pareceram as melhores razões para justificar aquela saída, aquele fim. Para preencher o vazio, o frio, o medo, o silêncio. Atrás de si fechou a porta convicta de que assim era melhor.


O orgulho deu lugar a um alívio imediato, semelhante a um analgésico fraco para uma dor demasiado forte, que deu lugar a uma tristeza, intercalada com raiva, novamente acessos de orgulho e por fim, a saudade. Naquela semana, sentira acima de tudo, saudade. Saudade do cheiro dele, da voz, das palavras, até dos silêncios. Não lhe apetecia nada retornar à vida do costume. Com ele, era uma incógnita, nunca se entendiam, nada parecia bater certo; não tinham discussões, é certo, mas havia algo nele que lhe indicava que não era nada daquilo. Porque estaria ele com ela? Porquê todo aquele tempo? Agora, sem ele, tudo o que haviam vivido parecia afinal ter algum sentido. Ou seria a saudade a falar mais alto?


Estava cansada, não dormira nada naqueles dias no Porto. Detestava a cidade, as pessoas, tudo lhe parecia escuro e sujo. A tia era uma chata do caraças, sempre preocupada, sempre aquela pronúncia, nem tinha conseguido guardar segredo e o pai ligara logo na segunda noite a perguntar se estava tudo bem. "Claro que está tudo bem". Eram apenas uns dias para tirar umas fotografias para um novo trabalho. Isso ao menos correra bem, ao menos isso! A cidade tinha uma luz diferente de Lisboa, mais difícil de editar e trabalhar, mas até isso aproveitou para o estado de espírito menos "saudável".




::fotografia retirada de http://arcoirisreloaded.aminus3.com::



Agora, estava ali, naquele comboio, era já noite, passava Coimbra B, e estava frio, lá fora, dentro do comboio, dentro de si, sentia o frio e decidira fumar um cigarro para "aquecer". Maldito vício. Três tentativas para deixar e nada. Longe iam os tempos em que fumava Marlboro; agora com o preço do tabaco sempre a aumentar, limitava-se a fumar do mais barato que havia no mercado, ou daquele que a prima lhe mandava dos Açores, da tabacaria Estrela. Era horrível, mas a menos de dois euros, sabia-lhe divinalmente. Tirou o maço do bolso do casaco de malha preto que ele lhe tinha oferecido no passado dia dos namorados. Irónico, não? "Dia dos namorados... foda-se que sou mesmo estúpida, caramba!"


Olhou lá para fora e enquanto tirava o isqueiro para acender o cigarro que tinha nos lábios, caíu-lhe algo mais do bolso. Era um bilhete de cinema amachucado. Ela fazia colecção de toda a porcaria que um dia pudesse recordar e os bilhetes de cinema não eram excepção. Tudo o que fosse concerto ou filme ou peça de teatro ou um pedaço de papel com anotações especiais, pensamentos ou fotografias íam parar ao álbum. Aquele, não teria sido um muito melhor filme para recordar, de entre tantos que ela gostava de ir ver ao King, talvez por isso decidiu não o incluir no álbum. Ele tinha adormecido durante a exibição da película francesa e pela conversa posterior, achava que aquilo tinha algo a ver com uma família. Ela riu-se, como se ria sempre e achou melhor não dar importância ao caso. Estavam algo desencontrados, talvez um dia se encontrassem a sério.




Agora, naquele comboio, pareciam-lhe mais distantes que nunca. Ela não a procurara, todas as razões lhe pareceram plausíveis, concluíu. O fumo do cigarro tranquilizava-a. Soprava o fumo, travava novamente o fumo dentro de si, prendia-o durante segundos, aquilo era mesmo bom. Um rapaz olhava-a fixamente, do seu lugar, na carruagem, enquanto ela fumava de pé, junto à porta. Lembrou-se de Manoel de Oliveira, aquilo parecia um filme do Manoel de Oliveira. Fechou os olhos, ela era a figura principal, a luz estava impecável, princípio de noite semi-fria de Outubro, e aquele rapaz bem poderia ser a sua nova conquista. Talvez fosse de Lisboa, talvez fosse o seu velho/novo/de sempre/Grande Amor que tinha, também ele, o seu coração despedaçado por alguma bimba que havia despachado no Porto, um amor impossível, separados pela distância, e agora conhecia-a a ela, uma romântica incurável, apaixonada, e haviam de ver todos os concertos e ler todos os livros e ele de certeza iria dar-lhe a conhecer um mundo novo e... estava a fazer um filme. Instantaneamente, o rapaz pareceu-lhe adivinhar o pensamento desesperado e desviou o olhar. Era um mundo cruel, aquele, e ela não queria conhecer mais ninguém. Isso dava muito trabalho e não estava disposta a isso: encontros, saídas, engates, jantares, conversas, estava demasiado cansada. Na verdade, ela não queria mais ninguém. Só queria que aquela dor parasse, que o sono chegasse, que as lágrimas parassem e deixasse de fazer a conversa mental consigo mesma que as coisas podiam ter outra solução. Não tinham. Estava tudo irremediavelmente perdido. Acabado.


Ligou o iPod e deixou que o modo aleatório lhe desse uma pista sobre que caminho havia de tomar. Não poderia ter sido mais angustiante o sentimento que surgiu quando ouviu os primeiros acordes da guitarrinha ironicamente alegre do Bill...A Man Needs A Woman Or A Man To Be A Man...

in Psicologias da Treta


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Sexta-feira, Outubro 02, 2009

Ninguém diria melhor...


...e acabo de descobrir que sou um completo desentendido.

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Lost in new age

Acabei de me aperceber de uma verdade (que não política).

Gostava de ter um ferrari e uma conta bancária avultada, e ser um bem sucedido profissional, para passados uns anos chegar à conclusão que não era feliz nem saudável física e mentalmente, e deixar tudo para trás e vender o meu ferrari, e partir numa demanda pela minha paz espiritual, acabar perdido numa qualquer cadeia montanhosa coberta de neve, escapar às garras do abominável homem das neves, para acabar nas garras de uns quantos monges a viverem num vale perdido de uma beleza indescritível, tornar-me pupilo desses mesmos monges que parecem umas cópias uns dos outros, passar meia dúzia de anos em ensinamentos profundos, atingir um estado de comunhão com todo o universo numa manhã particularmente luminosa, escapar às garras dos monges que já não tinham nada para me ensinar, voltar ao mundo dito civilizado, espalhar a boa nova do meu estado de comunhão com o universo com todas as pessoas que me aparecessem pela frente, elaborar uma tourné de palestras onde explicaria às pessoas como podiam ser muito mais felizes se seguissem os meus ensinamentos, lançar livros em série sobre todos os passos iluminados que me levaram à minha comunhão com o universo de modo a que muitos milhões de pessoas o pudessem comprar para serem também bafejadas pela iluminação espiritual, conseguir ser portanto um monge extremamente bem sucedido, com uma conta bancária super-hiper-mega avultada, e no final do dia poder escolher entre qual dos dez ferraris estacionados à porta da minha mansão iria encetar uma nova viagem de paz espiritual até ao aeroporto em trânsito para a minha ilha particular.

Ufa, o que seria de nós sem guias espirituais que falam da verdade (que não política). E sem vulnerabilidades (que não políticas).

Serviço de utilidade pública - XXV


Poste de eletricidade, Lisboa, Setembro 2009

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Porta fora.


Ainda me lembro dos tempos em que nunca teria coragem de dar certos passos. De certa forma o que sinto não é bem melancolia mas sim que estou frente a um espelho retorcido, daqueles que se viam na feira popular, e que aquele que me olha sou eu mas que também já não sou eu. É um outro ser humano, não sei se melhor ou pior do que eu, apenas muito diferente e distante no tempo. E o tempo, tal como alguns sacanas, não faz prisioneiros.

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Segunda-feira, Setembro 28, 2009

Papelada

Estava à espera mas não sabia bem do quê. Afinal, estava tudo terminado ou assim ela o tinha dito da última vez que tinham estado juntos. Ela tinha sido bem clara, disse-o com todas as letras, repetiu-o várias vezes e ele ficou calado. Um silêncio que, mais que consentir que ela tinha razão, era um silêncio resignado e incapaz de contornar a racionalidade dela. E a conversa, bem como o seu relacionamento, tinham efectivamente terminado naquele instante. Então porque estava ele ali, em frente à estação de caminho-de-ferro onde em breve chegaria o comboio onde ela viajava?

Puxou de um cigarro. Era o último. Devia ser o último, pensava ele. Já tinha perdido a conta à quantidade de vezes que prometia a si próprio que ia deixar de fumar. Mas passavam-se dias, meses, e por vezes anos, e lá voltava ele ao hábito da nicotina. Normalmente o tabaco ajudava-o a concentrar-se, a pensar no seu próximo passo. Mas hoje não era o caso. Nenhum pensamento lhe ocorria enquanto o cigarro ia desaparecendo num monte de cinzas. Estava nervoso. O que iria ele dizer-lhe quando a visse? Conseguiria ele dizer todas as palavras que lhe ocorreram naquelas quatro semanas em que ela tinha estado fora? Ou ela nem iria dar-lhe uma oportunidade de falar quando o visse ali, especado à sua frente? Não, ela tinha que o ouvir, tinha que lhe dar uma chance de reparar o silêncio com que ele tinha acolhido as suas razões para estar farta das desculpas dele. Não, ela não seria cruel a esse ponto, por muito magoada que estivesse com ele. Ele tinha que falar com ela, tinha de lhe dizer o quanto a amava, o quanto não o sabia até ao momento em que ela lhe disse que se ia embora da vida dele. Ele tinha que lhe dizer que era um idiota, um anormal completo por não ter percebido isso antes. Por não ter percebido que a vida dele não estava completa sem ela, sem o amor por ela.

Estava frio. Meteu as mãos aos bolsos. Sentiu alguns papeis no bolso esquerdo. Tirou-os e olhou para eles como se fosse a primeira vez que os via. Rapidamente compreendeu que se tratava de um quase diário do que se tinha passado naquelas últimas semanas. Um bilhete de cinema, um bilhete de comboio e um talão de uma compra paga com o cartão de crédito.

O bilhete de cinema já andava nos seus bolsos há mais de um mês. Tinha sido a última vez que tinham ido juntos ao cinema. Tinham ido ao centro da cidade ver um filme francês que estava numa única sala. Ela adorava filmes franceses, gostava da língua e dos personagens, achava que mais ninguém conseguia fazer filmes como os realizadores franceses. Ele gostava deste amor que ela tinha pelo cinema francês. Se não fosse o bilhete, já não se lembraria do nome do filme. Lembrava-se que era sobre uma família e uma casa. Também se lembrava que o fim do filme o tinha apanhado completamente desprevenido e por isso tinha saído da sala com um travo amargo na boca. Ela tinha adorado, como sempre. Lembrava-se que depois do filme foram dar uma volta a pé. A noite estava quente e ela gostava sempre de falar imenso com ele, para saber o que ele achava do filme, se ele tinha gostado ou não e porquê. E normalmente acabavam sempre por falar deles próprios, se seria possível as situações do filme acontecerem com eles os dois. Se iriam ser sempre felizes, se iriam ter filhos e tornarem-se uma família, se afinal de contas não estavam destinados a ficarem juntos. Falavam disto tudo. E quando chegavam a casa, beijavam-se e chegavam à conclusão que a sua vida nunca seria igual a um filme francês.

O bilhete de comboio ainda não tinha sido usado e, pela data que tinha, também já não poderia ser usado. Tinha-o comprado uma semana depois de ela ter saído de casa, quando finalmente tinha descoberto que ela estava na casa de uns familiares, no norte do país. As noites que tinha passado em claro depois de ela se ter ido embora tinham-lhe retirado bastante do seu pragmatismo e ele tinha ido reagido aos seus impulsos sem pensar nas consequências. Só quando já estava na estação e com o bilhete na mão é que se apercebeu de que ela tinha mesmo razão quando o deixara. Que ele tinha-se portado de uma forma repugnante e que assim não havia paixão que pudesse manter-se intacta. Apercebeu-se também que o silêncio ensurdecedor com que ele tinha respondido aos gritos dela se devia a uma completa ausência de palavras minimamente justificadoras que ele pudesse dizer, e que esse silêncio ainda permanecia. Que ele sabia que a amava, que não sabia se ela ainda o podia amar, e que, pior que tudo, se se encontrasse com ela, não saberia o que dizer. Sentiu os olhos húmidos, meteu o bilhete de comboio no bolso e saiu da estação enquanto o comboio partia.

O talão de compra. Parecia que lhe ardia na mão. Virou-o ao contrário e reviu um número de telemóvel escrito a tinta permanente. Tornou-o a virar e foi-se recordando daquela noite passada num bar escuro, bebida atrás de bebida, cigarro após cigarro. Lembrava-se que nessa noite a angústia que o perseguia com a ausência dela atingiu o limite. Decidiu refugiar-se ali, longe do resto do mundo, só ele, o seu tabaco e o seu copo. Já se sentia resignado, já não queria saber dela para nada, mas isso não significava que no seu coração as coisas estivessem terminadas. Sentiu a presença de alguém que se sentava ao seu lado. Uma mulher. Uma mulher que lhe lembrava as actrizes francesas de que ela tanto gostava. Ela meteu conversa com ele, e ele sentiu-se abalar na solidão que pretendia. Mostrou-se receptivo e conversou também com ela. Não se lembra das palavras que foram trocadas, já tinha bebido demasiado para isso. Os únicos gestos que recorda daquela mulher eram o beijo ofegante que ela lhe deu antes de se despedir e o número de telefone, escrito à pressa nas costas de um talão. E lembra-se também que nunca lhe chegou a telefonar, que no dia seguinte se levantou com a mãe de todas as ressacas, e que, enquanto bebia o café e olhava através do vidro da janela, sentiu saudades dela. Sentiu que a falta dela era insuportável e que não se conseguia imaginar sem ela ao seu lado.

O cigarro estava morto entre os seus dedos. Guardou no bolso os papéis e apagou o cigarro com a ponta do sapato. Apertou o casaco e atravessou a estrada, na direcção da estação. Caminhava lentamente para o local onde sabia que o comboio em que ela viajava começava a surgir.