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terça-feira, abril 10, 2007

Tempo

Alguns barcos, alguns bares. O mar ali mesmo ao lado, tão perto quanto é possível nesta altura do ano. Umas quantas pessoas por ali, a passear, sentados, a correr, a aproveitar o bom tempo que ainda se vai sentindo, antes que aquelas nuvens ao longe se aproximem. À minha frente um casal mais o filho, quase a entrar na adolescência. Ela abraça-o, ele puxa-a para si. Parecem apaixonados. Vão ouvindo o filho a falar incessantemente sobre os barcos parados mesmo ali. Mesmo ao meu lado, um outro casal, este de muitos anos, provavelmente muitas décadas. Os cabelos brancos dele e as rugas por baixo dos olhos dela apenas os tornam ainda mais sublimes, de uma beleza pura e intocada. Vão trocando sorrisos com o empregado de mesa, enquanto ele os ajuda a escolher a refeição. Para eles os dois, a vida continua a valer a pena, ou assim parece. Do outro lado, nas mesas junto ao corrimão, duas raparigas da minha idade vão conversando, baixinho, muito baixinho. De óculos escuros, viradas para o sol, em busca de luz, seja para as guiar, ou apenas para lhes dar alento de seguir o caminho que desejam. Serão amigas de muitos anos e de muitos episódios, a julgar pelos silêncios cúmplices que deixam escapar de vez em quando. Também recebem muitos olhares do grupo que se encontra à sua frente. Quatro amigos em grande galhofa, a beberem imperiais e a discutirem os assuntos banais de quem não precisa de grandes conversas para se divertirem uns com os outros. Os olhares para o sexo oposto, a futebolada da semana, os copos mais logo quando o sol se puser, e os telemóveis, a interromperem a conversa quase à vez, quase a tentar puxá-los para a realidade. E eu ali estou. A observar tudo por trás dos óculos escuros. Com um copo à minha frente e, felizmente, com a ausência do cinzeiro em cima da mesa. Só com o livro que comecei a ler ontem. Com a companhia das primeiras páginas que se vão revelando. Uma torrente de jargão de neurocirurgia, quase incompreensível, não fossem os muitos episódios vistos e revistos do House. O sentimento de viver numa sociedade encoberta por nuvens de terrorismo, fundamentalismo e violência sem limites e que, quando menos esperamos, nos deixam em sobressalto. A história de como um romance pode nascer de uma tragédia que acaba por se tornar benigna, e que floresce como quem cuida de um jardim. Só eu, mais o meu livro, o copo, e o sol que me vai aquecendo. E neste momento não preciso de mais nada. Só isto e a vida que me rodeia. Aqui no cais, a ver a maré a encher, sem me preocupar com o passar do tempo.