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quarta-feira, março 14, 2012

Variações sobre a amizade...

... do Miguel Esteves Cardoso...


... do meu homónimo escritor preferido...

"É certo que tenho amigos destes. Felizmente. Algumas pessoas, que por razões que nem a elas nem a mim assistia poder alterar, só as posso ver de quando em vez, , porque vivem noutro país, noutra cidade, noutros enquadramentos. mas há pessoas que assumem esta posição quando nada o obriga a tal. Quero com isto dizer que o recorte das chamadas amizades próximas também vive de uma combinação entre rega e presença, e que, em alguns casos, se isso não acontecer, não se gera acrimónia ou desgosto, mas algo fica diferente. O que, no passado, já me entristeceu, porque verifiquei que os queria mais próximos, mais "quotidinizáveis", e não conseguia. Ou perdia-se o enquadramento.
Uns esqueceram-me, outros esqueci-me deles, e alguns permaneceram e permanecem, felizmente. Mas não julgo que a amizade de sempre, que aquele acervo precioso de com quem contamos, seja em que perspectiva fraterna for, esteja isenta de riscos quando a ausência é maioritária ou esmagadora.
No fundo, não é colocar em causa o que o MEC diz, mas simplesmente achar que as minhas empatias, e atrevo-me a dizer, mais algumas, sobrevivem à custa da vivência, da tal partilha dos nadas, da cumplicidade das histórias que depois se tem para contar. Acho eu...
A prova de que talvez eu esteja mesmo enganado, é que este meu amigo está longe, e de facto está perto. Mas se também o preferiria ver mais vezes, e desafiá-lo para as as jornadas fílmicas nas salas de cinema manhosas do Monumental? Também é verdade.
Ao menos Domingo lá estaremos."



... da minha calamidade preferida....

"um Senhor Malhumorado que conheci dizia que a Amizade e o Amor eram como as plantas.
Daqui, julgo que quem conhece as ditas, mais a terra e as fragas poderá tirar muitas ilações...
ele é o terreno, a água, o sol, o frio, mais ou menos luz, a fragilidade da cepa, a enxertia que se quer fazer, se são de fruto ou decorativas...se árvores para durar cem anos ou daquelas flores exóticas sem cheiro para adornar mesa de ministro."



segunda-feira, junho 14, 2010

Is your soul weighing you down?







Ela escapou-me. Bastou virar-lhe as costas por alguns segundos e ela já não estava ali. Corri atrás dela, desenfreado, fora de mim. Como é que ela se atrevia a deixar-me? Ali, sozinho e indefeso, incapaz de me proteger contra as amarguras que me esperavam ao virar da esquina. Seria quase uma cuspidela na minha cara, querendo castigar-me por tudo aquilo que ao longo do tempo lhe tinha dado. Tudo aquilo que fazia de nós a nossa essência. E que agora ela parecia disposta a renegar, procurando fugir para onde nada daquilo fosse realidade. Porque me tratava ela assim? Quase não sentia forças nas pernas e quase já não a via no labirinto das ruas da cidade. Porque me tratava ela assim? Tinha-lhe prometido que nunca seria capaz de me separar dela, mesmo naquelas alturas em ela me sufocava, quando eu já não conseguia respirar de tanta aflição, quando o nó do estômago me apertava com tal força que não sentia nada no meu corpo. E mesmo assim... Nem sequer se despediu. Nem sequer um até sempre. Nada. Rigorosamente nada. Espezinhava sem misericórdia toda a nossa vida em conjunto. Ela parecia voar para longe, afastando-se mais e mais, enquanto eu apenas tentava manter-me minimamente equilibrado à medida que sentia todos os meus músculos implodirem numa manobra conjunta para me fazer parar sem a alcançar. E depois deixei de a ver. E deixei-me encostar a uma parede e escorreguei até o meu corpo atingir o chão. E tão depressa como ela se tinha apercebido da sua condição de estar acorrentada a mim até ao fim dos nossos dias, assim tinha desaparecido para sempre da minha vida. Pensei que iria chorar convulsivamente. Pensei que não iria conseguir mais viver. Pensei que em breve todo o mundo poderia ler o meu nome numa qualquer lápide. Pensei em tudo e em nada. E quando me dei por mim, senti que nada disto se estava a passar. Que por mais que pensasse que a vida tinha terminado, o que realmente estava a sentir é que a vida estava apenas a começar. E que agora que ela já não estava ali, sempre comigo, sentia uma vontade de viver como nunca tinha sentido. Mesmo que estivesse incompleto, como estava. E no meu íntimo algo me dizia que ainda não tinha sido a última vez que a tinha visto. Não conseguia perceber isto, mas a verdade é que enquanto também eu me afastava dela, apenas me conseguia lembrar de algo que tinha lido uma vez,

"O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende."



(Um filme bonito. Acho que é só isso que posso dizer. Ou então dizer que um dia gostava de escrever uma história assim. De um humor agreste, de uma humanidade desconcertante, de um mundo que quase não nos deixa espaço para descobrirmos quem realmente somos. Gostava mesmo de escrever coisas como esta bonita história. Vou vê-lo outra vez, para ver se aprendo alguma coisa...)




segunda-feira, março 29, 2010

Os Meus Problemas

"As pessoas felizes são aquelas que têm vergonha de falar nisso. Em Portugal, dizer «Eu sou feliz» é como dizer «Eu sou rico» ou «Eu sou de boas famílias». É escandaloso. Pode dizer-se «Hoje estou bem disposto!», porque é como confessar uma anormalidade. É notícia. Dizer «Hoje estou mal disposto» é muito menos assunto de primeira página - é como a notícia «Homem mordido por cão no Rossio». Em contrapartida, a notícia «Hoje acordei bem disposto» é mais aliciante; como «Cão mordido por homem no Terreiro do Paço».

Ninguém tem pachorra para aquelas bestas sadias que estão sempre alegres e bem dispostas - é uma atitude de desrespeito perante a vida e a desgraça dos outros. Em Portugal, o que convém é andar mais ou menos. À pergunta altamente irritante «Então? Bem disposto?», não é lícito nem responder que não («Deixe-me soterrá-lo nalgumas misérias minhas»), nem responder que sim («Deixe-me enaltecer junto de si alguns dos meus triunfos pessoais mais recentes»). A resposta de protocolo é «Oh...», encolher os ombros, sorrir como quem diz «O que é que se há-de fazer?» e perguntar «Então e tu?», com ar de quem já sabe a resposta.

(...)

A felicidade, em Portugal, é considerada uma espécie de loucura. Porquê? Porque os Portugueses, quando vêem uma pessoa feliz, julgam que ela está a gozar com eles. Mais precisamente: com a miséria deles. Não lhes passa pela cabeça que se possa ser feliz sem ser à custa de alguém. Acham que as pessoas felizes são esponjas-com-pernas, daquelas de banho, cor-de-laranja, muito alegres, que andam pelas ruas a chupar a felicidade toda às outras pessoas."

Miguel Esteves Cardoso


domingo, dezembro 28, 2008

In the year 2009

"Perto do Martim Moniz, um taxista elucidou-me: isto vai ser bom é para o Brasil, a Rússia e a Índia. Os chineses também estão muito confiantes em 2009, que no Zodíaco Chinês é o Ano dos Tecidos Baratos e dos Brinquedos à Base de Chumbo."

Filipe Homem Fonseca


"As obras nas escolas vão também ser mais céleres, em vez de durarem anos. Em 2009 acabarão as aulas ao som desses primos afastados dos rouxinóis, os berbequins. A nova equipa ministerial saberá que a indisciplina é provocada por muitos factores, mas que alguns são tragédia anunciada: prevê portanto acabar em breve com as aulas em salas sem condições, e também com a invenção de matérias absurdas só para manter as crianças sob controlo, fazendo das aulas mais jaulas que aulas. Das aulas saem, com sorte, cidadãos; das jaulas, não nos queixemos se saírem feras".

Rui Zink


"Digo «manigananciosos» porque, nesta previsão política profissional, há medidas iguais de manigância e de ganância. É que as listas de previsões são também as wishlists dos autores, os previdentes. Não são dirigidas ao Pai Natal mas ao Bebezinho do Ano Novo: «Querido Bebezinho do Ano Novo, o que eu queria que acontecesse em 2009 era que o PSD fosse reduzido a escombros para eu tomar conta dele e que o Manuel Alegre conseguisse reunir ainda mais esquerdistas inúteis para tirar votos ao mau do Sócrates e que os preços das coisas subissem muito para ver se este estúpido deste povo percebe que é altura de ser eu a mandar nesta merda, se fazes favor. Obrigadinho e vê lá isso, compinchinha do meu coração aflito!»"

Miguel Esteves Cardoso


quarta-feira, março 05, 2008

Explicações de Português

"Fazer amor é sempre a expressão mais indicada. Quem me dera que os Portugueses a aplicassem mais vezes. Quando um portuga olha, desesperado, para o recibo do vencimento e vê que o patrão lhe descontou a verba quase toda, por que é que não diz, em vez do costume, «Pronto! Já me fizeram amor!»?
Quando uma mulher portuguesa já não pode ouvir mais o namorado ou marido a protestar e a queixar-se por tudo e mais alguma coisa, por que é que, em vez de encrespar, não diz simplesmente, «Ó filho, não me faças amor ao juízo!»?
Seja na forma rude ou na forma polida, a expressão é estranha. Quem é que não gostaria que alguém lhe fizesse amor ao juízo? Ao juízo, que anda sempre tão carente. Ao juízo ou a outra parte qualquer. É ou não é estranha a civilização ocidental, onde a pior coisa que se pode dizer é mandar alguém ir-se fazer amar («Vai-te fazer amor!»)?"

Miguel Esteves Cardoso

terça-feira, novembro 29, 2005

Explicações de Português

“Sair da vida. Cair na morte. Sofrer. Iludir. Acabar. Permanecer na cama. Pensar em tudo o que se faz como se fosse a última vez. Esmorecer. Querer voltar atrás e fingir que já não se pode. Confessar. Pedir. Esvaziar. Ter pena de quem se foi e do que se fez. Rejeitar o perdão, a redenção, a última oportunidade.”

 

terça-feira, novembro 01, 2005

Explicações de Português

“Ser amigo é ser e deixar ser. Livre. Podermos ser totalmente egoístas e, ao mesmo tempo, preocuparmo-nos com o outro com a mesma intensidade – como é possível? Não interessa. É. O nosso bem e o bem dos amigos confundem-se.”