Pedro Paixão
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quarta-feira, dezembro 25, 2013
Do Mal o Menos
"Se por algum desígnio voltar a esta terra amada gostava de ser uma árvore visitada por aves no verão, por onde se passeassem os esquilos, onde se escrevessem no tronco pequenos nomes humanos apaixonados. Uma árvore de uma floresta do norte onde no inverno cai a neve e há aquele silêncio que tudo guarda. E que depois fosse cortada por um lenhador, pai de uma família grande e saudável, e que parte de mim fosse logo queimada, o seu calor cozendo a comida de todos e que com a melhor madeira se fizesse uma mesa onde alguém um dia escrevesse uma carta a alguém que estivesse longe para lhe dizer que a amava."
terça-feira, outubro 01, 2013
Fumo e depressão
"Recomecei a fumar. Tinha saudades. O meu médico diz que é bom sinal. Que estou menos deprimido. Que quando se está deprimido até ao prazer de fumar nos recusamos. Parece-me curioso mas acredito. O meu médico fuma cigarros consecutivamente e não me parece nada deprimido. Como seria um psiquiatra deprimido, com a sua própria vontade de morrer, a tratar as depressões de outros?
Voltei a fumar tal como deixei de fumar. Sem dar por isso. De uma dia para o outro. É bom fumar. É uma metáfora do mundo. Tanto tempo para as coisas se mostrarem, se fazerem, tão pouco para desaparecerem, tão pouco para durarem. O tempo de fumar um cigarro até meio."
Pedro Paixão
domingo, setembro 22, 2013
Dogwalker
"Vim para aqui para escapar de outros lugares. Fiquei por aqui por não haver outro sítio que pudesse chamar meu. Esta cidade não é de ninguém. É de quem cá chega, vive e morre, para poder voltar a não ser de ninguém. Uma nação de estrangeiros num mesmo navio que o milagre da vontade impede de naufragar. Ou então é outra coisa, não sei, não costumo pensar nisto. Sei que há horas em que me sinto feliz por estar por aqui e basta."
Pedro Paixão
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
Muito, Meu Amor
"E na parede branca estava escrito um poema. Queres
que to diga? Era mais ou menos assim:
As pessoas são insensatas, inconstantes e egoístas.
Ama-as, apesar de tudo.
Se fizeres o bem serás acusado de agires por outros
motivos.
Faz o bem, apesar de tudo.
Se tiveres êxito ganharás falsos amigos e verdadeiros
inimigos.
Tenta alcançá-lo, apesar de tudo.
Todo o bem que fizeres amanhã será esquecido.
Faz o bem, apesar de tudo.
A honestidade e a franqueza tornam-te vulnerável.
Sê honesto e franco, apesar de tudo.
O que passaste anos a fazer será destruído numa só
noite.
Constrói o que tens de construir, apesar de tudo.
As pessoas precisam de ajuda mas atacar-te-ão se as
ajudares.
Ajuda-as, apesar de tudo.
Dá o melhor de ti e serás atingido nos dentes.
Dá ao mundo o melhor de ti, apesar de tudo.
E depois?"
que to diga? Era mais ou menos assim:
As pessoas são insensatas, inconstantes e egoístas.
Ama-as, apesar de tudo.
Se fizeres o bem serás acusado de agires por outros
motivos.
Faz o bem, apesar de tudo.
Se tiveres êxito ganharás falsos amigos e verdadeiros
inimigos.
Tenta alcançá-lo, apesar de tudo.
Todo o bem que fizeres amanhã será esquecido.
Faz o bem, apesar de tudo.
A honestidade e a franqueza tornam-te vulnerável.
Sê honesto e franco, apesar de tudo.
O que passaste anos a fazer será destruído numa só
noite.
Constrói o que tens de construir, apesar de tudo.
As pessoas precisam de ajuda mas atacar-te-ão se as
ajudares.
Ajuda-as, apesar de tudo.
Dá o melhor de ti e serás atingido nos dentes.
Dá ao mundo o melhor de ti, apesar de tudo.
E depois?"
Pedro Paixão
(a dobrar)
sexta-feira, fevereiro 15, 2013
terça-feira, fevereiro 05, 2013
Vida de Adulto
"Vivemos de histórias que nos contamos. Repetimo-las
muitas vezes e pouco importa quem as conta ou quem as
viveu. Algumas são inventadas. Rimos delas, por mais trá-
gicas que sejam. Não temos pena de nós, temos pena
do mundo, o que quer que isto queira dizer. Mas o que é
que importa? O que importa é que a nossa situação é in-
suportável.
Sentados à volta de uma mesa de café move-nos uma
fúria em esgotar o tempo com palavras. Em silêncio ex-
tinguimo-nos. É a única certeza. Sofremos por saber
como cada um precisa de ajuda urgente e somos incapa-
zes de o ajudar no que é preciso. Pelo contrário, prejudi-
camo-nos. Somos má companhia uns para os outros,
como diriam os nossos pais com razão e já sem ela.
Nem há ninguém que nos acuda se nem a nós própri-
os nos suportamos. Sim, incansavelmente escavamos tú-
neis dentro de nós para aí nos perdermos."
muitas vezes e pouco importa quem as conta ou quem as
viveu. Algumas são inventadas. Rimos delas, por mais trá-
gicas que sejam. Não temos pena de nós, temos pena
do mundo, o que quer que isto queira dizer. Mas o que é
que importa? O que importa é que a nossa situação é in-
suportável.
Sentados à volta de uma mesa de café move-nos uma
fúria em esgotar o tempo com palavras. Em silêncio ex-
tinguimo-nos. É a única certeza. Sofremos por saber
como cada um precisa de ajuda urgente e somos incapa-
zes de o ajudar no que é preciso. Pelo contrário, prejudi-
camo-nos. Somos má companhia uns para os outros,
como diriam os nossos pais com razão e já sem ela.
Nem há ninguém que nos acuda se nem a nós própri-
os nos suportamos. Sim, incansavelmente escavamos tú-
neis dentro de nós para aí nos perdermos."
Pedro Paixão
segunda-feira, fevereiro 04, 2013
"Do mal o menos"
Já muitos me tinham falado naquele livro. Que era excelente, que eu tinha de o ler, que assim que lesse a primeira página já não o conseguiria pousar sem chegar à última das frases lá escritas. Por isso a expectativa estava criada e colocada em patamar altíssimo. Aproveitei um fim-de-semana com mais um dia para me agarrar à anunciada leitura. Sentei-me no meu banco de jardim predilecto, protegido pelos céus azuis intermináveis e aquecido pelo sol primaveril fora de estação. Li a dedicatória, "Para a Paula, que me inspira todos os dias". Depois de tantos anos, consegui achar graça à coincidência e virei a página. Capítulo um. Ao fim de alguns parágrafos, compreendi o porquê de toda a gente que eu conhecia me dizer que ia gostar do livro. A forma, o estilo, a cadência das palavras, tudo escrito num ritmo avassalador, sem barreiras nem descontos de tempo, todas aquelas páginas iam ao encontro daquilo que me agradava num livro. O autor, quase um desconhecido para mim, escrevia bem e sabia contar uma história com alma, com paixão, com tudo aquilo que um livro deve ser. Continuei a ler, as páginas sucediam-se sem eu dar conta, deixei passar a hora da refeição, continuava sentado no banco de jardim, o livro era o meu repasto naquele momento. Capítulo dez. Estranho. Havia um sentimento de familiaridade que atravessava aqueles capítulos, aquela história, algo que me perturbava mas que me instigava a continuar a ler. Até que cheguei àquele capítulo, e aí tudo se tornou horrivelmente claro. Naquele capítulo todas as peças se encaixaram e tudo fez sentido na minha cabeça. É claro que a história lhe era familiar, pois se aquela era a minha história. A história de três anos da minha vida, três anos que eu tinha enterrado no mais fundo do meu cérebro, três anos que apenas me traziam amargos de boca e dores desnecessárias ao coração. Os nomes eram outros, os sítios tinham mudado de país, as paisagens eram geograficamente as mesmas. A casa estava reproduzida ao mílimetro, as horas estavam ali, irrevogavelmente presas nas folhas daquele livro. Tudo se tinha passado daquela forma, e agora já não havia muitas dúvidas sobre quem era a Paula da dedicatória. Restava, então, mais aquela humilhação, a última lâmina a encontrar o caminho para as minhas costas. Tanto tinha lutado para deixar aquele período da minha vida perdido nas teias do passado e agora ele entrava de novo, de rompante, na minha vida, imperdoavelmente deixando-me novamente de rastos. Tentei convencer-me que ela não podia ter feito aquilo, expôr a nossa história para todo o mundo a ler, a conhecer, a devorar enquanto best-seller. Mas era inútil, o mal estava feito, nada faria o tempo voltar atrás para que pudesse impedir a publicação da minha história. Minha e da Paula. Nada restava. Levantei-me do banco de jardim e apertei o casaco, afastando de mim o vento de final de tarde que varria o jardim. Peguei no livro e, discretamente, deixei-o cair na papeleira ao lado do banco. Ficaram ainda muitos capítulos por ler. Não precisava de o fazer, sabia exactamente como a história acabava. Sabia perfeitamente quais seriam as palavras que apareceriam antes do derradeiro ponto final. Já conhecia o fim. Já tinha vivido o fim. Não o queria, de forma alguma, ler mais uma vez. Basta. Ganhaste. Só quero chegar a casa o mais depressa possível. Antes que o sol se ponha.
domingo, fevereiro 03, 2013
A Noiva Judia
"Não te esqueças que se uma parte é ilusão a outra é
verdade. Foi mesmo ela que te amou. Mas há coisas que
se não dizem. Como estas. E, claro está que não vale a
pena pensar nisso e não se pode evitar. As coisas inúteis
são preciosas para almas sem sossego como as nossas.
É quase belo agora. A noite que caiu guarda tudo nas
suas mãos fechadas e o brilho dos teus olhos é o de uma
estrela de que não me lembrarei. Dorme agora."
verdade. Foi mesmo ela que te amou. Mas há coisas que
se não dizem. Como estas. E, claro está que não vale a
pena pensar nisso e não se pode evitar. As coisas inúteis
são preciosas para almas sem sossego como as nossas.
É quase belo agora. A noite que caiu guarda tudo nas
suas mãos fechadas e o brilho dos teus olhos é o de uma
estrela de que não me lembrarei. Dorme agora."
Pedro Paixão
quinta-feira, abril 01, 2010
Saudades de Nova Iorque
"Sinto-me invulgarmente despreocupado, liberto, em casa. A subtil tristeza que sempre me faz companhia não me pesa aqui. Por momentos consigo pensar no que antes me atormentava e depois tudo isso se evapora com um sopro. Viajar serve para despistar os demónios com uma finta."
Pedro Paixão
domingo, fevereiro 14, 2010
Saudades de Nova Iorque
"O amor gosta de sacrificar os corações mais tenros."
Pedro Paixão
segunda-feira, janeiro 04, 2010
Saudades de Nova Iorque
"Depois do Natal trazemos as almas mais magoadas, é certo. Gostamos muito uns dos outros, mas com as devidas distâncias de espaço e de tempo. Depois de uma ou duas horas de contenção, por uma acumulação lenta insuspeita, abre-se uma fissura, uma brecha por onde explode a violência. As famílias são centros de alta fricção acumulada onde pessoas se obrigam a conviver muito para além da própria vontade, lugares atafulhados com miragens e fantasmas."
Pedro Paixão
(na verdade, sei demasiado bem do que ele está a falar. mas este Natal, não foi assim, foi feito de oásis que me saciaram e de afectos que afastaram o frio da noite. não me importava de para o ano ter um Natal como este. fica, desde já, na lista de compras para o ano que agora começa.)
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