quinta-feira, abril 06, 2006

Ritual de lo habitual

É uma actividade tão natural que quase nos esquecemos do quanto está inserida na nossa cultura. Seja para uma bica depois do almoço, ou para uma tarde passada na conversa com umas imperiais à mistura, o café (estabelecimento) é um ponto de reunião quase tão fundamental como o almoço de família ao fim-de-semana ou a habitual refeição de Natal para a qual todos os parentes (próximos e afastados) se juntam.

No Cacém, já foram muitos os cafés por onde "passei". Fosse para tomar o essencial café na altura dos exames, ou aproveitar o sol numa esplanada a beber uma cerveja gelada, ou para pôr a conversa em dia com os amigos, lendo as gordas do Correio da Manhã (jornal exclusivo de leitura na maioria dos cafés), o importante era haver uma mesa onde pudéssemos simplesmente "estar". Não admira que há uns anos atrás, uma colega de universidade tivesse cá vindo e ficado admirada com a quantidade de cafés por km2 que esta terra tem.

Lembro-me das quase intermináveis tardes passadas no bar do ISCTE, a beber um café para curar a ressaca de um dia pós-festa ou a beber uma imperial antevendo uma festa, ouvindo o sr. António a revelar o seu benfiquismo enquanto comentava os jogos do fim-de-semana passado, ou se queixava da pouca cerveja que os novos caloiros bebiam. Muitos trabalhos de grupo fiz naquelas mesas do "aquário", em que se fazia pausas para o cigarro enquanto alguém perguntava quem é que queria café.

Por ser um hábito tão português, recordo com um sorriso as minhas tentativas de transpôr este ritual para a minha estadia na Coreia do Sul. O ar estranho com que olhavam para mim quando me sentava à mesa e ficava horas de volta de uma chávena de café e um livro. O olhar ainda mais estranho que me dirigiam quando me juntava com outros portugueses e ficávamos horas a discutir o que se passava aqui no rectângulo.

Assim, proponho que a ida ao café passe a fazer parte do Património Imaterial Nacional, pois nada contribuiu mais, ao longo dos séculos, para a discussão de ideias e princípios que muito provavelmente fizeram com que avançassemos como nação.

(Pronto, eu admito, esqueci-me de tomar os remédios outra vez... Sorry!)

6 comentários:

Desambientado disse...

É uma perspectiva interessante obrigar a UNESCO a admitir tal hábito como património imaterial da humanidade. Mas imagino logo os Italianos a exigirem que também sejam classificados como património da humanidade os gritos que eles dão, seguiam-se os franceses a exigir que classificassem o seu meu cheiro ou a ausência de banho, os ingleses a sua incapacidade de sorrir, etc, etc.
De facto estamos muito bem servidos mesmo que a UNESCO não nos ligue: é um hábito saudavel.


Parece que não entrava no teu blogue há anos!!!!
Ultimamente o tempo tem sido escasso.

Nuno Guronsan disse...

Por causa de coisas como essas é que mencionei Património Nacional e não da Humanidade, até porque haveria mais exemplos e bem piores do que aqueles que mostras...

Apesar de não deixar muitos comentários, não perco um post teu. Abraço.

Nuno Só disse...

Quais remédios, amigo. Tá mto bom!

Canochinha disse...

A grande quantidade de cafés no Cacém por metro quadrado confirma-se...

E o ISCTE... Enquanto lá andei estava farta... Agora, pouco mais de um ano depois de ter terminado o meu curso, só consigo sentir saudades do lugar, dos amigos e das tardes/noite bem (ou mal) passadas :)

É verdade, mas a vida é mesmo assim.

Abreu disse...

Um dia destes, para celebramos esse ritual, tomamos uma cervejinha fresca (agora já sabe melhor) para os lados do Cacém. Isto quando eu mudar de escritório para os lados de Oeiras, é que houve atrasos e agora só está prevista a mudança lá para Maio. Um abraço.

M. disse...

O hábito do café é uma instituição europeia, assim tipo um quarto pilar! ;) Confesso, não vivo sem cafés onde possa, como tão bem descreves, tomar um cimbalino ;), beber uma cerveja, ler um livro, folhear o gratuito jornal, meter conversa com quem vai entrando e saindo... :) Quando vivi nos EUdaA não falhava uma tarde nos bistros e Wine Bars de Virginia Highlands, o mais próximo que havia.

Acho que essa um dos grandes traços que nos faz sentir europeus. :)