quarta-feira, novembro 22, 2006

Mito Urbano

Os meus pais nunca me falaram no papão. Nunca me disseram que quando somos crianças temos monstros a viverem por baixo da nossa cama. Que no escuro há coisas que desconhecemos. Nunca me ameçaram com estas coisas caso eu me portasse mal. Talvez porque sempre gostei de comer a sopa e nunca me esquecia de fazer o TPC antes de ir para a rua jogar à bola com os amigos. Mas também nunca foram uns pais super-protectores. Deixaram-me sempre dar os meus pequenos pulos no desconhecido. Aprovavam o facto de às vezes passar mais horas a ler algo do que em vegetar em frente a um ecrãn de televisão. Reprovavam o que tinham de reprovar e quando eu saía de linha diziam-mo logo, sem rodriguinhos, sem paninhos quentes, sem bichos-papões, sem lérias. "Portaste-te mal. Isso não se faz. Não o tornas a fazer, estamos entendidos?". Eles sempre foram assim e podiam-no ser quando eu era criança, porque eu era de facto uma criança e eles eram os pais. Mas os meus pais esqueceram-se de me dizer que os papões existem mesmo, especialmente quando entramos na idade adulta. Eles atravessam-se no nosso caminho, no dia-a-dia insistem em fazer parte da nossa vida, mesmo quando não os queremos. Estes papões insistem em fazer-nos crer que apenas eles têm a razão do seu lado, que nós somos uns inexperientes que apenas fazemos erros atrás de erros. Que eles, os papões, são o supra-sumo da sabedoria e o expoente máximo do medo que ensombra as nossas vidas. Que fazem tudo para que acreditemos que eles são mesmo a coisa mais aterrorizante à face da terra. Mas e eu, que nem sequer sabia da existência destes seres malignos? Como é que eu fico? Bom, acho que o truque é, como diria a sensual Miss Shirley, continuar a respirar, enfrentar estas aberrações de frente e não deixar que elas se achem no direito de nos intimidarem. E provavelmente, se assim o fizermos, o mais certo é que esse papão nos vire as costas, resmungando para com os seus botões e que volte para debaixo do calhau de onde saiu... Obrigado, mãe. Obrigado, pai.

7 comentários:

Polly Jean disse...

Também pela ausência de papões, sempre fui uma menina "às direitas". com alguns desacatos, com alguns charros, com alguns amores reprováveis, mas por outro lado, sem alcool, sem desastres ou excesso de limites de velocidade, sem dividas e com um curso feito com as notas e no tempo desejado/ estipulado.
Hoje, mulher e profissional certinha ( esta é de rir) também, mãe de um filho a quem não falo de papões, mas frente ao qual digo asneiras, faço disparates e não disfarço a "miuda amalucada" como todos me conhecem...enfim...ele será como for, mas sem papões, imposições ou rigidez na educação.Sobretudo ensino-o a sonhar e a tentar de tudo para ser feliz.
Beijocassss

dKin disse...

A única coisa q tenho para ti é um abraço apertado... É q às vezes ñ temos logo o discernimento do nosso lado, para mandar o papão dar uma volta e lá somos intimidados de novo!

cristal disse...

os teus pai tinham razão porque os papões só existem quando temos medo deles. e parece que eles te ensinaram a não ter medo :)

Sea disse...

Sorri ao ler o teu post. os meus também nunca inventaram nada dessas coisas. Lá está, secalhar porque também sempre gostei da sopinha, não fazia birras para comer e os trabalhos de casa erams empre feitos a tempo e horas. As minhas asneiras, sempre foram repreendidas de outras formas. Ao invés de me meterem medo com coisas que não existiam, ensinaram-me a respeitá-los a eles.
Provavelmente, por isso, é que nunca tive medo do escuro, nem de ficar sozinha, nem de filmes de terror, mórbidos e esquisitos, aliás, sempre lhes achei uma certa piada, porque sempre os vi como uma palhaçada. No fundo, também acho que os "papões" que nos aparecem à frente, não passam de uma grande palahaçada também.
beijo

Sea disse...

era palhaçada e não palahaçada :D

A disse...

Isso dos papões é mais uma americanice... os meus pais tiveram sérias dificuldades para se aperceberem de que efectivamente, eu tinha uma amiga secreta... sim, Guronsan, eu tinha (e ainda tenho) uma amiga secreta.

Sempre foi a minha A preferida, o meu alter-ego, no outro lado do espelho.

Aposto que tu também... por isso é que temos Blogs :D

(eu nunca acreditei em papões - prefiro acreditar no Pai Natal)

:)

Beijos

A disse...

... e por falar na shirley...


;)