terça-feira, junho 17, 2008

Vidro

Ainda sentia dores. Mesmo com o monstruário de remédios que povoavam a sua mesa de cabeceira, continuava a sentir a dor a latejar nas suas pernas. E isso era mais doloroso que ter de deslocar-se em cadeira de rodas pela casa. Quando se tinha sentado nela pela primeira vez, tinha sentido um arrepio pela espinha acima. Bem sabia que não estava incapacitado e que aquilo era apenas um recurso para que a sua reabilitação fosse mais rápida e as suas pernas não fizessem esforços desnecessários, mas mesmo assim era horrível aquela sensação de não poder andar por si próprio. E nas poucas horas de sono que conseguia ter, a mesma pergunta pairava sobre si, nos seus sonhos. Tinha valido a pena? Salvar a vida de uma pessoa que lhe era completamente estranha, sob pena de ter arriscado a sua própria integridade física? Felizmente o embate dos veículos não tinha sido muito forte, caso contrário sabia ele lá o que lhe podia ter acontecido. E tudo por causa da sua obssessão. Do seu pequeno pecado de observar os outros no seu espelho retrovisor. De ler as conversas alheias nos lábios de indivíduos desconhecidos. De se esgueirar pelas frechas indevidas que os outros deixavam inadvertidamente abertas para o recesso das suas vidas. E tudo através de um mero espelho retrovisor. A sua técnica era já tão evoluída que as conversas daqueles que seguiam em automóveis atrás do seu não tinham segredos guardados. E já não era só em engarrafamentos que podia dar largas ao seu conhecimento quase viciante das vidas alheias. Não, agora mesmo a alguma distância os seus olhos liam todas as palavras proferidas nas vidas que o seguiam, indiferentes à sua presença. Só assim se explicava como se tinha apercebido que o passageiro ameaçava a condutora. Que o marido tinha o cano da pistola virado para o peito da sua esposa. Que aquele casal se iria tornar na próxima ilustração para mais um caso de violência passional nas páginas do matutino do dia seguinte. Que apenas ele, naquele infímo momento, podia tomar uma decisão que a pudesse salvar, aquela pobre mulher que mal conseguia ver a estrada através da torrente de lágrimas que a vacilava. E assim, quebrando uma regra que ele tinha instituído para ele próprio, tinha agido. Travara o carro com tamanha raiva que o outro, onde seguia o casal, não teve outro remédio senão embater com força na sua traseira. Calculou que a mulher se salvasse no abraço ao airbag. Calculou que o homem não tivesse essa sorte ou se a tivesse que a polícia já ali estivesse para o prender. Calculou bem, a mulher estava salva e o homem estava morto, estatelado no vidro frontal. Calculou mal em relação a si próprio, outro carro tinha aparecido à sua frente e com ele tinha chocado. As pernas tiveram o embate correspondente e agora ali estava ele, vagueando pela casa com as pernas imóveis nos suportes da cadeira de rodas. A mulher nunca soube a verdade, tal como a polícia. Para todos os efeitos, apenas mais um acidente em plena IC, no regresso a casa. E como estava confinado à sua casa, e como continuava a ansiar por outras vidas que não a sua, passou a fazer do seu computador o seu automóvel e da internet a sua estrada e de blogues, sites e quejandos o seu vidro retrovisor privado. O princípio mantinha-se, observar sem ser observado. Textos, fotos, videos. Tudo servia para ler as vidas dos outros, de todos os outros. A sua vida continuava a ser demasiado insuportável para ser vivida. Até que chegou àquelas palavras, àquele texto. Um texto escrito no dia 2 de Dezembro de 2007. A pessoa assinava com um pseudónimo que podia não ter qualquer ligação à realidade. Leu-o, releu, voltou a ler mais uma e outra vez. Os seus olhos não queriam acreditar, a sua mente tentava reconfortá-lo dizendo-lhe que era a mistura de antibióticos e anti-inflamatórios que lhe estava a pregar uma partida. Mas não, estava mesmo ali à sua frente, preto no branco. Alguém sabia quem ele era. Alguém sabia o que ele fazia. Alguém tinha escrito para o resto do mundo ler o que era a vida dele. Mas quem, perguntava-se ele. Quem poderia saber o seu segredo? Havia comentários de outras pessoas, elogiando a verve literária do autor, assentando que se tratava de um excelente momento de ficção. Mas do autor nenhuma resposta. Nada que fizesse eco de que aquilo era mesmo ficção. Ele sabia. Por todos os pequeníssimos detalhes, o autor sabia quem ele era. Mas o inverso não existia. Ele desconhecia quem teria escrito tudo aquilo. E não havia forma de o saber. Percorreu o site de ponta a ponta mas o autor escondia-se muito bem, fosse por fotos desfocadas, fosse por referências quase obscuras aos sítios por onde passava. Sentiu-se enlouquecer. Via vultos onde nada havia. Tentou adormecer. Os pesadelos foram mais que muitos. Sempre a fugir de uma perseguição que não sabia de onde vinha ou porque motivo. E no entanto... No entanto, nas palavras que o desconhecido tinha deixado, não havia propriamente um sentimento de repulsa, condenação ou humilhação. Pelo contrário, havia um aviso. Um aviso para ele viver a sua própria vida e não a dos outros. Para ele seguir em frente e deixar para trás aquilo que se passava atrás de si. E quando chegou a esta constatação, apercebeu-se que já não queria saber quem tinha escrito as palavras que via à sua frente. Já não era preciso. Sabia que a partir daquele momento a sua vida já não seria a mesma. Que uma nova estrada começava naquele preciso momento. E que os outros iriam passar a fazer parte dela, mas desta vez ao seu lado, no lugar de passageiros comuns da sua viagem.

3 comentários:

Luís Nunes disse...

já não vinha aqui há uns tempos, mas vim em boa altura, belo texto,abraço.

cavaleira disse...

Portanto ele deixou a cadeira de rodas e agora anda, certo?

cavaleira disse...

Por outro lado… tudo o que colocas na net é porque queres partilhar com alguém.
É um efeito da publicação. Penso que não existe o meter-se em vidas alheias.