segunda-feira, junho 02, 2008

(Não-autobiográfico)

Hoje comprei um inimigo.

Normalmente não vou nessa cantiga das promoções e dos descontos em cartão e dos preços sempre baixos. Normalmente sei o que quero, vou direito aos corredores que me interessam, carrego o carrinho de compras e sigo directamente para a caixa (self-service, se houver). Rápido, simples e eficiente, que o tempo deve ser gasto em melhores coisas que andar às compras de bens de primeira necessidade. E assim sempre fico com mais tempo para deambular entre colunas de som e plasmas da Bang & Olufsen. Mas naquele dia não.

Naquele dia achei algo que ainda não tinha, ou pelo menos assim o pensava. Um inimigo. E estava tão barato que era quase dado. Fim de stock, assim me explicaram. Tinham de se desfazer daqueles inimigos antes do próximo inventário fiscal. Ou seja, não era um problema de validades, como a certa altura receei. A validade ainda era longa, pois ser inimigo visceral de alguém não consumia muitos segmentos cerebrais, apenas aqueles mais básicos, que já possuímos desde o tempo em que andávamos ainda curvados e cobertos de pelos desgrenhados. E o preço era tão atractivo que não resisti.

Levei-o e o meu inimigo era tão barato que nem sequer puxei do cartão de crédito, uma vez que ainda tinha alguns trocos da última ida ao casino. A operadora de caixa agradeceu a minha preferência e avisou-me para guardar o recibo comprovativo, e experimentar todos os aspectos do meu inimigo nos trinta dias seguintes. Depois disso, o hipermercado comprometia-se a trocar o meu inimigo caso o mesmo se revelasse insatisfatório. Agradeci, coloquei o meu novo inimigo debaixo do braço e dirigi-me ao parque de estacionamento. Aí demorei algum tempo a encontrar o meu automóvel e o meu inimigo, acabado de comprar, criticou-me pelo meu sentido de desorientação, falta de consciência ambiental, despesismo capitalista e pelo insuportável odor corporal que de mim emanava. Com um sorriso agradeci-lhe os seus primeiros esforços, mas salientei que, como meu inimigo pessoal, esperava muito mais dele. Todos aqueles insultos seriam, certamente, certeiros mas pareciam-me ao mesmo tempo insuficientes para a descarga de fúria cega que sentia que existia dentro de mim e que apenas um inimigo sem escrúpulos conseguiria libertar.

E dito isto, eu e o meu inimigo sentámo-nos no carro e dirigimo-nos para casa, sob um céu imensamente azul e um sol que começava a descer sobre o horizonte. E, inspirado por tal cenário, o meu inimigo disse que eu lhe metia nojo e não passava de um bardamerdas. Eu sorri e pensei que este inimigo, mesmo a preço de saldo, tinha futuro, e fiquei com a clara certeza que seria um investimento bastante rentável a longo prazo. O meu inimigo pessoal seria a inveja de toda as pessoas no escritório e a minha esposa iria encher-se de compaixão para com a minha pessoa, oferecendo-se todas as noites só para que eu não pensasse no meu inimigo, aquele ser que me odiava com todas as forças do seu ser. Sim, não havia dúvidas, comprar um inimigo tinha sido a melhor escolha da minha lista de compras. Muito melhor que um tamagochi...

9 comentários:

Stephen King disse...

Excelente, excelente!!

Quando é que tenho isto no meio de uma história, "fáxavor"!??

Abraço :)

cavaleira disse...

Ao menos haja satisfação na compra!!

Nuno Guronsan disse...

A satisfação do cliente acima de tudo. Dos que compram inimigos a torto e a direito, e dos que passam por este tasco para ler as minhas palavras. Obrigado.

A disse...

Devo estar a ficar burrinha dum todo... afinal que inimigo foi esse???

A shimmering dimmering colored digaling?...

one of the best in the world

inBluesY disse...

um inimigo é um amigo a fazer o pino.

A disse...

Ainda não percebi que raio é o inimigo...

queres que te ligue é?

:D

Nuno Guronsan disse...

O inimigo é quem nós deixarmos que seja. Até nós próprios podemos ser os nossos piores inimigos, como diz o filósofo da treta.

Neste caso é um inimigo apenas literário. Uma figura de estilo, se assim o quiseres.

"Uma onomatopeia, Senhor. Tentai uma onomatopeia!"

:)))

Beijos.

Anónimo disse...

:)
tenho alguns comigo, mas não os comprei...
uns deambulam cá por casa há anos, desde pequena, escondem-se entre as cortinas, dormem a sesta, outros vão chegando. até os estimo, tanto quanto se pode estimar um inimigo, não é? mas não sabia que já os havia com garantia...
os meus são aziagos, por vezes tiram férias, dormem foram, zangam-se uns com os outros, chateiam os meus amigos. falo-lhes pouco, eles não me dão grande confiança, tem a vida muito ocupada a infernizar a minha, enfim pessoas importantes, não é?
não é que me incomodem por aí além, não é isso, já me habituei, mas sabes, tenho alguns problemas de espaço, na alma, quer dizer, e sobem os juros e dizem que daqui a nada também vão subir os juros do espaço para alojamento dos inimigos...
bem, esta conversa toda para perguntar, sem querer incomodar, nem nada, assim, en passant, já agora, como só tens um, se ele se sentir sozinho, e tal, se quiseres alojar outros...

A disse...

Não sei, não entendo essa conversa de inimigos e muito menos de sermos inimigos de nós próprios.

Como não entendo o suicídio, e como não entendo as espirais de parvoíce em que muitas vezes entramos apenas porque sim.
Apenas porque sim.

Os comportamentos auto-destrutivos quando infligidos, não é pela razão de sermos inimigos de nós próprios, mas porque queremos, ainda que inconscientemente, de fugir de algo. Dos outros, muitas vezes, daquilo que não gostamos em nós, para que outros gostem, etc.
São as espirais de parvoíce, como disse antes.

Repleto de cinismo, então, este post.

Agora que já "entendi", digo-te que não gosto. Subentende a ideia "do coitado pobre desgraçado"...