domingo, outubro 28, 2007

Fim da primeira parte

"queres que eu escreva, que te minta, que eu te diga mais como se o
resto fosse: tudo. Não escrevo. Dorme. Os meus rios não jorram desta
boca. As minhas mãos abriram uma na outra são poemas amedron-
tando os campos, repartindo. Não me chames. Eu morei aqui. Tenho
um quarto sem história num país ausente. Todas as manhãs canto
deitado na garganta, e ainda tenho medo. Todas as manhãs acordo e
emudeço. Nesta cidade os homens não chegam ao pescoço. Por isso
estalam nos sonhos, soberbos, por entre gatos parvos ruminando a
morte nas gavetas. Não quero biografia, quero memória. Não quero
a vida, quero o lugar do amor. E como as coisas demoram quando
de perto trazem: espaços, fracturas, certos castanhos acidentes. E esta
pequena falta de jeito para as coisas. As coisas.
Alguém encontrará o rosto no pão aflito. Parado, na noite. Abrindo,
a noite.
Ou não saber dizer: eu oiço mãos que tombam no silêncio."


4 comentários:

PenaBranca disse...

vejo que pelo menos esse já conseguiste ler. ou começar. vivam as férias!

RC disse...

"Os meus rios não jorram desta boca"

Nesta boca não desagua nenhum mar.

Beijo.

Polly Jean disse...

parace bom. convida à leitura.

Vertigo disse...

'não quero a vida,quero o lugar do amor'

e que bem que se deve lá estar (...)

Obrigada pela partilha Nuno,gostei mesmo muito..