segunda-feira, julho 13, 2009

Exit


Qual seria a sensação de concretizar a fuga? Naqueles dias, ele não conseguia pensar noutra coisa que não fosse simplesmente bater com a porta, mandar todo aquele quotidiano à merda e simplesmente fugir, correr, deixar toda aquela existência rasteira para trás das costas. Haveria culpas dele, certamente, ele tinha assinado por baixo e era portanto com o seu consentimento que tudo aquilo tinha acontecido. Mas nunca teria ele imaginado que as coisas chegassem a um ponto em que ele sinceramente contemplasse terminar com tudo, realmente tudo. E por isso é que agora apenas lhe ocorria fugir, para onde ninguém o conseguisse encontrar. Nem aqueles que amava, nem aqueles que odiava. Apenas e só começar tudo do zero. Uma espécie de renascimento da sua pseudo-alma. Melhor e menos drama queen, um reset da massa cinzenta, esquecendo toda a angústia e dor que os últimos dez anos da sua vida lhe tinham proporcionado. Era triste aquela fuga, pois deixava também muita coisa boa para trás. Mas o que fazer com amizades que no último segundo não chegavam para o salvar? O que fazer com todas aquelas fotografias estupendas, que agora apenas se limitavam a ganhar pó em albuns e caixas? O que fazer com amores tão apaixonadamente vividos, que agora se tinham tornado em memórias azedumes que nenhum sistema de suporte de vida conseguia reanimar? No balancete das coisas, o passivo conseguia enterrar os restos mortais do activo. E por isso não havia outro caminho. Tinha de fugir, para lá da linha do horizonte e antes do sol se pôr. Qual mísera caricatura de um lucky luke sem sombra nem cavalo.

2 comentários:

Stephen King disse...

Familiar... Muito familiar. E estás em enormíssima forma, amigo.
Aquele Abraço.

Nuno Guronsan disse...

És demasiado generoso para com as minhas palavras, amigo. Como de costume, aliás. E por isso te agradeço com um enorme abraço.

Obrigado.