sábado, julho 04, 2009

Elegia


Há uma série de coisas que me trespassaram a alma ao ver este filme. Há o sentimento de me perder, ao mesmo tempo, entre a beleza das linhas que fazem parte do corpo e da alma de Consuela e entre as cicatrizes temporais que vemos no rosto de pessoas como David, George e Amy e que também ouvimos nas suas palavras. Também sinto a falta de um grande amor, daqueles que nos deixa sem outros pensamentos na nossa mente, um amor que nos absorve por completo, que nos arrasta para o seu interior e não nos deixa sair daquele espaço, o espaço que apenas nós os dois sabemos que existe na comunhão dos nossos corpos e almas. O filme também me lembra algo que já sabia mas que quase tinha esquecido, que não quero nunca ter de enterrar amigos meus, amigos daqueles com os quais partilhamos laços de sangue, mais intensos ainda do que se fossem nossos familiares. Já o tive de fazer por duas ocasiões e foram tempos bem negros, esses. Foram alturas em que questionei tudo o que me rodeava, a justiça do desaparecimento de alguém que ainda nem sequer saiu da primavera da vida e não teve direito a caminhar na direcção das outras estações. Foram momentos de uma dor estranha, confusa, que nos aperta o coração e nos faz perguntar o que fizémos para merecer estar aqui. E finalmente, lembrou-me também que há tristezas que nunca nos abandonam, que caminham connosco de mão dada, imagens e lágrimas que parecem adormecidas mas que no espaço de um segundo estão ali, novamente a serem vividas, e que nem assim a dor se torna mais suportável. Lembramos os bons momentos, os risos, os abraços, as afinidades, mas recordamos também as lágrimas, a doença, as dores e o momento da despedida. Tudo como se tivesse acontecido ontem.

Um filme que nos faz pensar nisto tudo apenas pode ser necessariamente interessante. E para mais, havia um piano na história. Razões mais do que suficientes para o ver.


George O'Hearn: Beautiful women are invisible.
David Kepesh: Invisible? What the hell does that mean? Invisible? They jump out at you. A beautiful woman, she stands out. She stands apart. You can't miss her.
George O'Hearn: But we never actually see the person. We see the beautiful shell. We're blocked by the beauty barrier. Yeah, we're so dazzled by the outside that we never make it inside.


6 comentários:

calamity disse...

:)

a morte é natural.
devemos assustá-la ou ameaça-la, acho eu, para que não se aproxime muito...

AMEAÇAS
Aviso-te, velhaca, mais uma vez:
mete-te com os da tua laia, ladra,
que me levaste da mesa os copos
por onde bebia e deixaste na alma
as cadeiras frias. Arrepende-te, Morte,
e devolve-me as veias, os amigos,
as sementes de papoila. Restitui-me o intacto
futuro da minha juventude, a fotografia
onde cabíamos todos e a minha solidão
era uma onda quebrada nas pedras de gelo.
Traz-me de volta o silêncio do Jaime,
o cheiro a serrim, traz-me o Leal e ainda
o Artur, com todas as músicas desse verão,
o nó da fortuna, de '89. Não te esqueças
também do Luís, deixou por contar
o resto da história. Nem do Joel,
o mais desgraçado rapaz,
que me confessou um dia haver morrido
sem nunca ter sido beijado.

Fazes-me isso, e perdoo-te o resto. Mas
se torno a ver-te a menos de quinze passos
dos meus — eu juro que te mato.



José Miguel Silva, in Ulisses já não mora aqui

Nuno Guronsan disse...

Mesmo sendo natural, há sempre uma sensação estranha em relação à mesma. Não diria que é medo ou receio, talvez só não saber muitas vezes como reagir à sua presença.

Obrigado pela "ameaça". Muito boa como conselho, na verdade.

Beijos. Muitos.

Stephen King disse...

Como questão, é insuperável. Porém, como em todas as grandes perguntas, não há como afastar o medo...


Abraço.

Nuno Guronsan disse...

Insuperável... sim, é isso, passa exactamente por aí, meu amigo.

Abraço de volta.

Anónimo disse...

Engraçado, o filme também me marcou, e deixou uma certa melancolia, mas não despertou tanta tristeza em mim.

bjs
RF

Nuno Guronsan disse...

É isso que eu acho espantoso no cinema. É que cada um pode ver o filme com os seus próprios olhos e retirar o significado que está mais próximo de si.

Beijos.