quinta-feira, janeiro 31, 2008

Vindima

"O Doiro risonho e alegre que o senhor Meneses aguarelara como qualquer propagandista oficial, ocultava por debaixo do sorriso turístico um calvário de lágrimas e fome. A descrição colorida do palco de xisto escamoteava o martírio dos actores. O trato reles, as jornas miseráveis, a promiscuidade eram explicados de todas as maneiras: crises sucessivas nos mercados, pragas terríveis, concorrências desleais e criminosas do sul, anos de colheitas más. Simplesmente, tudo isso não justificava uma escravidão de que não havia paralelo em todo o país."

Miguel Torga


E enquanto vou folheando as páginas, apenas consigo ouvir na minha cabeça as vozes do meu avô, repetindo vezes sem conta histórias de antigamente que todos sabemos já de cor mas que mesmo assim nunca nos fartamos, e do meu pai, recordando a sua infância com episódios tão duros que envergonhariam qualquer um de nós de um dia termos tido um país assim. Ou será que em alguns sítios ainda o temos? Será que um dia o meu avô e o Miguel Torga não se terão cruzado e contado histórias um ao outro? O que fica são as pessoas e todas as paisagens nas quais um dia também as minhas pegadas ficaram marcadas. Com muita saudade. Obrigado, Zé e Alexandra, por reavivarem uma parte daquilo que eu também sou.

2 comentários:

Micas disse...

E eu agradeço-te a ti por este momento de memórias minhas tb!

O " O Vendedor de Passados" que citas é o livro do José Eduardo Agualusa?

Bjs e bfs

o anónimo do costume disse...

Ora, ora, amigo, obrigado nós, pelas palavras simpáticas, sempre ricas e amigas! Então a singela prenda sempre terá surtido um dos efeitos pretendidos - pôr a pensar na questão das origens/raízes um rapaz de tão vastos horizontes... afinal, lá dizia um outro escritor de (minha grande) referência que, "como as árvores, às vezes penso, o homem pode subir alto, mas as raízes não sobem. Estão na terra, para sempre"...