terça-feira, fevereiro 23, 2010

Foi no banco traseiro daquele táxi que soube que te amava. Quando as nossas mãos se juntaram sob o frio da napa do banco. Não ousei beijar-te pois os teus olhos continuavam a olhar para além do vidro por onde corriam milhentas gotas de chuva. Não ousei beijar-te nem na face onde as tuas lágrimas ainda não tinham secado. Nunca te tinha visto chorar. Em tantos anos que nos conhecíamos e em tantas diferentes ocasiões em que a vida tinha teimado em nos juntar, e nunca te tinha visto chorar. E nem sequer eras um daqueles machões idiotas que insistem que o choro é para as carpideiras, escape tipicamente feminino. Não, nunca te revi nesse protótipo de homem tão fútil. Nunca, por uma vez que fosse, me recriminaste quando secava as minhas muitas lágrimas de muitos falhanços amorosos no teu ombro. Pelo contrário, sempre afirmaste que o choro era a melhor maneira de nos purgarmos, de largarmos um pouco da frivolidade dos nossos dias. Mas mesmo com palavras como essas, nunca te vi chorar. E, no entanto, nas últimas vinte e quatro horas, pareces ter derramado todas as lágrimas acumuladas por uma vida inteira. As últimas vinte e quatro horas de vida da tua mãe, depois de muitos meses de uma luta com o pior dos monstros. Meses de um monstro que invadiu o corpo dela e que asfixiou a tua vida. Acompanhei tudo isso na medida em que me deixaste estar ao teu lado. Também era amiga da tua mãe, afinal ela conhecia-me desde que eu era criança. Como me custou ver aquela mulher forte, corajosa e humilde transformar-se num farrapo humano, numa versão tão pequenina do que ela realmente era, onde apenas o seu sorriso foi subsistindo ao longo de toda aquela provação. Mas não consigo sequer imaginar aquilo que, enquanto seu filho, deves ter sofrido. E mesmo agora, enquanto vejo o teu olhar perdido no meio da cidade chuvosa, penso que ainda não acabou, pelo menos não para ti. Que o alívio que a tua mãe sentiu ainda não chegou a ti. Que as lágrimas que agora derramas ainda te irão acompanhar por muito tempo. Que toda a dor que sentes me amarra e tenta esconder o que o meu coração vai apertando cá dentro. Uma vontade indomável de te amar, de te amar até ao fim dos nossos dias. Como nos filmes. Aperto a tua mão mas tu não tiras os olhos do vidro. E a chuva lá fora cai com mais força ainda.



5 comentários:

cal...formerly known as calamity disse...

:)

Chove.
De repente chove e só me lembro da música da clara madrugada...
A chuva é sempre de repente, mas só no Verão é que vai do mesmo modo, acho eu.
No Inverno fica. E cola-se ao meu olhar.

Texto muito a despropósito, porque quase ...
Mas as mulheres não choram :)

Miss Kin disse...

E é nestas alturas que reconhecemos um grande amor...

Nuno Guronsan disse...

:)
Daí ser uma ficção, minha querida calamidade...
:)
E eu, pessoalmente, estou farto de chuva no meu olhar...
Beijos.


Será, Kin? Eu tenho sérias dúvidas, acho que por vezes estamos à frente de um amor desses e nem sequer o queremos reconhecer, ou então queremos mesmo é fugir dele...
:)
Beijos.

Miss Kin disse...

Isso preocupa-me Nuno, profundamente. Entre o não o reconhecer e o querer fugir dele, venha o diabo e escolha...

Nuno Guronsan disse...

Dou-te a razão, sem dúvida. Mas que acontece, acontece. Para o bem e, maioritariamente, para o mal.

Bjs