quinta-feira, novembro 20, 2008

Desliga.

"A melancolia portuguesa corrompe o espírito, escurece-o, como o frio do Outono amarelece e mata as folhas das árvores."

José Eduardo Agualusa


Naqueles dias, a melancolia descia pelas paredes, lentamente, e ia abraçá-lo na sua poltrona, assistindo com ele ao desfile televisivo das desgraças e semi-desgraças de mais um dia praticamente finito de Outono. A melancolia envolvia-o como um cobertor enquanto assistia à intransigência de um executivo que clama desesperadamente por uma recauchutagem ou novas eleições, versus uma oposição que consegue melhores resultados quando não abre a boca do que quando larga meia dúzia de bujardas para garantir o seu share televisivo. A melancolia serpenteava à sua volta enquanto ele angustiava por também receber uma carta de alguma herança milionária enviada por um parente cujo nome não passava de iniciais e que normalmente começavam sempre por B e acabavam numa taxa de 16%. A melancolia dizia-lhe pequenos nadas ao ouvido enquanto ele tentava perceber porque razão é que ainda suspeitavam que as gasolineiras não passavam de um cartel quando tinham baixado tão generosamente os preços do seu tão precioso néctar. A melancolia insinuava-se-lhe descaradamente à medida que novos termos de identidade eram emitidos para tão garbosos jovens apenas pelo facto de terem uma linguagem mais colorida para um telejornal do que uma peixeira do bolhão (isso e o facto de atirarem uns tijolos e gostarem de pacotes de açucar um bocadinho maiores e de moagem mais fina). A melancolia infiltrava-se-lhe nos poros enquanto ele achava perfeitamente natural o menino d'oiro ficar tão distraído com tanto calor e tão poucas roupas em quantidades tão desmedidas.

A melancolia arrefeceu-o. Desligou a televisão, foi para a cama e pegou num livro. Um livro sobre um país menos melancólico e menos outonal.


2 comentários:

cavaleira disse...

Já não há textos sobre uma boa alteria, uma boa sangria, uma boa bifana, uma boa fartura, um bom penteado de cão, um bom bolo rei com phones, um bom sorriso de um pseudo-naco-austríaco??

é só melancolia, melancolia e melancolia???

Com´é?
hein?

Nuno Guronsan disse...

Há Espaço para tudo isso, minha querida. E, também, para a melancolia, ou não fosse ela uma típica qualidade portuguesa. Mas agora que mencionas, sim, hoje esse pseudo-naco de quem falas veio à baila em conversa...

:)

Beijos.