quarta-feira, agosto 04, 2010

Otherworldliness

"He'd brought his mother here, prevailing over her own fatalism and his wife's practical misgivings. You are the son, you take care of the parents. And the illness, the drama of a failing body, the way impending death made her seem saintly, with an icon's fixedness, a stern and staring and enameled beauty. Albert, who shunned any form of organized worship and thought God was a mass delusion, sat and watched her for hours, combed her hair, soaked up her diarrhea with bunched Kleenex, talked to her in his boyhood Italian, and he felt that the house, the flat, was suffused with a reverence, old, sad, heavy and impressive - an otherworldliness, now that she was here."

Underworld, Don DeLillo



Chegaram cansados. Como se os seus músculos, ossos e mente já se tivessem esquecido da provação em que se tudo se tornou. Como as mais pequenas coisas são objecto dos mais profundos sacríficios, de como tudo se torna uma humilhação diária que já não responde a qualquer código de conduta que possa alguma vez ter existido. E tudo se degradou no último par de anos. Parece que o abismo estava mesmo ali, à distância de meia dúzia de passos , e ninguém foi capaz de o antecipar. Agora é tarde demais. Porque aquilo que é dito de manhã, passa a ser um grito com lágrimas de dor à noite. E é isso o que lhes custa mais. As palavras não pensadas de alguém que bate com a mão no peito e faz ameaças vãs, de um lado do ringue. As pequenas e mesquinhas intrigas que não ajudam ninguém e apenas servem para ferver ainda mais o sangue de todos, do outro lado do ringue. E é assim que se tornam vinte e quatro horas nas suas mãos. Toda a alma vai para eles, e mesmo assim ainda é preciso ouvir palavras insanes, gestos que rasgam o coração e nos deixam de rastos, atitudes bafientas de uma sacristia que apenas serve de ornamento. Damos tudo e ou não recebemos nada ou ainda nos arriscamos a um pontapé nos tomates. Eu sei, é só figurativo, mas a dor não deve ser muito diferente, e mesmo assim temos que esquecer e seguir em frente. Até porque sabemos que, inevitavelmente, na hora de passar o testemunho, chegam as futéis lágrimas que anunciam a mudança, e todos sabemos o quanto eles odeiam mudar, sempre assustados com o que os espera na figura de novos anjos que velam por eles como todos os outros. E pronto, é aí que o cansaço os atinge, como se tivessem aguentado a mais difícil das maratonas apenas para desfalecer indefesos do outro lado da meta. Estatelados no chão, eles apenas emitem um suspiro de algum alívio, um pouco contra a sua própria vontade, pois sabem que aquela meta é apenas o fim de uma etapa de um campeonato que ainda tem, ou assim todos o esperamos, muitas jornadas pela frente. E que mesmo com todas as dificuldades, com todas as desconfianças, com todos os martírios que nunca julgámos que pudessem acontecer, será um campeonato que teremos de enfrentar com todas as forças, nunca parando para pensar nos choques que quase nos derrubam, pois agora só existem eles, e assim terá que ser pois não o permitimos que seja de outra forma. Mesmo quando chegamos exaustos até ao limite. E se querem mais explicações, é favor ler de novo o parágrafo que ali está escrito pelos dedos bem mais sábios do DeLillo.


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