segunda-feira, setembro 28, 2009

Papelada

Estava à espera mas não sabia bem do quê. Afinal, estava tudo terminado ou assim ela o tinha dito da última vez que tinham estado juntos. Ela tinha sido bem clara, disse-o com todas as letras, repetiu-o várias vezes e ele ficou calado. Um silêncio que, mais que consentir que ela tinha razão, era um silêncio resignado e incapaz de contornar a racionalidade dela. E a conversa, bem como o seu relacionamento, tinham efectivamente terminado naquele instante. Então porque estava ele ali, em frente à estação de caminho-de-ferro onde em breve chegaria o comboio onde ela viajava?

Puxou de um cigarro. Era o último. Devia ser o último, pensava ele. Já tinha perdido a conta à quantidade de vezes que prometia a si próprio que ia deixar de fumar. Mas passavam-se dias, meses, e por vezes anos, e lá voltava ele ao hábito da nicotina. Normalmente o tabaco ajudava-o a concentrar-se, a pensar no seu próximo passo. Mas hoje não era o caso. Nenhum pensamento lhe ocorria enquanto o cigarro ia desaparecendo num monte de cinzas. Estava nervoso. O que iria ele dizer-lhe quando a visse? Conseguiria ele dizer todas as palavras que lhe ocorreram naquelas quatro semanas em que ela tinha estado fora? Ou ela nem iria dar-lhe uma oportunidade de falar quando o visse ali, especado à sua frente? Não, ela tinha que o ouvir, tinha que lhe dar uma chance de reparar o silêncio com que ele tinha acolhido as suas razões para estar farta das desculpas dele. Não, ela não seria cruel a esse ponto, por muito magoada que estivesse com ele. Ele tinha que falar com ela, tinha de lhe dizer o quanto a amava, o quanto não o sabia até ao momento em que ela lhe disse que se ia embora da vida dele. Ele tinha que lhe dizer que era um idiota, um anormal completo por não ter percebido isso antes. Por não ter percebido que a vida dele não estava completa sem ela, sem o amor por ela.

Estava frio. Meteu as mãos aos bolsos. Sentiu alguns papeis no bolso esquerdo. Tirou-os e olhou para eles como se fosse a primeira vez que os via. Rapidamente compreendeu que se tratava de um quase diário do que se tinha passado naquelas últimas semanas. Um bilhete de cinema, um bilhete de comboio e um talão de uma compra paga com o cartão de crédito.

O bilhete de cinema já andava nos seus bolsos há mais de um mês. Tinha sido a última vez que tinham ido juntos ao cinema. Tinham ido ao centro da cidade ver um filme francês que estava numa única sala. Ela adorava filmes franceses, gostava da língua e dos personagens, achava que mais ninguém conseguia fazer filmes como os realizadores franceses. Ele gostava deste amor que ela tinha pelo cinema francês. Se não fosse o bilhete, já não se lembraria do nome do filme. Lembrava-se que era sobre uma família e uma casa. Também se lembrava que o fim do filme o tinha apanhado completamente desprevenido e por isso tinha saído da sala com um travo amargo na boca. Ela tinha adorado, como sempre. Lembrava-se que depois do filme foram dar uma volta a pé. A noite estava quente e ela gostava sempre de falar imenso com ele, para saber o que ele achava do filme, se ele tinha gostado ou não e porquê. E normalmente acabavam sempre por falar deles próprios, se seria possível as situações do filme acontecerem com eles os dois. Se iriam ser sempre felizes, se iriam ter filhos e tornarem-se uma família, se afinal de contas não estavam destinados a ficarem juntos. Falavam disto tudo. E quando chegavam a casa, beijavam-se e chegavam à conclusão que a sua vida nunca seria igual a um filme francês.

O bilhete de comboio ainda não tinha sido usado e, pela data que tinha, também já não poderia ser usado. Tinha-o comprado uma semana depois de ela ter saído de casa, quando finalmente tinha descoberto que ela estava na casa de uns familiares, no norte do país. As noites que tinha passado em claro depois de ela se ter ido embora tinham-lhe retirado bastante do seu pragmatismo e ele tinha ido reagido aos seus impulsos sem pensar nas consequências. Só quando já estava na estação e com o bilhete na mão é que se apercebeu de que ela tinha mesmo razão quando o deixara. Que ele tinha-se portado de uma forma repugnante e que assim não havia paixão que pudesse manter-se intacta. Apercebeu-se também que o silêncio ensurdecedor com que ele tinha respondido aos gritos dela se devia a uma completa ausência de palavras minimamente justificadoras que ele pudesse dizer, e que esse silêncio ainda permanecia. Que ele sabia que a amava, que não sabia se ela ainda o podia amar, e que, pior que tudo, se se encontrasse com ela, não saberia o que dizer. Sentiu os olhos húmidos, meteu o bilhete de comboio no bolso e saiu da estação enquanto o comboio partia.

O talão de compra. Parecia que lhe ardia na mão. Virou-o ao contrário e reviu um número de telemóvel escrito a tinta permanente. Tornou-o a virar e foi-se recordando daquela noite passada num bar escuro, bebida atrás de bebida, cigarro após cigarro. Lembrava-se que nessa noite a angústia que o perseguia com a ausência dela atingiu o limite. Decidiu refugiar-se ali, longe do resto do mundo, só ele, o seu tabaco e o seu copo. Já se sentia resignado, já não queria saber dela para nada, mas isso não significava que no seu coração as coisas estivessem terminadas. Sentiu a presença de alguém que se sentava ao seu lado. Uma mulher. Uma mulher que lhe lembrava as actrizes francesas de que ela tanto gostava. Ela meteu conversa com ele, e ele sentiu-se abalar na solidão que pretendia. Mostrou-se receptivo e conversou também com ela. Não se lembra das palavras que foram trocadas, já tinha bebido demasiado para isso. Os únicos gestos que recorda daquela mulher eram o beijo ofegante que ela lhe deu antes de se despedir e o número de telefone, escrito à pressa nas costas de um talão. E lembra-se também que nunca lhe chegou a telefonar, que no dia seguinte se levantou com a mãe de todas as ressacas, e que, enquanto bebia o café e olhava através do vidro da janela, sentiu saudades dela. Sentiu que a falta dela era insuportável e que não se conseguia imaginar sem ela ao seu lado.

O cigarro estava morto entre os seus dedos. Guardou no bolso os papéis e apagou o cigarro com a ponta do sapato. Apertou o casaco e atravessou a estrada, na direcção da estação. Caminhava lentamente para o local onde sabia que o comboio em que ela viajava começava a surgir.

11 comentários:

cal disse...

c'ést beau...


todos os reencontros tem a beleza da ânsia que carregam...


beijos.


muitos.

Nuno Guronsan disse...

gentileza tua, como sempre...
mas sim, há por ali algo de belo que não consigo identificar...
talvez sejam os papéis no bolso...

beijos. muitos.

A disse...

Isto será o começo de alguma história?
:)

Muito interessante... auto-biográfico? O autor que não se revela na intimidade :D

Muito bem escrito, como de resto, já me/nos habituaste.

Estou algo curiosa relativamente a isto... fico à espera do resto.

Beijos

Nuno Guronsan disse...

Olá, minha querida.

Os teus elogios, e acho que já sabes disso, deixam-se sempre sem palavras e eternamente agradecido.

Auto-biográfico? Há sempre um pequeno pormenor no que escrevo que é realmente meu, fica é quase sempre muito bem escondido :))

A continuação? Queres tentar?

Beijos. Grandes.

A disse...

Eu não sou de "fazer elogios"; o que eu vejo é a constatação de um facto.

Raras vezes tenho tido tempo para vir comentar, e andámos/andamos um bocadinho em baixo em termos de ESCRITA. Ultimamente aquilo por lá (Tasco) é mais má língua que outra coisa, sabes?

Eu queria que TU tentasses a continuação, mas se quiseres eu dou-te uma versão feminina da coisa :) não sendo uma continuação, será uma versão. Auto-biográfica, com tudo o que isso implica de bom e de mau.

Entre hoje e amanhã. Sim, que eu não tenho vida social como tu :D

Nuno Guronsan disse...

Eu e a minha vida social ficamos à espera dessa continuação do ponto de vista feminino :)))

Um dia destes, quando eu me mudar para S. Miguel ou quanto tu te mudares para o Cacém (ok, esquece, eu vou para aí), ainda havemos de escrever qualquer coisa a quatro mãos... :)

Obrigado pelas tuas constatações.
Bjs

A disse...

Olha a minha vida social: escrever enqto vejo a RTP Memória LOL
Se puderes liga a tv...

Já estou a debruçar-me sobre a minha parte da história.

Para escrever é preciso Disciplina e eu sou uma indisciplinada...

:P

Liga a tv...

A disse...

Com sorte ainda conseguimos ver algum joguinho do Glorioso a dar umas na pá ao Sporting :D

Nuno Guronsan disse...

Olha a Shô Dona Amália na RTP memória... bom, este fds deve ser raro o canal onde a senhora não vai passar... eheheh

A disse...

Olha, quando puderes, vai lá :)

Acabei agora. Inspiraste-me Nuno :) Obrigada. Há muito tempo que não escrevia nada que não tivesse a ver com parvoíces lol


Vou ver agora o Star Wars Episode IV. Wish me luck!

Beijinhos grandes

(não me apanhas no Cacém)

Nuno Guronsan disse...

May the force be with you.

E que bonitas palavras nos deixaste. Quase dá vontade de ainda continuar isto mais além. Logo se vê.

Beijos também grandes.