quinta-feira, janeiro 12, 2012

Ao virar da esquina

A austeridade saiu à rua num dia assim
Em todo o lado desta terra sem fim

Um desempregado sobre a calçada cai
E milhares de outros mais vêm atrás

O vento que varre todo o nosso mal
E os bons vão saíndo de Portugal

E os posts em todas as redes sociais
Vão dizendo em toda a parte o primeiro-ministro morreu

Teu sangue, ministro, de nada nos vale
Mas sempre é mais um corte na despesa mole

Nenhum hospital público te salvou
Teu corpo pertence ao são bento que te abraçou

Todos os que mandaste emigrar
Já não vão a tempo de se salvar

Na curva da estrada há deputados no chão
E em todas florirão ordenados de uma nação


(não querendo desrespeitar o nosso maior cantor de sempre, mas hoje andei o dia todo com estas palavras na minha cabeça... triste estado em que o nosso país se encontra...)

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Promessa

Um dia ainda hei-de de ter uma livraria só para mim.






(via A Livreira Anarquista, um daqueles sítios que qualquer consumidor devia conhecer antes de abrir a boca.)

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Tenham paciência...

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.
Quero ser sozinho. Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

[«Lisbon Revisited» (1923), Álvaro de Campos]


(Via Lei Seca, um espaço que muito prezo.)


domingo, janeiro 08, 2012

Berma






Parecia cansado. Já não o via há alguns meses, mas não me lembro de o ver com um ar tão cansado. Ali, sentado à beira da estrada, com as canadianas a descansarem ao seu lado, com o sol da manhã a iluminar todas as rugas de uma face a caminhar para as setenta e seis Primaveras. Passei de carro, abrandando como sempre faço quando atravesso a aldeia, para responder a todos os acenos de gente que me conhece desde os meus primeiros passos. Ele não me acenou, talvez não me tenha reconhecido. Os seus olhos também já não o ajudam grande coisa, mas ele vai dizendo que não quer usar óculos, que para aquilo que a vida ainda lhe vai reservando dia após dia não precisa de lentes para nada. Chega para ler os livros que lhe restam na estante e para reconhecer as pessoas amigas que se chegam ao pé de si. Mas mesmo assim, ou talvez por isso, os seus olhos não escondam uma névoa da tristeza que é o livro da vida daquele homem. Vive sozinho já há uns bons dez anos, desde que a sua companheira de vida faleceu. É ele que o diz, a minha companheira envelheceu como eu e um dia achou que estava na altura, que o corpo dela já tinha vivido o suficiente, nem mais nem menos, só fiquei triste por ela me ter deixado sozinho com os outros vivos, aqueles que estão longe. É ele que assim o diz, uma pequena grande alfinetada a grande parte da sua família. Filhos e respectivas caras-metades há muito que trocaram a aldeia e o campo pela cidade, fazendo aquele percurso que tantos outros fizeram no seu tempo. Raramente o visitam e quando o fazem é quase de raspão. Os netos e netas também pouco lhe ligam, conhecia-os a quase todos e todas nos longos Verões que aqui passámos juntos, brincando até ao pôr-do-sol. Talvez que nuncam tenham sabido apreciar devidamente os seus avós, talvez porque estes nunca lhes fizeram as vontadinhas todas como os pais. Com o passar dos anos fui-me desligando de todos, vivemos em sítios diferentes, estudámos coisas diferentes e, na verdade, deixou de haver aquela empatia que em criança é tão fácil de acontecer. Apenas um dos seus netos ficou meu amigo, exactamente aquele que continua a visitá-lo, a ligar-lhe, a escrever-lhe. Passa cá todos os meses, e não raras vezes quando vou a passar de carro e o vejo sentado com o avô, conversando olhos nos olhos, mãos nas mãos, encosto o carro e junto-me a eles, a beber uma cerveja, a jogar às cartas, ou simplesmente a ver quem passa. Mas hoje estava sozinho, terrivelmente sozinho. E cansado. As pernas também já não são o que eram, as canadianas praticamente também se arrastam com ele. E no entanto, não se queixa. Diz que as coisas são como são, que não levou uma vida regrada para viver eternamente, viveu tudo aquilo que lhe dava prazer e sem arrependimentos, naquele pequeno mundo que sempre foi a sua aldeia. Sempre o conheci assim, prático e sem papas na língua, nada de romantismos balofos sobre o significado da vida. Isto de um homem cuja estante repleta de livros de poesia, filosofia, e outas "ias" sempre me deixaram com uma pontinha de inveja. Ele disfarça, diz que eram da sua companheira, que ele pouco os leu durante a vida, mas eu sei que não é bem assim, e sei até que ele sabe muitos daqueles poemas de cor, pois tantas e tantas vezes no meio de conversas comigo e com outras pessoas da aldeia lhe apanhei pequenos bocadinhos declamados e retirados daquelas mesmas páginas. Mesmo que hoje já não seja tão procurado pelas gentes da aldeia como outrora, será daqueles que nos vai fazer falta quando chegar a sua hora. Será um pedaço desta terra que também vai desaparecer para sempre, seis palmos debaixo da terra que o viu nascer. Eu vou sentir a sua falta também e quando penso nisto fico triste, muito triste. E é nisto que penso quando estou de novo a entrar de novo na aldeia e o vejo ainda sentado à beira da estrada, e nem penso duas vezes. Encosto o carro e vou ao seu encontro. E a minha tristeza vai-se dissipando à medida que me aproximo dele e à medida que sinto que ele me vai reconhecendo e que, ao de leve, começa a brotar um sorriso aberto nos seus lábios e que ele abre os seus braços para mim. É a forma de ele dizer, vem cá, meu amigo, que eu ainda não estou morto e ainda tenho alegria que chegue para nós e para o resto do dia.


quinta-feira, janeiro 05, 2012

Ideias luminosas




Sempre a olhar para cima. Ora aí está um excelente conselho. Ainda que subentendido.


terça-feira, janeiro 03, 2012

Caminhada

E hoje a casa vai estar menos cheia, mais solitária. Não é muito triste, pois aqui e ali restam pequeninas coisas de quatro dias que arejaram o espaço, que lhe deram outra vida, a ele e ao respectivo inquilino. Será tempo de regressar a algumas rotinas que povoam os dias, umas mais reconfortantes que outras, mas nada que vá tirar o sono a alguém. São sempre chatas as despedidas, mesmo aquelas que apenas significam um mero até já. Nem mesmo com o cheiro a torradas e café acabado de fazer, nem assim chega para que não haja humidade ocular. Já devíamos estar habituados, digo eu. Mas nisso não há nada que se possa fazer, o coração, esse tão complicado pequeno orgão, há-de ter sempre razões que nem com uma boa rua se consegue descobrir. O que vale é que Janeiro é sempre sinónimo que festas atrás de festas, alegrias atrás de alegrias, de modo que não precisamos de muito mais tempo para estarmos outra vez juntos, a rolar por ruas e vielas, deixando que os nossos pés e demais membros cirurgicamente reciclados se deixem cansar em todas as pequenas calçadas portuguesas que vamos percorrendo nesta nossa vida. Até já.



segunda-feira, janeiro 02, 2012

Dias bons.


De momentos de alegria.
De sorrisos de cumplicidade.
Do amor que não é falado mas sente-se nas mãos.
De como se pode acabar um ano e começar o outro com a felicidade genuína de quem nos acompanha desde sempre e nunca, nunca nos abandonou no seu incondicional amor.
Bom é pouco. Foi/ainda é muito bom. Obrigado.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

quarta-feira, dezembro 28, 2011

12 filmes para 2011

"Smoke"















"Red"














"José e Pilar"














"Filme do Desassossego"



















"Dead Man"














"Black Swan"











"Source Code"













"1778 Stories of Me and My Wife"















"Barney's Version"












"Planet Of The Apes"









"Pina"













"The Tree Of Life"












menção honrosa: "The Wire: The Complete Series"














terça-feira, dezembro 27, 2011

Lembrei-me agora

2012 já vai valer a pena. Mais não seja para rever e ouvir uma boa amiga.



Agora é só esperar por domingo, 18 de Março. Já faltou mais...


A navegar...

... pelos fantasmas dos comentários passados.

Recordei que, um dia, esta minha frase matou alguém,

"A vida nem sempre é perfeita mas nas entrelinhas anda muito lá perto."

Quase cinco anos depois, não alterava uma única palavra.

12 discos para 2011

"Anna Calvi", Anna Calvi

"Wounded Rhymes", Lyyke Li

"Live At Union Chapel and Södra Teatern", Mark Kozelek

"Fala Mansa", Norberto Lobo

"Bon Iver", Bon Iver

"Chromatic", You Can't Win, Charlie Brown

"The Rip Tide", Beirut

"Lisboa Mulata", Dead Combo

"The Magic Place" Julianna Barwick

"Apocalypse", Bill Callahan

"Hardcore Will Never Die, But You Will", Mogwai

"A Montanha Mágica", Rodrigo Leão

segunda-feira, dezembro 26, 2011

12 livros para 2011

"The Berlin Wall: 13 August 1961 - 9 November 1989", Frederick Taylor

"The Picture of Dorian Gray", Oscar Wilde

"The Catcher In The Rye", J.D. Salinger

"Arquivo Íntimo", Nelson Mandela

"Incendiário", Chris Cleave

"Bichos", Miguel Torga

"O Carteiro de Pablo Neruda", Antonio Skármeta

"Americana", Don DeLillo

"A Educação Sentimental dos Pássaros", José Eduardo Agualusa

"Por Este Mundo Acima", Patrícia Reis

"Absolut Sandman Vol. 4", Neil Gaiman

"Húmus", Raul Brandão

um buraco no coração



(ou como um simples virar de costas pode não significar a formal desistência...)


terça-feira, dezembro 06, 2011

Por estas noites...


(imagem retirada daqui)


Or, as Lester would say,
A life, Jimmy, you know what that is? It's the shit that happens while you're waiting for moments that never come.


quinta-feira, dezembro 01, 2011

Viver.

E assim passou um ano desde que aqui estou a viver. Um ano repleto de tanta coisa para contar e escrever mas com pouco tempo para ocupar as páginas que ficaram em branco. A actividade profissional, as idas e vindas entre este lar e o outro, alguns devaneios turísticos intramuros, um devaneio turístico à la Relvas, as muito bemvindas visitas a este lar, algumas (ou muitas?) folgas repletas de pura nhoquice, tudo isto contribuiu para uma quase estabelecida falta de vontade para me sentar e escrever o que quer que fosse. E, no entanto, há palavras escritas, aqui e ali, perdidas nas páginas de outros, rabiscadas no momento, quem sabe um dia o que poderão dar. Mas um ano assim se passou. Nesta terra tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Houve dias em que 240 quilómetros significaram os mesmos sentimentos dos quase 10.000 quilómetros a que já estive um dia. Mas com ajuda de algumas almas que preenchem o meu coração, dias houve em que me sentia efectivamente em casa, sem necessidade de nada mais. Neste ano senti o meu ritmo abrandar. Senti-me a voltar uma década no tempo. A ir ao encontro de um espaço físico e emocional que já senti mas muito no passado. Viver aqui é uma experiência estranha para quem sempre viveu regularmente em sítios demasiado urbanos. É claro que me fazem falta algumas coisas que, por se viver numa grande cidade ou perto dela, damos por garantidas, estão sempre ali, podemos "pegar" nelas quando nos apetece. Aqui não há essas coisas. Mas também não há, ou quase não há, tudo aquilo que dia após dia exaspera qualquer ser humanos que tenha de viver nos grandes centros urbanos. Hoje caminho mais, ando muito menos de carro numa base diária, e, como já disse a algumas pessoas, apenas sinto saudades da minha família e dos meus amigos. São eles a carne e o sangue que me falta ao esqueleto. De resto, tenho aqui estabelecida a minha rotina, os meus momentos de ócio, e graças a algumas incursões num bom raio de quilómetros aqui à volta, conheço um pouco mais do meu país e, arrisco-me a dizê-lo, da parte boa, escondida e que vale a pena o esforço a descobrir. A minha pátria é a língua portuguesa, dizia Pessoa, e eu humildemente acrescento que a minha pátria são as oliveiras, os vales, as encostas das serras, os castelos, os rios, tudo o que me rodeia, e as pessoas. As pessoas. Aqui, nesta minha casa de um ano, as pessoas marcaram-me a ferros. Tenho tantas, tantas pessoas que conheci que davam um livro, literalmente. A sua simpatia, a sua pujança, a sua vontade de lutar e não desistir, o seu abraço, a sua sinceridade, perderia o resto do dia a descrever todas as formas como estas pessoas me receberam. Sempre me tive em conta como uma pessoa que gosta de estar com outras, mesmo nos meus dias de timidez adolescente, sempre me senti bem rodeado de outros seres humanos, mas a profundidade deste sentimento ficou bem mais real aos meus olhos depois deste ano. Tantos momentos que me chegam à memória, tantos segundos de profunda alegria por partilhar esta humanidade, esta gente do campo cujo coração é do tamanho deste país que vive dias tão tristes. Se houve chatices ou momentos de angústia? Claro que sim. Não é por todos falarmos a mesma língua, e eu que tanto inglês e portunhol falei neste ano, que nos ouvimos melhor. Mas passar de uma realidade onde todos os dias havia alguém descontente ou capaz de pegar em armas para nos enfrentar para uma outra onde isso ocorre tão esporadicamente que já nem me lembro quando foi a última, bom, nem sei propriamente como descrever o que isso significa para mim. Escrevo tudo isto para que haja registo, para que possa ler, onde quer que a vida me leve de seguida. Porque esta terra já faz um pouco parte de mim, e há que trabalhar para que continue a ser assim, há que continuar a merecer esta pequeníssima espécie de presente de natal fora de época que me foi entregue em mãos. Tal como tantas coisas que aconteceram nestes trinta e cinco anos de vida, continuo a não perceber porque tenho direito a estes acontecimentos tão bons e tão marcantes. Mas já que é o que tenho, continuemos assim, com a cabeça entre as orelhas, como diria o Sérgio. Obrigado. A emissão segue dentro de momentos.