domingo, janeiro 08, 2012
Berma
sábado, janeiro 07, 2012
quinta-feira, janeiro 05, 2012
quarta-feira, janeiro 04, 2012
terça-feira, janeiro 03, 2012
Caminhada
E hoje a casa vai estar menos cheia, mais solitária. Não é muito triste, pois aqui e ali restam pequeninas coisas de quatro dias que arejaram o espaço, que lhe deram outra vida, a ele e ao respectivo inquilino. Será tempo de regressar a algumas rotinas que povoam os dias, umas mais reconfortantes que outras, mas nada que vá tirar o sono a alguém. São sempre chatas as despedidas, mesmo aquelas que apenas significam um mero até já. Nem mesmo com o cheiro a torradas e café acabado de fazer, nem assim chega para que não haja humidade ocular. Já devíamos estar habituados, digo eu. Mas nisso não há nada que se possa fazer, o coração, esse tão complicado pequeno orgão, há-de ter sempre razões que nem com uma boa rua se consegue descobrir. O que vale é que Janeiro é sempre sinónimo que festas atrás de festas, alegrias atrás de alegrias, de modo que não precisamos de muito mais tempo para estarmos outra vez juntos, a rolar por ruas e vielas, deixando que os nossos pés e demais membros cirurgicamente reciclados se deixem cansar em todas as pequenas calçadas portuguesas que vamos percorrendo nesta nossa vida. Até já.


segunda-feira, janeiro 02, 2012
Dias bons.

De momentos de alegria.
De sorrisos de cumplicidade.
Do amor que não é falado mas sente-se nas mãos.
De como se pode acabar um ano e começar o outro com a felicidade genuína de quem nos acompanha desde sempre e nunca, nunca nos abandonou no seu incondicional amor.
Bom é pouco. Foi/ainda é muito bom. Obrigado.
sexta-feira, dezembro 30, 2011
quinta-feira, dezembro 29, 2011
quarta-feira, dezembro 28, 2011
12 filmes para 2011
"Smoke"

"Red"

"José e Pilar"

"Filme do Desassossego"

"Dead Man"

"Black Swan"

"Source Code"

"1778 Stories of Me and My Wife"

"Barney's Version"

"Planet Of The Apes"

"Pina"

"The Tree Of Life"

menção honrosa: "The Wire: The Complete Series"

"Red"
"José e Pilar"

"Filme do Desassossego"
"Dead Man"
"Black Swan"
"Source Code"
"1778 Stories of Me and My Wife"

"Barney's Version"
"Planet Of The Apes"
"Pina"
"The Tree Of Life"

menção honrosa: "The Wire: The Complete Series"
terça-feira, dezembro 27, 2011
Lembrei-me agora
2012 já vai valer a pena. Mais não seja para rever e ouvir uma boa amiga.

Agora é só esperar por domingo, 18 de Março. Já faltou mais...

Agora é só esperar por domingo, 18 de Março. Já faltou mais...
A navegar...
... pelos fantasmas dos comentários passados.
Recordei que, um dia, esta minha frase matou alguém,
"A vida nem sempre é perfeita mas nas entrelinhas anda muito lá perto."
Quase cinco anos depois, não alterava uma única palavra.
Recordei que, um dia, esta minha frase matou alguém,
"A vida nem sempre é perfeita mas nas entrelinhas anda muito lá perto."
Quase cinco anos depois, não alterava uma única palavra.
12 discos para 2011
"Anna Calvi", Anna Calvi
"Wounded Rhymes", Lyyke Li
"Live At Union Chapel and Södra Teatern", Mark Kozelek
"Fala Mansa", Norberto Lobo
"Bon Iver", Bon Iver
"Chromatic", You Can't Win, Charlie Brown
"The Rip Tide", Beirut
"Lisboa Mulata", Dead Combo
"The Magic Place" Julianna Barwick
"Apocalypse", Bill Callahan
"Hardcore Will Never Die, But You Will", Mogwai
"A Montanha Mágica", Rodrigo Leão
"Wounded Rhymes", Lyyke Li
"Live At Union Chapel and Södra Teatern", Mark Kozelek
"Fala Mansa", Norberto Lobo
"Bon Iver", Bon Iver
"Chromatic", You Can't Win, Charlie Brown
"The Rip Tide", Beirut
"Lisboa Mulata", Dead Combo
"The Magic Place" Julianna Barwick
"Apocalypse", Bill Callahan
"Hardcore Will Never Die, But You Will", Mogwai
"A Montanha Mágica", Rodrigo Leão
segunda-feira, dezembro 26, 2011
12 livros para 2011
"The Berlin Wall: 13 August 1961 - 9 November 1989", Frederick Taylor
"The Picture of Dorian Gray", Oscar Wilde
"The Catcher In The Rye", J.D. Salinger
"Arquivo Íntimo", Nelson Mandela
"Incendiário", Chris Cleave
"Bichos", Miguel Torga
"O Carteiro de Pablo Neruda", Antonio Skármeta
"Americana", Don DeLillo
"A Educação Sentimental dos Pássaros", José Eduardo Agualusa
"Por Este Mundo Acima", Patrícia Reis
"Absolut Sandman Vol. 4", Neil Gaiman
"Húmus", Raul Brandão
"The Picture of Dorian Gray", Oscar Wilde
"The Catcher In The Rye", J.D. Salinger
"Arquivo Íntimo", Nelson Mandela
"Incendiário", Chris Cleave
"Bichos", Miguel Torga
"O Carteiro de Pablo Neruda", Antonio Skármeta
"Americana", Don DeLillo
"A Educação Sentimental dos Pássaros", José Eduardo Agualusa
"Por Este Mundo Acima", Patrícia Reis
"Absolut Sandman Vol. 4", Neil Gaiman
"Húmus", Raul Brandão
terça-feira, dezembro 06, 2011
Por estas noites...

(imagem retirada daqui)
Or, as Lester would say,
A life, Jimmy, you know what that is? It's the shit that happens while you're waiting for moments that never come.
A life, Jimmy, you know what that is? It's the shit that happens while you're waiting for moments that never come.
quinta-feira, dezembro 01, 2011
Viver.
E assim passou um ano desde que aqui estou a viver. Um ano repleto de tanta coisa para contar e escrever mas com pouco tempo para ocupar as páginas que ficaram em branco. A actividade profissional, as idas e vindas entre este lar e o outro, alguns devaneios turísticos intramuros, um devaneio turístico à la Relvas, as muito bemvindas visitas a este lar, algumas (ou muitas?) folgas repletas de pura nhoquice, tudo isto contribuiu para uma quase estabelecida falta de vontade para me sentar e escrever o que quer que fosse. E, no entanto, há palavras escritas, aqui e ali, perdidas nas páginas de outros, rabiscadas no momento, quem sabe um dia o que poderão dar. Mas um ano assim se passou. Nesta terra tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Houve dias em que 240 quilómetros significaram os mesmos sentimentos dos quase 10.000 quilómetros a que já estive um dia. Mas com ajuda de algumas almas que preenchem o meu coração, dias houve em que me sentia efectivamente em casa, sem necessidade de nada mais. Neste ano senti o meu ritmo abrandar. Senti-me a voltar uma década no tempo. A ir ao encontro de um espaço físico e emocional que já senti mas muito no passado. Viver aqui é uma experiência estranha para quem sempre viveu regularmente em sítios demasiado urbanos. É claro que me fazem falta algumas coisas que, por se viver numa grande cidade ou perto dela, damos por garantidas, estão sempre ali, podemos "pegar" nelas quando nos apetece. Aqui não há essas coisas. Mas também não há, ou quase não há, tudo aquilo que dia após dia exaspera qualquer ser humanos que tenha de viver nos grandes centros urbanos. Hoje caminho mais, ando muito menos de carro numa base diária, e, como já disse a algumas pessoas, apenas sinto saudades da minha família e dos meus amigos. São eles a carne e o sangue que me falta ao esqueleto. De resto, tenho aqui estabelecida a minha rotina, os meus momentos de ócio, e graças a algumas incursões num bom raio de quilómetros aqui à volta, conheço um pouco mais do meu país e, arrisco-me a dizê-lo, da parte boa, escondida e que vale a pena o esforço a descobrir. A minha pátria é a língua portuguesa, dizia Pessoa, e eu humildemente acrescento que a minha pátria são as oliveiras, os vales, as encostas das serras, os castelos, os rios, tudo o que me rodeia, e as pessoas. As pessoas. Aqui, nesta minha casa de um ano, as pessoas marcaram-me a ferros. Tenho tantas, tantas pessoas que conheci que davam um livro, literalmente. A sua simpatia, a sua pujança, a sua vontade de lutar e não desistir, o seu abraço, a sua sinceridade, perderia o resto do dia a descrever todas as formas como estas pessoas me receberam. Sempre me tive em conta como uma pessoa que gosta de estar com outras, mesmo nos meus dias de timidez adolescente, sempre me senti bem rodeado de outros seres humanos, mas a profundidade deste sentimento ficou bem mais real aos meus olhos depois deste ano. Tantos momentos que me chegam à memória, tantos segundos de profunda alegria por partilhar esta humanidade, esta gente do campo cujo coração é do tamanho deste país que vive dias tão tristes. Se houve chatices ou momentos de angústia? Claro que sim. Não é por todos falarmos a mesma língua, e eu que tanto inglês e portunhol falei neste ano, que nos ouvimos melhor. Mas passar de uma realidade onde todos os dias havia alguém descontente ou capaz de pegar em armas para nos enfrentar para uma outra onde isso ocorre tão esporadicamente que já nem me lembro quando foi a última, bom, nem sei propriamente como descrever o que isso significa para mim. Escrevo tudo isto para que haja registo, para que possa ler, onde quer que a vida me leve de seguida. Porque esta terra já faz um pouco parte de mim, e há que trabalhar para que continue a ser assim, há que continuar a merecer esta pequeníssima espécie de presente de natal fora de época que me foi entregue em mãos. Tal como tantas coisas que aconteceram nestes trinta e cinco anos de vida, continuo a não perceber porque tenho direito a estes acontecimentos tão bons e tão marcantes. Mas já que é o que tenho, continuemos assim, com a cabeça entre as orelhas, como diria o Sérgio. Obrigado. A emissão segue dentro de momentos.
domingo, novembro 13, 2011
Interior profundo.
Foi um dos primeiros a entrar na loja. Com o sorriso do costume, assente por baixo daqueles olhos que quase não precisavam de uma boca para falarem. Cumprimentou todos os empregados, depois estendeu também a mão para os poucos clientes que por ali andavam, tratando-os todos pelo nome próprio, qual registo civil ambulante cá da terra. E depois, quando me viu a caminhar na sua direcção, fez aquele gesto de quem acaba de ver um amigo de infância de quem já tinha muitas saudades.
Gosto de vir aqui. Não é que em casa me sinta sozinho, graças a deus a minha mulher é a melhor companhia que algum dia podia ter, especialmente agora que os filhos já não moram cá e os netos decidiram ir estudar para fora. Já há muitos anos que nos acompanhamos um ao outro e é assim que queremos acabar os nossos dias, quando chegar a nossa hora. Mas sair de casa, da minha horta, e vir até aqui, é muito mais que ir simplesmente às compras. É um sítio onde posso encontrar os meus vizinhos e amigos, pôr a conversa em dia, distribuir e receber sorrisos, falar com esta gente que trabalha tão bem e que nos recebe tão bem. São todos uma simpatia e já quase podiam ser da minha família. Ah, e aquele rapaz da cidade, esse é uma simpatia. Há ali coisas que me lembram o meu filho mais velho, há muitos anos, quando ainda morava com os pais. Não sei bem dizer o quê, mas sim, há ali qualquer coisa. Olha, lá vem ele.
Não me dá um abraço, se calhar para não chamar as atenções em demasia. Mas dá-me um aperto de mão demorado, alegre, feliz por me voltar a ver. Já fazia umas semanas que não nos encontrávamos. Diz que esteve para a capital, a visitar os filhos, a matar as saudades dos netos, a aproveitar para fazer uns exames também, há que aproveitar quando se tem um filho que é médico. Pergunta pelos meus pais, pela loja, pelos empregados. A tudo respondo com a maior das sinceridades, pois sei que essas perguntas são genuínas e não mera bisbilhotice. Agradeço-lhe mais uma vez a garrafa de aguardente que me deu da última vez que veio à loja. Que não tinha nada que se incomodar, que nós estamos ali para o ajudar e não para receber prendas. Ele diz para me deixar de tolices, que o prazer de oferecer foi dele e que apenas quer saber se estava boa. Digo-lhe que sim, e que o meu pai gostou também. Volta a sorrir como se não passasse de um jovem de vinte anos. E então do que é que precisa hoje?
Se não soubesse, diria que ele era mesmo daqui. Claro que não fala como nós, os que somos de cá, mas a forma como nos recebe, como fala connosco, como não se importa de nos ouvir, como sorri quando nos vê, nem se nota a diferença para os empregados que nasceram e sempre viveram aqui. Eu já desconfiava, mas quando ele me disse que os pais eram do norte, logo vi donde vinham as raízes dele. Não enganam. E eu sei do que falo. Sei bem como os meus netos são, eles que já não nasceram aqui na terra e que só vêm cá de férias, para me visitar e à avó deles. Já não é a mesma coisa. Não é que sejam mal-educados, ou que me faltem ao respeito, nada disso. Mas não é a mesma coisa. Por isso é que este rapaz é diferente. Mais terra-a-terra, mais parecido com as pessoas daqui. E está sempre disponível. Tenho que ver se lhe arranjo uma daquela compotas que a mulher costuma fazer por esta altura. Vai ficar todo contente.
Precisa de uns panos para a azeitona. Está na altura dela e tem de aproveitar que no próximo fim-de-semana os netos vão cá estar para o ajudar. Mostro-lhe os panos e pergunto se também precisa de ripadores. Diz que não tinha pensado nisso mas agora que lhos mostrei vai levar um par deles. Ajudo-o a levar as compras e acompanho-o até à caixa. Uma vez que está pouca gente na loja, ele aproveita para me contar mais uma daquelas histórias de quando era um gaiato e fazia a apanha da azeitona em vários terrenos aqui à volta. Gosto das história dele. Lembram-me as que o meu avô tantas e tantas vezes me contava e que acabei por quase decorar. Mas nestas história há uma diferença, quase sempre acabam por resvalar para alguma anedota, quase sempre rematadas com uma pequena caralhada e um sorriso maroto dele. Não há como rir com ele, deixando-nos sempre, a todos, com uma boa disposição que não tem preço. Despeço-me dele com um meio abraço e pergunto quando é que volta cá a vir. Também como sempre, diz que não sabe mas que da próxima vez me vai trazer a melhor compota que eu alguma vez provei, para mim e para o resto do pessoal. Trocamos sorrisos e despedimo-nos.
Lá levo eu mais coisas do que tinha planeado. Mas pronto, fazem sempre falta e se o rapaz não me tem lembrado, se calhar até tinha que cá voltar. Gosto sempre de conversar com ele. Não conheço muitos que, estando na posição dele, me aturassem assim. E o melhor de tudo é que se vê que não o faz por favor, nada disso, é mesmo dele. Bom, mas por hoje já chega, já lhe roubei tempo a mais. Ele diz que não, que é sempre um prazer ver-me. Acredito que sim, rapaz, olha que o prazer é todo meu. Pago as minhas compras, dou um beijinho à rapariga da caixa, que já a conheço quando ainda era uma bebé pequenita, e dou um abraço ao rapaz. Digo-lhe para manter as coisas como estão, que ele tem ali empregados bons e que sabem tratar dos clientes. Não mudes nada e guarda-os bem que eles são uma boa equipa. Na próxima vez trago compotas para todos, pois todos eles o merecem. Trocamos sorrisos e despedimo-nos.
(isto não existe. isto nunca aconteceu. esta terra não existe. ou será que sim?)
Gosto de vir aqui. Não é que em casa me sinta sozinho, graças a deus a minha mulher é a melhor companhia que algum dia podia ter, especialmente agora que os filhos já não moram cá e os netos decidiram ir estudar para fora. Já há muitos anos que nos acompanhamos um ao outro e é assim que queremos acabar os nossos dias, quando chegar a nossa hora. Mas sair de casa, da minha horta, e vir até aqui, é muito mais que ir simplesmente às compras. É um sítio onde posso encontrar os meus vizinhos e amigos, pôr a conversa em dia, distribuir e receber sorrisos, falar com esta gente que trabalha tão bem e que nos recebe tão bem. São todos uma simpatia e já quase podiam ser da minha família. Ah, e aquele rapaz da cidade, esse é uma simpatia. Há ali coisas que me lembram o meu filho mais velho, há muitos anos, quando ainda morava com os pais. Não sei bem dizer o quê, mas sim, há ali qualquer coisa. Olha, lá vem ele.
Não me dá um abraço, se calhar para não chamar as atenções em demasia. Mas dá-me um aperto de mão demorado, alegre, feliz por me voltar a ver. Já fazia umas semanas que não nos encontrávamos. Diz que esteve para a capital, a visitar os filhos, a matar as saudades dos netos, a aproveitar para fazer uns exames também, há que aproveitar quando se tem um filho que é médico. Pergunta pelos meus pais, pela loja, pelos empregados. A tudo respondo com a maior das sinceridades, pois sei que essas perguntas são genuínas e não mera bisbilhotice. Agradeço-lhe mais uma vez a garrafa de aguardente que me deu da última vez que veio à loja. Que não tinha nada que se incomodar, que nós estamos ali para o ajudar e não para receber prendas. Ele diz para me deixar de tolices, que o prazer de oferecer foi dele e que apenas quer saber se estava boa. Digo-lhe que sim, e que o meu pai gostou também. Volta a sorrir como se não passasse de um jovem de vinte anos. E então do que é que precisa hoje?
Se não soubesse, diria que ele era mesmo daqui. Claro que não fala como nós, os que somos de cá, mas a forma como nos recebe, como fala connosco, como não se importa de nos ouvir, como sorri quando nos vê, nem se nota a diferença para os empregados que nasceram e sempre viveram aqui. Eu já desconfiava, mas quando ele me disse que os pais eram do norte, logo vi donde vinham as raízes dele. Não enganam. E eu sei do que falo. Sei bem como os meus netos são, eles que já não nasceram aqui na terra e que só vêm cá de férias, para me visitar e à avó deles. Já não é a mesma coisa. Não é que sejam mal-educados, ou que me faltem ao respeito, nada disso. Mas não é a mesma coisa. Por isso é que este rapaz é diferente. Mais terra-a-terra, mais parecido com as pessoas daqui. E está sempre disponível. Tenho que ver se lhe arranjo uma daquela compotas que a mulher costuma fazer por esta altura. Vai ficar todo contente.
Precisa de uns panos para a azeitona. Está na altura dela e tem de aproveitar que no próximo fim-de-semana os netos vão cá estar para o ajudar. Mostro-lhe os panos e pergunto se também precisa de ripadores. Diz que não tinha pensado nisso mas agora que lhos mostrei vai levar um par deles. Ajudo-o a levar as compras e acompanho-o até à caixa. Uma vez que está pouca gente na loja, ele aproveita para me contar mais uma daquelas histórias de quando era um gaiato e fazia a apanha da azeitona em vários terrenos aqui à volta. Gosto das história dele. Lembram-me as que o meu avô tantas e tantas vezes me contava e que acabei por quase decorar. Mas nestas história há uma diferença, quase sempre acabam por resvalar para alguma anedota, quase sempre rematadas com uma pequena caralhada e um sorriso maroto dele. Não há como rir com ele, deixando-nos sempre, a todos, com uma boa disposição que não tem preço. Despeço-me dele com um meio abraço e pergunto quando é que volta cá a vir. Também como sempre, diz que não sabe mas que da próxima vez me vai trazer a melhor compota que eu alguma vez provei, para mim e para o resto do pessoal. Trocamos sorrisos e despedimo-nos.
Lá levo eu mais coisas do que tinha planeado. Mas pronto, fazem sempre falta e se o rapaz não me tem lembrado, se calhar até tinha que cá voltar. Gosto sempre de conversar com ele. Não conheço muitos que, estando na posição dele, me aturassem assim. E o melhor de tudo é que se vê que não o faz por favor, nada disso, é mesmo dele. Bom, mas por hoje já chega, já lhe roubei tempo a mais. Ele diz que não, que é sempre um prazer ver-me. Acredito que sim, rapaz, olha que o prazer é todo meu. Pago as minhas compras, dou um beijinho à rapariga da caixa, que já a conheço quando ainda era uma bebé pequenita, e dou um abraço ao rapaz. Digo-lhe para manter as coisas como estão, que ele tem ali empregados bons e que sabem tratar dos clientes. Não mudes nada e guarda-os bem que eles são uma boa equipa. Na próxima vez trago compotas para todos, pois todos eles o merecem. Trocamos sorrisos e despedimo-nos.
(isto não existe. isto nunca aconteceu. esta terra não existe. ou será que sim?)
quinta-feira, novembro 10, 2011
Filosofia de Elevador
"A invisibilidade tem vantagens. Ouço muitas conver-
sas. Vejo estranhas coisas. Vou chegando à conclusão
de que o mundo, lá fora, não é muito diferente de um
circo. Há palhaços ricos e palhaços pobres. Domadores
de feras, estalando chicotes contra tigres vegetarianos,
que rugem em playback para assustar a turba, e são tão
medrosos que até uma barata os assusta. Há os equili-
bristas e os contorcionistas. Os que vivem no muro e os
que nunca tiveram coluna vertebral. Há os que fazem sur-
gir coelhos de dentro de cartolas, e os que desaparecem
com os coelhos e as cartolas, e todo o dinheiro dos justos.
O circo é o mundo condensado. Como o leite con-
densado, compreende?, meio artificial, mas muito mais
doce. A gente aprende a rir. Aprende a rir para combater
a dor."
sas. Vejo estranhas coisas. Vou chegando à conclusão
de que o mundo, lá fora, não é muito diferente de um
circo. Há palhaços ricos e palhaços pobres. Domadores
de feras, estalando chicotes contra tigres vegetarianos,
que rugem em playback para assustar a turba, e são tão
medrosos que até uma barata os assusta. Há os equili-
bristas e os contorcionistas. Os que vivem no muro e os
que nunca tiveram coluna vertebral. Há os que fazem sur-
gir coelhos de dentro de cartolas, e os que desaparecem
com os coelhos e as cartolas, e todo o dinheiro dos justos.
O circo é o mundo condensado. Como o leite con-
densado, compreende?, meio artificial, mas muito mais
doce. A gente aprende a rir. Aprende a rir para combater
a dor."
José Eduardo Agualusa
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