quinta-feira, outubro 08, 2009

Big Sur

"Porque no fim de contas o mar deve ser como Deus e Deus não pede que nos lastimemos e soframos e fiquemos sentados diante do mar ao frio da meia-noite para escrevermos sons inúteis, afinal de contas ele deu-nos as ferramentas da confiança em nós mesmos para que cortemos a direito através da mortalidade desta porcaria de vida e cheguemos ao Paraíso, espero eu - Mas alguns infelizes como eu não o sabem e quando chega a nossa vez ficamos atónitos - Ah, já que a vida é um portão, um caminho, uma via que conduz ao Paraíso, por que não havemos de viver para o prazer e a alegria e o amor de uma qualquer garota junto a uma fogueira, por que não havemos de buscar o que desejamos e RIR... mas eu fugi daquela praia e todas as vezes que lá regressei esse conhecimento secreto perseguiu-me: que ela não me queria lá, que para começar eu era um palerma por ter-me lá sentado, o mar tem as suas vagas, o homem tem a sua lareira, ponto parágrafo."

Jack Kerouac

terça-feira, outubro 06, 2009

Da fé.

Ontem, o céu recebeu nos seus braços uma linda e maravilhosa alma.

Viverás para sempre nos nossos corações, Ritinha. Nunca serás esquecida, mesmo por aqueles que não chegaram a ver o teu sorriso.

Um beijo cheio de lágrimas.



sábado, outubro 03, 2009

Das palavras sublimes

(ou de como umas quantas palavras minhas e uma pequena troca de galhardetes, podem estimular a inspiração de alguém que muito prezo e dar origem a uma prosa tão bonita de tanta amargura e dor que a envolve. Obrigado, é o que posso escrever. Transcreve-se de seguida.)

Peindre ou faire l’amour

O comboio partira há pouco da estação e no entanto, era como se aquela semana se traduzisse em horas, apenas. Sabia que tinha de fugir para algum sítio e o Porto, onde vivia uma tia a quem prometia sempre no Natal uma visita, parecera-lhe o melhor lugar possível. Seria o último lugar onde ele a procuraria. Não tinha sido uma boa ideia. Desesperadamente, queria que ele a procurasse, que a encontrasse. Tantos os momentos que havia estado na Foz, à noite, naquela semana, com o telemóvel por companhia e que patética a sua figura. à terceira noite desistiu; o orgulho levara-lhe a melhor. Ela não haveria de ceder, não podia sucumbir à saudade de alguém que lhe fazia tanto mal. Além disso, tinha a certeza que ele não a entendia, que não a acompanhava nos sonhos, nas coisas que ela gostava de fazer, em nada, que não a amava. Não tanto como ela desejava, não como ela o amava. Agora tinha a certeza. A revolta tinha-se apoderado de si naquela tarde, ao perceber o quão estúpida era, e como aquela relação não a levava a lado algum. Apenas tinha tido tempo de avisar a chefe que se iria ausentar por uma semana, e num ápice, ir a casa fazer a mala. Aquela tarde, os gritos que dara em casa, os gritos que os vizinhos certamente teriam ouvido, os gritos de desamor, de uma pessoa mal amada, de uma pessoa amarga, os gritos de alguém que tinha chegado ao fim da linha, os gritos que esperavam obter uma resposta... por fim, os gritos que ficariam sem resposta. Os homens nunca entendem, os homens nunca sabem. As mulheres gritam porque estão assustadas, porque têm medo, os gritos servem apenas para encher o vazio, a frustração e o frio desse medo. O silêncio de um homem é a única coisa que deixa uma mulher que grita, assustada, sem rede. O grito que ela dá é o salto para o precipício, um precipício sem rede. Ele não lhe deu a rede, a resposta, o eco, nada. Silêncio. Resignação. Então falou, ela falou, falou, falou, falou até não poder mais, disse tudo o que lhe pareceram as melhores razões para justificar aquela saída, aquele fim. Para preencher o vazio, o frio, o medo, o silêncio. Atrás de si fechou a porta convicta de que assim era melhor.


O orgulho deu lugar a um alívio imediato, semelhante a um analgésico fraco para uma dor demasiado forte, que deu lugar a uma tristeza, intercalada com raiva, novamente acessos de orgulho e por fim, a saudade. Naquela semana, sentira acima de tudo, saudade. Saudade do cheiro dele, da voz, das palavras, até dos silêncios. Não lhe apetecia nada retornar à vida do costume. Com ele, era uma incógnita, nunca se entendiam, nada parecia bater certo; não tinham discussões, é certo, mas havia algo nele que lhe indicava que não era nada daquilo. Porque estaria ele com ela? Porquê todo aquele tempo? Agora, sem ele, tudo o que haviam vivido parecia afinal ter algum sentido. Ou seria a saudade a falar mais alto?


Estava cansada, não dormira nada naqueles dias no Porto. Detestava a cidade, as pessoas, tudo lhe parecia escuro e sujo. A tia era uma chata do caraças, sempre preocupada, sempre aquela pronúncia, nem tinha conseguido guardar segredo e o pai ligara logo na segunda noite a perguntar se estava tudo bem. "Claro que está tudo bem". Eram apenas uns dias para tirar umas fotografias para um novo trabalho. Isso ao menos correra bem, ao menos isso! A cidade tinha uma luz diferente de Lisboa, mais difícil de editar e trabalhar, mas até isso aproveitou para o estado de espírito menos "saudável".




::fotografia retirada de http://arcoirisreloaded.aminus3.com::



Agora, estava ali, naquele comboio, era já noite, passava Coimbra B, e estava frio, lá fora, dentro do comboio, dentro de si, sentia o frio e decidira fumar um cigarro para "aquecer". Maldito vício. Três tentativas para deixar e nada. Longe iam os tempos em que fumava Marlboro; agora com o preço do tabaco sempre a aumentar, limitava-se a fumar do mais barato que havia no mercado, ou daquele que a prima lhe mandava dos Açores, da tabacaria Estrela. Era horrível, mas a menos de dois euros, sabia-lhe divinalmente. Tirou o maço do bolso do casaco de malha preto que ele lhe tinha oferecido no passado dia dos namorados. Irónico, não? "Dia dos namorados... foda-se que sou mesmo estúpida, caramba!"


Olhou lá para fora e enquanto tirava o isqueiro para acender o cigarro que tinha nos lábios, caíu-lhe algo mais do bolso. Era um bilhete de cinema amachucado. Ela fazia colecção de toda a porcaria que um dia pudesse recordar e os bilhetes de cinema não eram excepção. Tudo o que fosse concerto ou filme ou peça de teatro ou um pedaço de papel com anotações especiais, pensamentos ou fotografias íam parar ao álbum. Aquele, não teria sido um muito melhor filme para recordar, de entre tantos que ela gostava de ir ver ao King, talvez por isso decidiu não o incluir no álbum. Ele tinha adormecido durante a exibição da película francesa e pela conversa posterior, achava que aquilo tinha algo a ver com uma família. Ela riu-se, como se ria sempre e achou melhor não dar importância ao caso. Estavam algo desencontrados, talvez um dia se encontrassem a sério.




Agora, naquele comboio, pareciam-lhe mais distantes que nunca. Ela não a procurara, todas as razões lhe pareceram plausíveis, concluíu. O fumo do cigarro tranquilizava-a. Soprava o fumo, travava novamente o fumo dentro de si, prendia-o durante segundos, aquilo era mesmo bom. Um rapaz olhava-a fixamente, do seu lugar, na carruagem, enquanto ela fumava de pé, junto à porta. Lembrou-se de Manoel de Oliveira, aquilo parecia um filme do Manoel de Oliveira. Fechou os olhos, ela era a figura principal, a luz estava impecável, princípio de noite semi-fria de Outubro, e aquele rapaz bem poderia ser a sua nova conquista. Talvez fosse de Lisboa, talvez fosse o seu velho/novo/de sempre/Grande Amor que tinha, também ele, o seu coração despedaçado por alguma bimba que havia despachado no Porto, um amor impossível, separados pela distância, e agora conhecia-a a ela, uma romântica incurável, apaixonada, e haviam de ver todos os concertos e ler todos os livros e ele de certeza iria dar-lhe a conhecer um mundo novo e... estava a fazer um filme. Instantaneamente, o rapaz pareceu-lhe adivinhar o pensamento desesperado e desviou o olhar. Era um mundo cruel, aquele, e ela não queria conhecer mais ninguém. Isso dava muito trabalho e não estava disposta a isso: encontros, saídas, engates, jantares, conversas, estava demasiado cansada. Na verdade, ela não queria mais ninguém. Só queria que aquela dor parasse, que o sono chegasse, que as lágrimas parassem e deixasse de fazer a conversa mental consigo mesma que as coisas podiam ter outra solução. Não tinham. Estava tudo irremediavelmente perdido. Acabado.


Ligou o iPod e deixou que o modo aleatório lhe desse uma pista sobre que caminho havia de tomar. Não poderia ter sido mais angustiante o sentimento que surgiu quando ouviu os primeiros acordes da guitarrinha ironicamente alegre do Bill...A Man Needs A Woman Or A Man To Be A Man...

in Psicologias da Treta


sexta-feira, outubro 02, 2009

quinta-feira, outubro 01, 2009

Lost in new age

Acabei de me aperceber de uma verdade (que não política).

Gostava de ter um ferrari e uma conta bancária avultada, e ser um bem sucedido profissional, para passados uns anos chegar à conclusão que não era feliz nem saudável física e mentalmente, e deixar tudo para trás e vender o meu ferrari, e partir numa demanda pela minha paz espiritual, acabar perdido numa qualquer cadeia montanhosa coberta de neve, escapar às garras do abominável homem das neves, para acabar nas garras de uns quantos monges a viverem num vale perdido de uma beleza indescritível, tornar-me pupilo desses mesmos monges que parecem umas cópias uns dos outros, passar meia dúzia de anos em ensinamentos profundos, atingir um estado de comunhão com todo o universo numa manhã particularmente luminosa, escapar às garras dos monges que já não tinham nada para me ensinar, voltar ao mundo dito civilizado, espalhar a boa nova do meu estado de comunhão com o universo com todas as pessoas que me aparecessem pela frente, elaborar uma tourné de palestras onde explicaria às pessoas como podiam ser muito mais felizes se seguissem os meus ensinamentos, lançar livros em série sobre todos os passos iluminados que me levaram à minha comunhão com o universo de modo a que muitos milhões de pessoas o pudessem comprar para serem também bafejadas pela iluminação espiritual, conseguir ser portanto um monge extremamente bem sucedido, com uma conta bancária super-hiper-mega avultada, e no final do dia poder escolher entre qual dos dez ferraris estacionados à porta da minha mansão iria encetar uma nova viagem de paz espiritual até ao aeroporto em trânsito para a minha ilha particular.

Ufa, o que seria de nós sem guias espirituais que falam da verdade (que não política). E sem vulnerabilidades (que não políticas).

Serviço de utilidade pública - XXV


Poste de eletricidade, Lisboa, Setembro 2009

quarta-feira, setembro 30, 2009

Porta fora.


Ainda me lembro dos tempos em que nunca teria coragem de dar certos passos. De certa forma o que sinto não é bem melancolia mas sim que estou frente a um espelho retorcido, daqueles que se viam na feira popular, e que aquele que me olha sou eu mas que também já não sou eu. É um outro ser humano, não sei se melhor ou pior do que eu, apenas muito diferente e distante no tempo. E o tempo, tal como alguns sacanas, não faz prisioneiros.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Papelada

Estava à espera mas não sabia bem do quê. Afinal, estava tudo terminado ou assim ela o tinha dito da última vez que tinham estado juntos. Ela tinha sido bem clara, disse-o com todas as letras, repetiu-o várias vezes e ele ficou calado. Um silêncio que, mais que consentir que ela tinha razão, era um silêncio resignado e incapaz de contornar a racionalidade dela. E a conversa, bem como o seu relacionamento, tinham efectivamente terminado naquele instante. Então porque estava ele ali, em frente à estação de caminho-de-ferro onde em breve chegaria o comboio onde ela viajava?

Puxou de um cigarro. Era o último. Devia ser o último, pensava ele. Já tinha perdido a conta à quantidade de vezes que prometia a si próprio que ia deixar de fumar. Mas passavam-se dias, meses, e por vezes anos, e lá voltava ele ao hábito da nicotina. Normalmente o tabaco ajudava-o a concentrar-se, a pensar no seu próximo passo. Mas hoje não era o caso. Nenhum pensamento lhe ocorria enquanto o cigarro ia desaparecendo num monte de cinzas. Estava nervoso. O que iria ele dizer-lhe quando a visse? Conseguiria ele dizer todas as palavras que lhe ocorreram naquelas quatro semanas em que ela tinha estado fora? Ou ela nem iria dar-lhe uma oportunidade de falar quando o visse ali, especado à sua frente? Não, ela tinha que o ouvir, tinha que lhe dar uma chance de reparar o silêncio com que ele tinha acolhido as suas razões para estar farta das desculpas dele. Não, ela não seria cruel a esse ponto, por muito magoada que estivesse com ele. Ele tinha que falar com ela, tinha de lhe dizer o quanto a amava, o quanto não o sabia até ao momento em que ela lhe disse que se ia embora da vida dele. Ele tinha que lhe dizer que era um idiota, um anormal completo por não ter percebido isso antes. Por não ter percebido que a vida dele não estava completa sem ela, sem o amor por ela.

Estava frio. Meteu as mãos aos bolsos. Sentiu alguns papeis no bolso esquerdo. Tirou-os e olhou para eles como se fosse a primeira vez que os via. Rapidamente compreendeu que se tratava de um quase diário do que se tinha passado naquelas últimas semanas. Um bilhete de cinema, um bilhete de comboio e um talão de uma compra paga com o cartão de crédito.

O bilhete de cinema já andava nos seus bolsos há mais de um mês. Tinha sido a última vez que tinham ido juntos ao cinema. Tinham ido ao centro da cidade ver um filme francês que estava numa única sala. Ela adorava filmes franceses, gostava da língua e dos personagens, achava que mais ninguém conseguia fazer filmes como os realizadores franceses. Ele gostava deste amor que ela tinha pelo cinema francês. Se não fosse o bilhete, já não se lembraria do nome do filme. Lembrava-se que era sobre uma família e uma casa. Também se lembrava que o fim do filme o tinha apanhado completamente desprevenido e por isso tinha saído da sala com um travo amargo na boca. Ela tinha adorado, como sempre. Lembrava-se que depois do filme foram dar uma volta a pé. A noite estava quente e ela gostava sempre de falar imenso com ele, para saber o que ele achava do filme, se ele tinha gostado ou não e porquê. E normalmente acabavam sempre por falar deles próprios, se seria possível as situações do filme acontecerem com eles os dois. Se iriam ser sempre felizes, se iriam ter filhos e tornarem-se uma família, se afinal de contas não estavam destinados a ficarem juntos. Falavam disto tudo. E quando chegavam a casa, beijavam-se e chegavam à conclusão que a sua vida nunca seria igual a um filme francês.

O bilhete de comboio ainda não tinha sido usado e, pela data que tinha, também já não poderia ser usado. Tinha-o comprado uma semana depois de ela ter saído de casa, quando finalmente tinha descoberto que ela estava na casa de uns familiares, no norte do país. As noites que tinha passado em claro depois de ela se ter ido embora tinham-lhe retirado bastante do seu pragmatismo e ele tinha ido reagido aos seus impulsos sem pensar nas consequências. Só quando já estava na estação e com o bilhete na mão é que se apercebeu de que ela tinha mesmo razão quando o deixara. Que ele tinha-se portado de uma forma repugnante e que assim não havia paixão que pudesse manter-se intacta. Apercebeu-se também que o silêncio ensurdecedor com que ele tinha respondido aos gritos dela se devia a uma completa ausência de palavras minimamente justificadoras que ele pudesse dizer, e que esse silêncio ainda permanecia. Que ele sabia que a amava, que não sabia se ela ainda o podia amar, e que, pior que tudo, se se encontrasse com ela, não saberia o que dizer. Sentiu os olhos húmidos, meteu o bilhete de comboio no bolso e saiu da estação enquanto o comboio partia.

O talão de compra. Parecia que lhe ardia na mão. Virou-o ao contrário e reviu um número de telemóvel escrito a tinta permanente. Tornou-o a virar e foi-se recordando daquela noite passada num bar escuro, bebida atrás de bebida, cigarro após cigarro. Lembrava-se que nessa noite a angústia que o perseguia com a ausência dela atingiu o limite. Decidiu refugiar-se ali, longe do resto do mundo, só ele, o seu tabaco e o seu copo. Já se sentia resignado, já não queria saber dela para nada, mas isso não significava que no seu coração as coisas estivessem terminadas. Sentiu a presença de alguém que se sentava ao seu lado. Uma mulher. Uma mulher que lhe lembrava as actrizes francesas de que ela tanto gostava. Ela meteu conversa com ele, e ele sentiu-se abalar na solidão que pretendia. Mostrou-se receptivo e conversou também com ela. Não se lembra das palavras que foram trocadas, já tinha bebido demasiado para isso. Os únicos gestos que recorda daquela mulher eram o beijo ofegante que ela lhe deu antes de se despedir e o número de telefone, escrito à pressa nas costas de um talão. E lembra-se também que nunca lhe chegou a telefonar, que no dia seguinte se levantou com a mãe de todas as ressacas, e que, enquanto bebia o café e olhava através do vidro da janela, sentiu saudades dela. Sentiu que a falta dela era insuportável e que não se conseguia imaginar sem ela ao seu lado.

O cigarro estava morto entre os seus dedos. Guardou no bolso os papéis e apagou o cigarro com a ponta do sapato. Apertou o casaco e atravessou a estrada, na direcção da estação. Caminhava lentamente para o local onde sabia que o comboio em que ela viajava começava a surgir.

quinta-feira, setembro 10, 2009

Manual de instruções


Failure is always the best way to learn
Retracing your steps until you know
Have no fear your wounds will heal


às vezes gostava de ser norueguês e escrever estas coisas.
até porque depois de as viver, acho que é mesmo assim.
resta-me agradecer.
Takk så meget.

Inversão de marcha

O que é que passa pela cabeça de uma pessoa enquanto caminha durante treze quilómetros? Será que os pensamentos também se distraem com a paisagem, com o mar, com as ondas, com o céu, com as outras pessoas que andam ao nosso lado, que correm ou que pedalam? O silêncio não é total, há sempre um carro ou outro a passar na estrada, mas há alturas do caminho em que só ouvimos o mar, o vento, as nossas vozes a serem levadas pelo vento e, já muito ao longe, o toque de alarme de um farol. E por ínfimos segundos, o cérebro concentra-se, os neurónios reunem-se para um só pensamento, e somos invadidos por uma enorme onda de ansiedade. Ânsia para vermos a meta, o destino final, o horizonte a transformar-se em todos os nossos sonhos. Seria bom que bastassem apenas uns míseros treze quilómetros para que tudo se tornasse cristalino e tão óbvio que nem pareceria que o caminho tinha passado de uma pequena ruela para uma enorme recta islandesa. Sem gravilha, é certo, pelo menos não no sentido físico a que estamos habituados. Mas outros nevoeiros se levantam, outras nuvens negras vão surgindo, relâmpagos aparecem do nada, tudo meros sinais de uma provação que acaba de começar. A mente ressente-se, nada se consegue sem esforço, e os músculos gritam por todos os lados, rebeliando-se contra qualquer milímetro de avanço que nos atrevamos a dar. É uma luta fraticida, pois somos nós contra nós próprios, mind over matter e todas essas merdas de pacotilha que não passam de páginas mal impressas em livros de prateleira de hipermercado. Mas no final do dia, e quando limpamos o suor da testa, e esticamos todos os músculos do corpo até ao ponto em que parece que vamos quebrar em mil e um bocados, o nevoeiro fugiu, as nuvens negras dissiparam-se, os relâmpagos não passam de pequenos raios que saltam na superfície do sol que brilha e que nos aquece, qual amigo que nos suporta, espera por nós e que praticamente nos pega ao colo, dando tanto de si que quase parecemos um. Até ao momento em que cruzamos a linha de chegada e sorrimos o sorriso dos justos, dos que merecem ser felizes, no matter what...

quinta-feira, agosto 27, 2009

O que não nos mata, torna-nos mais fortes.

É daquelas coisas que, por muito new age e self-help me soe aos ouvidos, tenho de concordar plenamente. Aliás, já tenho umas quantas cicatrizes à conta desta máxima. Se calhar não tão fundas ou em carne viva como as tuas, mas igualmente dolorosas e com marcas para o resto da vida.

E tenho o pressentimento que ainda haverá mais umas quantas ao virar da esquina.

E mesmo o choro sendo uma boa terapia, é mesmo necessário seguir em frente, evitar os buracos e pensar que amanhã as nuvens negras vão estar bem longe. Ou temos esperança que assim seja.

Coragem.

terça-feira, agosto 25, 2009

Prefácio

parfois j'aimerais mourir tellement j'ai voulu croire
parfois j'aimerais mourir pour ne plus rien avoir
parfois j'aimerais mourir pour plus jamais te voir

je ne t'aime plus mon amour
je ne t'aime plus tous les jours
je ne t'aime plus mon amour
je ne t'aime plus tous les jours



às vezes gostava mesmo de ter coragem de dizer isto.

segunda-feira, agosto 17, 2009

De vidro aberto

Eu adoro, não, eu amo o cheiro de alcatrão em ano de eleições...

(breve pausa no mergulho intenso que continuo a dar no oceano laboral, com algumas ilhas paradísiacas pelo meio, desenhadas a palavras e páginas, umas atrás das outras.... haja pseudo-pausas para jantar.)

sexta-feira, agosto 14, 2009

Os da minha rua

"Nas despedidas acontece isso: a ternura toca a alegria, a alegria traz uma saudade quase triste, a saudade semeia lágrimas, e nós, as crianças, não sabemos arrumar essas coisas dentro do nosso coração."

Ondjaki

domingo, agosto 02, 2009

The Gum Thief

"A few years ago it dawned on me that everybody past a certain age - regardless of how they look on the outside - pretty much constantly dreams of being able to escape from their lives. They don't want to be who they are any more. They want out. (...) Do you want out? Do you often wish you could be somebody, anybody, other than who you are - the you who holds a job and feeds a family - the you who keeps a relatively okay place to live and who still tries to keep your friendships alive? In other words, the you who's going to remain pretty much the same until the casket?"

Começa assim o livro que estou a ler. Nada de estranho uma vez que se trata de um livro de Douglas Coupland que, para quem já tenha lido uns quantos livros dele (como é o meu caso), encontrar "pérolas" deste calibre é um destino quase inevitável. Que esta peróla tenha aparecido no dia de hoje, com todas as coisas boas que o dia trouxe, com toda a luz que invadiu o meu dia, com todas as conversas e desabafos que tão bem me souberam à alma, simplesmente adquire todo um outro significado, impossível de exprimir em palavras envergonhadas...


Valha-nos os poucos bocejos que demos ou ainda agora estaríamos no sofá. A idealizar uma qualquer teoria científica da treta, com resultados muito pouco credíveis...

"I was waiting for the bus this morning, and there was a sparrow sitting in the azalea beside the bus shelter. I looked at it and it yawned... this tiny little wisp of heated sparrow yawn breath rose up from the branch. And the thing is, I began yawning too - so yawning is contagious not only from person to person, but from species to species. How far back was it that our primordial ancestors forked into two directions, one that became mammals and one that became birds? Five hundred millions years ago? So we've been yawning on earth for half a billion years."

segunda-feira, julho 27, 2009

«Estilhaços orgânicos»

Gostava de conhecer este senhor,


para saber se n'O homem em queda há uma referência a este senhor,


e, já agora, o que ele pensará do filme que este outro senhor está a planear fazer.


domingo, julho 26, 2009

Prenda Minha - III

Imortalidade.

Foi-me lembrado hoje que essa sim, seria a perfeita prenda para te dar no próximo Natal.

E foi doloroso ser recordado assim, dessa forma.

Custa-me ver-te assim.

Não te posso dar alguns dos meus futuros anos? Eu não me importo, a sério.

Tudo o que seja preciso para te dar forças.

Ou para te dar algo próximo da imortalidade.

Como as palavras, que são eternas.

Mesmo aquelas das quais já nos arrependemos de ter dito ou ter escrito.

Imortalidade. A tua, para sempre.