O que é que passa pela cabeça de uma pessoa enquanto caminha durante treze quilómetros? Será que os pensamentos também se distraem com a paisagem, com o mar, com as ondas, com o céu, com as outras pessoas que andam ao nosso lado, que correm ou que pedalam? O silêncio não é total, há sempre um carro ou outro a passar na estrada, mas há alturas do caminho em que só ouvimos o mar, o vento, as nossas vozes a serem levadas pelo vento e, já muito ao longe, o toque de alarme de um farol. E por ínfimos segundos, o cérebro concentra-se, os neurónios reunem-se para um só pensamento, e somos invadidos por uma enorme onda de ansiedade. Ânsia para vermos a meta, o destino final, o horizonte a transformar-se em todos os nossos sonhos. Seria bom que bastassem apenas uns míseros treze quilómetros para que tudo se tornasse cristalino e tão óbvio que nem pareceria que o caminho tinha passado de uma pequena ruela para uma enorme recta islandesa. Sem gravilha, é certo, pelo menos não no sentido físico a que estamos habituados. Mas outros nevoeiros se levantam, outras nuvens negras vão surgindo, relâmpagos aparecem do nada, tudo meros sinais de uma provação que acaba de começar. A mente ressente-se, nada se consegue sem esforço, e os músculos gritam por todos os lados, rebeliando-se contra qualquer milímetro de avanço que nos atrevamos a dar. É uma luta fraticida, pois somos nós contra nós próprios, mind over matter e todas essas merdas de pacotilha que não passam de páginas mal impressas em livros de prateleira de hipermercado. Mas no final do dia, e quando limpamos o suor da testa, e esticamos todos os músculos do corpo até ao ponto em que parece que vamos quebrar em mil e um bocados, o nevoeiro fugiu, as nuvens negras dissiparam-se, os relâmpagos não passam de pequenos raios que saltam na superfície do sol que brilha e que nos aquece, qual amigo que nos suporta, espera por nós e que praticamente nos pega ao colo, dando tanto de si que quase parecemos um. Até ao momento em que cruzamos a linha de chegada e sorrimos o sorriso dos justos, dos que merecem ser felizes, no matter what...
quinta-feira, setembro 10, 2009
quinta-feira, agosto 27, 2009
O que não nos mata, torna-nos mais fortes.
É daquelas coisas que, por muito new age e self-help me soe aos ouvidos, tenho de concordar plenamente. Aliás, já tenho umas quantas cicatrizes à conta desta máxima. Se calhar não tão fundas ou em carne viva como as tuas, mas igualmente dolorosas e com marcas para o resto da vida.
E tenho o pressentimento que ainda haverá mais umas quantas ao virar da esquina.
E mesmo o choro sendo uma boa terapia, é mesmo necessário seguir em frente, evitar os buracos e pensar que amanhã as nuvens negras vão estar bem longe. Ou temos esperança que assim seja.
Coragem.
É daquelas coisas que, por muito new age e self-help me soe aos ouvidos, tenho de concordar plenamente. Aliás, já tenho umas quantas cicatrizes à conta desta máxima. Se calhar não tão fundas ou em carne viva como as tuas, mas igualmente dolorosas e com marcas para o resto da vida.
E tenho o pressentimento que ainda haverá mais umas quantas ao virar da esquina.
E mesmo o choro sendo uma boa terapia, é mesmo necessário seguir em frente, evitar os buracos e pensar que amanhã as nuvens negras vão estar bem longe. Ou temos esperança que assim seja.
Coragem.
terça-feira, agosto 25, 2009
Prefácio
parfois j'aimerais mourir tellement j'ai voulu croire
parfois j'aimerais mourir pour ne plus rien avoir
parfois j'aimerais mourir pour plus jamais te voir
je ne t'aime plus mon amour
je ne t'aime plus tous les jours
je ne t'aime plus mon amour
je ne t'aime plus tous les jours
parfois j'aimerais mourir pour ne plus rien avoir
parfois j'aimerais mourir pour plus jamais te voir
je ne t'aime plus mon amour
je ne t'aime plus tous les jours
je ne t'aime plus mon amour
je ne t'aime plus tous les jours
às vezes gostava mesmo de ter coragem de dizer isto.
segunda-feira, agosto 17, 2009
De vidro aberto
Eu adoro, não, eu amo o cheiro de alcatrão em ano de eleições...
(breve pausa no mergulho intenso que continuo a dar no oceano laboral, com algumas ilhas paradísiacas pelo meio, desenhadas a palavras e páginas, umas atrás das outras.... haja pseudo-pausas para jantar.)
(breve pausa no mergulho intenso que continuo a dar no oceano laboral, com algumas ilhas paradísiacas pelo meio, desenhadas a palavras e páginas, umas atrás das outras.... haja pseudo-pausas para jantar.)
sexta-feira, agosto 14, 2009
Os da minha rua
"Nas despedidas acontece isso: a ternura toca a alegria, a alegria traz uma saudade quase triste, a saudade semeia lágrimas, e nós, as crianças, não sabemos arrumar essas coisas dentro do nosso coração."
Ondjaki
terça-feira, agosto 11, 2009
domingo, agosto 02, 2009
The Gum Thief
"A few years ago it dawned on me that everybody past a certain age - regardless of how they look on the outside - pretty much constantly dreams of being able to escape from their lives. They don't want to be who they are any more. They want out. (...) Do you want out? Do you often wish you could be somebody, anybody, other than who you are - the you who holds a job and feeds a family - the you who keeps a relatively okay place to live and who still tries to keep your friendships alive? In other words, the you who's going to remain pretty much the same until the casket?"
Começa assim o livro que estou a ler. Nada de estranho uma vez que se trata de um livro de Douglas Coupland que, para quem já tenha lido uns quantos livros dele (como é o meu caso), encontrar "pérolas" deste calibre é um destino quase inevitável. Que esta peróla tenha aparecido no dia de hoje, com todas as coisas boas que o dia trouxe, com toda a luz que invadiu o meu dia, com todas as conversas e desabafos que tão bem me souberam à alma, simplesmente adquire todo um outro significado, impossível de exprimir em palavras envergonhadas...

Valha-nos os poucos bocejos que demos ou ainda agora estaríamos no sofá. A idealizar uma qualquer teoria científica da treta, com resultados muito pouco credíveis...
"I was waiting for the bus this morning, and there was a sparrow sitting in the azalea beside the bus shelter. I looked at it and it yawned... this tiny little wisp of heated sparrow yawn breath rose up from the branch. And the thing is, I began yawning too - so yawning is contagious not only from person to person, but from species to species. How far back was it that our primordial ancestors forked into two directions, one that became mammals and one that became birds? Five hundred millions years ago? So we've been yawning on earth for half a billion years."
Começa assim o livro que estou a ler. Nada de estranho uma vez que se trata de um livro de Douglas Coupland que, para quem já tenha lido uns quantos livros dele (como é o meu caso), encontrar "pérolas" deste calibre é um destino quase inevitável. Que esta peróla tenha aparecido no dia de hoje, com todas as coisas boas que o dia trouxe, com toda a luz que invadiu o meu dia, com todas as conversas e desabafos que tão bem me souberam à alma, simplesmente adquire todo um outro significado, impossível de exprimir em palavras envergonhadas...

Valha-nos os poucos bocejos que demos ou ainda agora estaríamos no sofá. A idealizar uma qualquer teoria científica da treta, com resultados muito pouco credíveis...
"I was waiting for the bus this morning, and there was a sparrow sitting in the azalea beside the bus shelter. I looked at it and it yawned... this tiny little wisp of heated sparrow yawn breath rose up from the branch. And the thing is, I began yawning too - so yawning is contagious not only from person to person, but from species to species. How far back was it that our primordial ancestors forked into two directions, one that became mammals and one that became birds? Five hundred millions years ago? So we've been yawning on earth for half a billion years."
segunda-feira, julho 27, 2009
«Estilhaços orgânicos»
Gostava de conhecer este senhor,
Selos:
Cosmopolis,
Don DeLillo,
Nusrat Fateh Ali Khan
domingo, julho 26, 2009
Prenda Minha - III
Imortalidade.
Foi-me lembrado hoje que essa sim, seria a perfeita prenda para te dar no próximo Natal.
E foi doloroso ser recordado assim, dessa forma.
Custa-me ver-te assim.
Não te posso dar alguns dos meus futuros anos? Eu não me importo, a sério.
Tudo o que seja preciso para te dar forças.
Ou para te dar algo próximo da imortalidade.
Como as palavras, que são eternas.
Mesmo aquelas das quais já nos arrependemos de ter dito ou ter escrito.
Imortalidade. A tua, para sempre.
Foi-me lembrado hoje que essa sim, seria a perfeita prenda para te dar no próximo Natal.
E foi doloroso ser recordado assim, dessa forma.
Custa-me ver-te assim.
Não te posso dar alguns dos meus futuros anos? Eu não me importo, a sério.
Tudo o que seja preciso para te dar forças.
Ou para te dar algo próximo da imortalidade.
Como as palavras, que são eternas.
Mesmo aquelas das quais já nos arrependemos de ter dito ou ter escrito.
Imortalidade. A tua, para sempre.
Parafraseando

"Sou, de facto, um corpo estranho. E para o confirmar, basta-me simplesmente olhar para o lado. Aquilo que poderia passar por um extravazar de sentimentos devido a uma violência por demais psicológica, não passava de uma birra. Uma birra de alguém que ainda não sabe rigorosamente nada da vida. Que pensa que merece tudo e que tem direito a ser sempre ouvida. Mas há mais. Umas escadas acima, o comprovativo de que há algo em mim que não funciona como deve de ser. Ou que pelo menos não funciona como nos outros. Enquanto neles tudo é fácil, reconfortante e assumido, em mim acaba por haver sempre buracos na estrada, espinhos nas rosas que tento segurar e precipícios ao virar da esquina. E no fundo, acho que sou eu próprio que acabo por criar tudo isso. Será um íntimo desejo de ser realmente um corpo estranho? Não sei, se calhar preciso de me deitar no divâ e compreender realmente do que tratam todas estas palavras alinhavadas. Até lá, estranho me mantenho, com todo o arrependimento que isso traz."
das profundidades mais obscuras da minha alma
quinta-feira, julho 23, 2009
Prenda Minha - II
Há qualquer coisa no acto de ver as minhas fotografias antigas com o qual não sei muito bem como lidar. Ao mesmo tempo que me deixo invadir por um sentimento aconchegante de memórias esquecidas e sensações reavivadas, não deixo de olhar para os pequenos rectângulos mate como vidas passadas. Coisas que ficaram lá atrás, capturadas num ínfimo momento, transportadas momentaneamente para o presente, mas com o passado como enquadramento. Para além do óbvio (um cabelo mais farto, menos pelos faciais, inclusivé, por vezes, a ausência do auxiliar de visão), há sempre algo na expressão daquele meu outro eu que me deixa desconcertado. Sim, lembro-me do que estaria a passar pela minha cabeça naquele preciso momento (ou pelo menos acho que me lembro), e num ápice consigo transportar-me para aquele dia e saber onde estava e com quem estava e até se teria menos ou mais preocupações do que agora. E depois deixo-me ficar a olhar, só isso. A ver todos os pequeninos pormenores de cada foto. Aquele sorriso. Aquele abraço envolvente. O cabelo que se agita ao sabor do vento. As pessoas a passarem ao meu lado. As árvores lá atrás. A praia que se estende por todo o pequeno rectângulo fotográfico. Os prédios que me rodeiam, que sempre me rodearam. O azul infinito. E cresce em mim uma sensação de perda. É claro que há coisas que me vão acompanhando ao longo dos anos, dos muitos anos fotográficos que já levo, e há até outras que se foram juntando ao longo do caminho. Mas não consigo evitar pensar em tudo o que ficou preso no passado, ali registado, e que nunca mais voltou. E que afinal de contas teve a duração de um minusculo segundo no grande esquema das coisas. E é isso que acaba por me deixar quase sempre um bocadinho melancólico e a pensar em tolos "e se...".
(E quando o raio das fotos se põem a andar de um lado para o outro, sem que as consigamos manter no sítio correcto? Merda para o raio das formatações...)
(E quando o raio das fotos se põem a andar de um lado para o outro, sem que as consigamos manter no sítio correcto? Merda para o raio das formatações...)
Processo disciplinar - II
És ignóbil! Não tens emenda! O teu mau-feitio não tem fim, por mais vezes que pareça que já não me consegues surpreender! Sempre a arrastares-te por aí, sem destino, sem um objectivo em vista, sempre de um lado para o outro, sem decidires finalmente o que queres da vida! Como é que podes ser assim? Meu grandessissímo traste, espécie de verme inútil! Mas estás à espera de quê? Que a sorte caia no teu colo e te torne o ser mais especial à face do planeta? Mas és burro ou simplesmente ainda acreditas em contos de fadas? Quem te manda passar o tempo enterrado em livros e mais livros, passando de página para página interminavelmente, deixando os dias passarem assim, completamente vagos de algo que realmente faça de ti um elemento valioso para esta sociedade já tão recheada de idiotas sonhadores como tu... És louco, parvo e estúpido, tudo ao mesmo tempo! Odeio-te e só gostava de me ver livre de ti!
E depois de ouvir tudo aquilo, o esparguete não teve outra decisão que não fosse pegar nas suas almôndegas, meter o frasco de quetchupe na mala, colocar o chapéu de palha e sair pela porta da frente, deixando as chaves em cima do móvel da entrada.
E depois de ouvir tudo aquilo, o esparguete não teve outra decisão que não fosse pegar nas suas almôndegas, meter o frasco de quetchupe na mala, colocar o chapéu de palha e sair pela porta da frente, deixando as chaves em cima do móvel da entrada.
Processo disciplinar
Cala-te, por favor. Não grites mais, é excusado.
Não sabes como na verdade estás a agredi-lo tanto como a mim mesmo. Sinto o meu coração ficar pequenino, do tamanho de um grão de areia, de cada vez que abres a boca na sua direcção. Sentiria menos dor se simplesmente me cravasses uma faca no peito.
Ele não te compreende, será que não entendes?
E porque não fazer-lhe a vontade, deixá-lo ter a razão que ele pensa que ainda tem? Será que te custava assim tanto dar o braço a torcer e com isso torcer a verdade por uma boa causa? Eu sei, eu sei, eu deveria ser a última pessoa a defendê-lo, ainda me lembro bem das vezes que o confrontava com as minhas naturais dúvidas de adolescente, que tudo questionava e que tudo tentava colocar em causa, apenas mais um pretexto para uma guerra de palavras sem trégua.
Vê como ele está. Vê como ele ficou. E tu, porque estás assim, tão alterada?
Sim, as refeições calado, no meu canto da mesa, sob o seu olhar acusador. O sair desesperado da mesa e sempre recriminado pela minha falta de respeito, um puto sem a mínima educação, como era possível. A subida, sempre com a raiva em chamas, das escadas que tanto me ensinaram, as escadas onde passámos dias e noites de sabedoria que nenhum livro seria capaz de me incutir. As escadas onde tu e eu resolvíamos as nossas diferenças, onde voltávamos a sorrir um para o outro, onde o acordo de paz era quase sempre assinado com o recurso a um caneco de água. Sim, não me esqueço e quem me dera que tu também não esquecesses.
Vamos sair, vamos apanhar ar, vamos esticar as pernas, vamos conversar um bocadinho lá fora.
Vamos sair, vamos apanhar ar, vamos esticar as pernas, vamos conversar um bocadinho lá fora. Tenho uma ideia. Vamos caminhar ao contrário, voltar no tempo e fazer de conta que estamos outra vez ali, à beira da estrada. Com os nossos sorrisos eternamente presentes.
Não sabes como na verdade estás a agredi-lo tanto como a mim mesmo. Sinto o meu coração ficar pequenino, do tamanho de um grão de areia, de cada vez que abres a boca na sua direcção. Sentiria menos dor se simplesmente me cravasses uma faca no peito.
Ele não te compreende, será que não entendes?
E porque não fazer-lhe a vontade, deixá-lo ter a razão que ele pensa que ainda tem? Será que te custava assim tanto dar o braço a torcer e com isso torcer a verdade por uma boa causa? Eu sei, eu sei, eu deveria ser a última pessoa a defendê-lo, ainda me lembro bem das vezes que o confrontava com as minhas naturais dúvidas de adolescente, que tudo questionava e que tudo tentava colocar em causa, apenas mais um pretexto para uma guerra de palavras sem trégua.
Vê como ele está. Vê como ele ficou. E tu, porque estás assim, tão alterada?
Sim, as refeições calado, no meu canto da mesa, sob o seu olhar acusador. O sair desesperado da mesa e sempre recriminado pela minha falta de respeito, um puto sem a mínima educação, como era possível. A subida, sempre com a raiva em chamas, das escadas que tanto me ensinaram, as escadas onde passámos dias e noites de sabedoria que nenhum livro seria capaz de me incutir. As escadas onde tu e eu resolvíamos as nossas diferenças, onde voltávamos a sorrir um para o outro, onde o acordo de paz era quase sempre assinado com o recurso a um caneco de água. Sim, não me esqueço e quem me dera que tu também não esquecesses.
Vamos sair, vamos apanhar ar, vamos esticar as pernas, vamos conversar um bocadinho lá fora.
Vamos sair, vamos apanhar ar, vamos esticar as pernas, vamos conversar um bocadinho lá fora. Tenho uma ideia. Vamos caminhar ao contrário, voltar no tempo e fazer de conta que estamos outra vez ali, à beira da estrada. Com os nossos sorrisos eternamente presentes.
terça-feira, julho 21, 2009
Repreensão
"Depois de fuzilado
ao levar
o tiro na nuca pra acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão
na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
pra gritar
convicto
um último viva a revolução"
ao levar
o tiro na nuca pra acabar
chateou-se
e viu-se obrigado
a explicar
ao major
que comandava o pelotão
que o tinha fuzilado
por favor
preste atenção
e não me obrigue a repetir
a repreensão
na próxima vez
que mandar matar
dê tempo ao morto
pra gritar
convicto
um último viva a revolução"
Mário-Henrique Leiria
sábado, julho 18, 2009
Ondas Sonoras - XXXVII

Norberto Lobo merecia ser mais conhecido. Porquê? Porque a sua música merecia passar por muitos e muitos pares de tímpanos. Eu, obviamente, não sou imparcial. Há algo no som de uma guitarra que sempre me fez sonhar, imaginar mundos, histórias, tudo aquilo que o mundo real não nos proporciona. E provavelmente o grande "culpado" por este amor às cordas da guitarra terá sido o incomparável mestre Carlos Paredes. Na altura, muito novinho, em que comecei a dar de caras com o fado, torci o nariz, virei a cara e não gostei nada daquilo. Pelo menos até ouvir a forma como a guitarra de Carlos Paredes chorava, ria, dançava e flutuava pelo ar. Não me cansava de ouvir os acordes que o mestre arrancava das cordas, de tal forma que durante muitos e muitos anos era a única coisa relacionada com fado que conseguia ouvir. Também houve uma altura em aprendi a tocar uns míseros acordes numa viola, em casa de um amigo. Aprendi umas coisas e senti-me mais próximo de todos os guitarristas que alguma vez tinha ouvido. Mas deixou de haver prática, e como tal tudo esqueci. E acho que esqueci todo esse enamoramento com a guitarra até ouvir a música de Norberto Lobo. E aí, todas aquelas sensações de começar a escrever inspirado em canções que apenas provinham de uma guitarra, voltaram todas ao mesmo tempo, deixando-me deslumbrado com a imaginação deste músico que, repito, merecia ter todo o país aos seus pés. "Mudar de Bina" era muito bom, mas "Pata Lenta" eleva a sua música a um patamar de criatividade como poucos. Das curvas e contra-curvas de "Ayrton Senna", ao sublime "Samantra", chegando a uma bonita e frágil versão de "Unravel" de miss Björk, todo o disco podia ser um sonho. Um daqueles sonhos do qual não queremos despertar, de tão maravilhoso que é...
quarta-feira, julho 15, 2009
O silêncio
"Voltou-se devagar, sentou-se de novo, recomeçou a escrever, parou pouco depois, atravessou a sala sem saber ao certo o que procurava, entrou na cozinha sem acender a luz - a tristeza, pensou de repente, a chuva enervante, a tarde vazia avançando, nada se possuindo jamais, o tempo como fumo. Recomeçar? A ilusão de recomeçar. A visão fascinada e ansiosa, a serena visão desencantada. Não há nada no amor, dissera-lhe, mas sentira que essa frase era talvez absurda e corrigira: há pelo menos o amor em si próprio, mas isso era também apenas uma frase e ele odiou-se por ter cedido a tentar transpor sentimentos em palavras, porque tudo era sempre tão errado, uma vez dito. Acendeu a luz da entrada e viu-se de repente no espelho - dois momentos sobrepostos no tempo, dois corpos sobrepostos, um corpo no limiar do declínio e um corpo jovem, apressado, trémulo, procurando ainda a sua própria forma. A coragem de enfrentar o nada e continuar vivendo. O desespero como uma forma de amor, a casa oca, parada, vazia da presença dela, um vazio em que ele sofria e chamava. Sentou-se de novo diante da folha de papel, voltou a levantar-se, encostou-se à janela. A chuva caía agora com mais força, uma chuva de verão, rebentando com violência no céu ainda claro. Até ao fim do mundo iria procurá-la, pensou, como um desafio, atravessaria o mundo debaixo da chuva até encontrá-la (...)"
Teolinda Gersão
terça-feira, julho 14, 2009
Prenda Minha - I
Começa a ser hábito, que não deliberado, falar em Natal por alturas do Verão, neste recanto virtual. Não vou deixar links, mas se fizerem um exercício de arqueologia bloguística, irão encontrar no arquivo, em anos anteriores por alturas dos meses veraneantes, alguns escritos relacionados com essa quadra festiva. Nem sempre pelas melhores razões, pois o trabalho tem a terrível mania de se embrenhar acostumadamente cedo por esses caminhos de grinaldas, brinquedos e presépios, mas em outras alturas, a referência natalícia é feita por motivos realmente solidários e livres de qualquer repentino instinto consumista. O que, no fundo, apenas ilustra ambos os lados que se apoderam deste vosso escriba quando o 25 de Dezembro começa a surgir cada vez mais próximo do horizonte. Basicamente, como escreveu Dickens, it was the best of times, it was the worst of times. Mesmo assim, tenho a felicidade de dizer que as boas recordações que tenho do Natal suplantam em muito as menos boas, o que resulta numa pequena migalha de cinismo no enorme bolo de chocolate de felicidade infantil que o Natal para mim significa. Toda esta divagação apenas para dizer que ontem começou a ser feita a lista de prendas. E que já há candidatos a participarem dela, ainda que não o saibam. Ou como apanhar um pouco de sol na cabeça, pode trazer efeitos secundários tão ambiciosos como insanes.
E sim, haverá cenas dos próximos capítulos.
E sim, haverá cenas dos próximos capítulos.
segunda-feira, julho 13, 2009
Natal...
... é conseguir imaginar uma prenda realmente especial para dar no 25 de Dezembro, enquanto na rua ainda estão uns vinte e tal graus e temos um sorriso parvo na cara cheio de ansiedade para ver o que esta ou aquela pessoa vão pensar da prenda realmente especial.
Exit
Qual seria a sensação de concretizar a fuga? Naqueles dias, ele não conseguia pensar noutra coisa que não fosse simplesmente bater com a porta, mandar todo aquele quotidiano à merda e simplesmente fugir, correr, deixar toda aquela existência rasteira para trás das costas. Haveria culpas dele, certamente, ele tinha assinado por baixo e era portanto com o seu consentimento que tudo aquilo tinha acontecido. Mas nunca teria ele imaginado que as coisas chegassem a um ponto em que ele sinceramente contemplasse terminar com tudo, realmente tudo. E por isso é que agora apenas lhe ocorria fugir, para onde ninguém o conseguisse encontrar. Nem aqueles que amava, nem aqueles que odiava. Apenas e só começar tudo do zero. Uma espécie de renascimento da sua pseudo-alma. Melhor e menos drama queen, um reset da massa cinzenta, esquecendo toda a angústia e dor que os últimos dez anos da sua vida lhe tinham proporcionado. Era triste aquela fuga, pois deixava também muita coisa boa para trás. Mas o que fazer com amizades que no último segundo não chegavam para o salvar? O que fazer com todas aquelas fotografias estupendas, que agora apenas se limitavam a ganhar pó em albuns e caixas? O que fazer com amores tão apaixonadamente vividos, que agora se tinham tornado em memórias azedumes que nenhum sistema de suporte de vida conseguia reanimar? No balancete das coisas, o passivo conseguia enterrar os restos mortais do activo. E por isso não havia outro caminho. Tinha de fugir, para lá da linha do horizonte e antes do sol se pôr. Qual mísera caricatura de um lucky luke sem sombra nem cavalo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




