segunda-feira, junho 28, 2010

Porque sim.

E porque em breve vai ser tempo de voltar a sonhar.



"People think dreams aren't real just because they aren't made of matter, of particles. Dreams are real. But they are made of viewpoints, of images, of memories and puns and lost hopes."



sábado, junho 26, 2010

Ondas Sonoras - XXXIX

"Durante los dos último años han abordado una propuesta multidisciplinar bautizada como 20 Hatz Proiekt (proyecto 20 dedos). Uno de sus nortes es la búsqueda de nuevas texturas y sonidos para la trikitixa y la txalaparta; esa totémica pareja de instrumentos vascos." (daqui)



Haja música desconhecida que nos proporciona maravilhosas descobertas. Iñaki Plaza & Ion Garmendia trouxeram consigo uma música de raíz tradicional basca, mas que está aberta a tudo o que seja sonoridades espalhadas por todo o globo, venham elas de sonoridades africanas ou indianas, ou de objectos reciclados de pvc que emitam sons que tão depressa não esquecemos. E ainda temos o prazer de ficar instrumentos como a txalaparta, a txitua, a alboka ou as harriak, com um som magnífico. Agradeça-se à organização do Festival Sete Sóis Sete Luas e marque-se novo encontro para a semana que vem!


quinta-feira, junho 24, 2010

Serviço de utilidade pública - XXVI


E mais não digo, senão qualquer dia a fila dá a volta ao bairro... :)

quarta-feira, junho 23, 2010

Planespotting



Estava sentado a ver todos a fugirem. Dali conseguia ver tudo. A ponte completamente congestionada, carros e mais carros carregados de pessoas que tentavam fugir para o sul, em direcção à fronteira. Seria também esse o destino dos comboios que ao longe ouvia, o som da partida de cada vez que um arrancava, carruagens cheias, atulhadas de malas e pessoas e tudo o mais que não estivesse agarrado ao chão. E os aviões. Um após outro, com intervalos de tempo cada vez mais curtos entre partidas. Apenas partidas. Era estranho ver os aviões apenas afastarem-se do chão e nenhum deles aproximar-se da pista, como tantas vezes tinha ficado a ver da sua janela. Agora apenas os via partir. Não faltaria muito até que todos os aviões tivessem partido e o aeroporto ficasse vazio. Não haveria mais aviões, nem passageiros, nem trabalhadores, nem pilotos, nem malas, nem seguranças, nada, o aeroporto ficaria tão vazio que até as luzes da pista seriam apagadas, deixando o vazio mergulhado na escuridão para sempre. Qualquer ideia para um novo aeroporto, discussão que parecia já ter décadas e décadas, ficaria finalmente resolvida, pois nunca mais haveria necessidade de tal empreendimento. Desde o momento em que as altas instâncias políticas do país tinham feito o dramático anúncio, todos os problemas económicos, sociais, culturais, religiosos, enfim todas aquelas questões que enchiam os telejornais como balões de ar quente, tudo tinha ficado resolvido. Não mais se falaria do défice, do desemprego, da liberdade de imprensa, dos famosos, de Fátima, do nosso fado, do futebol, da selecção, tudo ficava arrumado ou, mais apropriadamente, enterrado. Assim voava a sua mente, ali com ele sentada, enquanto os últimos aviões também voavam, fugindo atabalhoadamente de um espaço aéreo cujos céus azuis celebravam as suas últimas horas de existência. E mesmo com todo este êxodo, não havia pânico. Da parte dele certamente que não, ou não continuasse ele ali sentado, no seu jardim preferido, observando atentamente todas aquelas coisas que ainda o rodeavam. Mas mesmo nos olhos de todas as pessoas que agora faziam a sua viagem para fora do país, nos seus gestos, na sua ânsia por um sítio que não estivesse condenado, não havia pânico. Na verdade, parecia algo natural, algo que inevitavelmente teria que acontecer, ou que já podia ter acontecido, mas que estava a acontecer agora, neste preciso momento. Ele quase conseguia visualizar as pessoas diante dos seus aparelhos de televisão, avisadas para a declaração anunciada, sem saber o seu conteúdo, sentadas enquanto o juízo final do país era relatado em frases analíticas e por faces cinzentas. Conseguia vê-las a lentamente desligarem os televisores, dirigirem-se aos quartos, fazendo as malas com aquilo que achavam serem os bens essenciais para a sua viagem, deixando tudo o resto para trás, desligando a água, o gás e a electricidade, como se apenas fossem de férias, como se para a semana estivessem de regresso a casa, e calmamente encaminharem-se para os seus carros, os seus autocarros, os seus comboios e para os seus aviões, caso tivessem a felicidade de possuirem o dinheiro suficiente para fazer face aos aumentos de 500% que se fizeram sentir no preço dos bilhetes assim que a declaração política tinha sido emitida. E com essa mesma tranquilidade, as cidades, as vilas e as aldeias do país foram começando a ser drenadas dos seus habitantes, movimentações massivas de pessoas que na sua grande maioria se dirigiam para a única fronteira terrestre que o país mantinha. Havia até quem pegasse nos seus barcos de pesca ou de recreio e se aventurasse em direcção ao mar, numa reedição de venturas passadas, ainda que agora a procura de novas terras se desenrolasse num pano de fundo de necessidade de sobrevivência e sem expectativas de regresso àquelas costas marítimas que em breve apenas fariam parte da memória colectiva de um povo que também ele seria uma realidade nos livros de história que porventura poderiam estar perdidos nas bagagens de uns quantos. Tantos séculos depois, o povo era devolvido novamente ao mar. Ou deveria dizer-se expulso para o mar? A ideia provocou-lhe um sorriso, algo que ele achou estranho. E não devia também ele estar a fugir? Não devia ele, por exemplo, estar num dos aviões militares que cruzavam os ares naquele momento, juntamente com outras centenas de pessoas que o exército tinha conseguido salvar? Não devia ele estar no meio daqueles homens, mulheres, crianças, idosos, políticos, carpinteiros, empresários, apresentadores de televisão, canalizadores, mecânicos, engenheiros, doutores, professores, engenheiros, militares, todas aquelas pessoas cuja única coisa que partilhavam era uma nacionalidade, uma identificação com uma terra onde tinham nascido, vivido e quase morrido, uma ligação quase inconsciente com pouco mais de noventa mil quilometros quadrados de uma terra que tinha agora apenas algumas horas mais de existência? Porque razão não se juntava ele aos milhões que agora já nada queriam com um terra prestes a cair num término sem volta? Não era por falta de crença naquele fim, ele sabia que as coisas apenas podiam acabar daquela forma, no seu íntimo sempre o soubera, pois não há nada que dure para sempre. Apenas sentia uma pontinha de incredibilidade por ver que o fim acontecia durante a sua existência, mas o que é que se podia fazer realmente? Acabou, está acabado. A questão era porquê ficar ali, sentado num banco de jardim, a fumar os últimos cigarros do seu último maço, a ver os grandes pássaros de metal voarem dali para fora, a ver o engarrafamento na ponte, não muito diferente de um dia normal de semana. Não queria fugir. Não queria passar a fronteira. Não queria voar para uma ilha paradisíaca num pacote de sete dias e oito noites. Nada disso. A única coisa que alguma vez o tinha feito feliz era aquele país. Ali tinha sentido as suas maiores alegrias e tinha sido atormentado pelas maiores tristezas. Nunca conseguiria escapar a tempo, é claro, muito menos agora que já não havia alternativa possível. Mas ele não queria. Nunca conseguiria viver fora dali. Teria que começar tudo do zero. Um novo país, uma nova língua, uma nova moeda, um novo bilhete de identidade, um novo emprego, novos amigos, novos inimigos, não, nada disso era para ele. Não. Preferia ficar ali, no seu sítio, a observar a desintegração final do país e, com ele, a da sua vida. Tinha sido uma vida engraçada, nem demasiado comprida, nem demasiado curta. Poderia ter feito mais alguma coisa com ela, mas para quê? Sentia-se feliz com o que tinha feito e agora era tarde para estar a pensar em tudo o que não tinha feito ou o que podia ter feito de forma diferente. Não, isso era para aquelas pessoas que acreditavam em reencarnações e afins, elas podiam ficar com esses pensamentos enquanto voavam dali para fora. Ele contentava-se com o que tinha, dentro de si moravam todos os anos, os meses, os dias, as horas, os minutos e os segundos que tinha passado com os pés assentes naquela terra que em breve deixaria de existir. Aquele banco de jardim seria a sua última morada e seria mais do que suficiente. E elevou os olhos para o céu onde viu o último avião a fazer pela última vez aquele trajecto aéreo que ele tantas vezes tinha visto. Parecia ser um daqueles aviões que levam quase novecentas pessoas de uma só vez. E pôs-se a pensar se aquelas novecentas almas o conseguiriam ver ali, no seu banco de jardim, se achariam absurdo aquela pessoa ficar para trás, abandonado à sua sorte numa terra com fim a termo certo. Será que sentiam pena por ele? Ou será que achavam que cada um cava a sua sepultura, e que se era isso que ele queria, em breve o havia de ter? E ele sentiu-se, de repente, sozinho. Será que seria o único a ficar para trás? Não haveria mais ninguém a sentir-se como ele? Ninguém? Bom, teria que ser assim, nada havia a fazer, não havia mais tempo para nada. Talvez para mais um cigarro, não? "Olha, parece que não." Puff. Foi-se.


terça-feira, junho 22, 2010

Escape

Diz a wikipédia,

Road movies traditionally end in one of five ways:

  • having met with triumph at their ultimate destination, the protagonist(s) return home, wiser for their experiences.
  • at the end of the journey, the protagonist(s) find a new home at their destination.
  • the journey continues endlessly.
  • having realised that as a result of their journey they can never go home, the protagonists either choose death or are killed.
  • the film ends without any implication of further jaunt.

E se quando chegamos ao final da viagem, que supostamente seria a nossa casa, o local onde tudo faria sentido, nos apercebemos que já não é a nossa casa, mas sim uma casa qualquer, onde parece que entrámos sem sermos realmente convidados, que sabemos que não conseguiremos estar ali nem um segundo mais, pois a casa apenas nos lembra a morte de algo dentro de nós, e que com todos os pecados que carregamos aos ombros, a viagem parece continuar, ainda que seja de encontro a um sinal de estrada sem saída? E aí, o que é que realmente se pode fazer?

... Infelizmente a vida não é um road movie...


sexta-feira, junho 18, 2010

Sem intermitência

"Hoje estás aqui, amanhã já não estarás."

José Saramago



(Nem sempre era fácil ler as tuas palavras que se estendiam por quilómetros e quilómetros. Na verdade, cheguei mesmo a ler livros teus que me cansavam, me deixavam de rastos e chegava a jurar que nunca mais lia nada teu. Mas depois havia todos os outros livros, os que li e me deixaram maravilhado com a tua imaginação, com os teus sonhos derramados em páginas sobre a forma de palavras salpicadas de emoções tantas. Agora que recebeste também a tua carta de cor violeta, sinto que aldrabaste a morte e o seu abraço, pois teremos sempre os teus livros para nos lembrarmos de quem foste, tu e os teus defeitos e as tuas qualidades, tu e o ser que foste.)

segunda-feira, junho 14, 2010

Is your soul weighing you down?







Ela escapou-me. Bastou virar-lhe as costas por alguns segundos e ela já não estava ali. Corri atrás dela, desenfreado, fora de mim. Como é que ela se atrevia a deixar-me? Ali, sozinho e indefeso, incapaz de me proteger contra as amarguras que me esperavam ao virar da esquina. Seria quase uma cuspidela na minha cara, querendo castigar-me por tudo aquilo que ao longo do tempo lhe tinha dado. Tudo aquilo que fazia de nós a nossa essência. E que agora ela parecia disposta a renegar, procurando fugir para onde nada daquilo fosse realidade. Porque me tratava ela assim? Quase não sentia forças nas pernas e quase já não a via no labirinto das ruas da cidade. Porque me tratava ela assim? Tinha-lhe prometido que nunca seria capaz de me separar dela, mesmo naquelas alturas em ela me sufocava, quando eu já não conseguia respirar de tanta aflição, quando o nó do estômago me apertava com tal força que não sentia nada no meu corpo. E mesmo assim... Nem sequer se despediu. Nem sequer um até sempre. Nada. Rigorosamente nada. Espezinhava sem misericórdia toda a nossa vida em conjunto. Ela parecia voar para longe, afastando-se mais e mais, enquanto eu apenas tentava manter-me minimamente equilibrado à medida que sentia todos os meus músculos implodirem numa manobra conjunta para me fazer parar sem a alcançar. E depois deixei de a ver. E deixei-me encostar a uma parede e escorreguei até o meu corpo atingir o chão. E tão depressa como ela se tinha apercebido da sua condição de estar acorrentada a mim até ao fim dos nossos dias, assim tinha desaparecido para sempre da minha vida. Pensei que iria chorar convulsivamente. Pensei que não iria conseguir mais viver. Pensei que em breve todo o mundo poderia ler o meu nome numa qualquer lápide. Pensei em tudo e em nada. E quando me dei por mim, senti que nada disto se estava a passar. Que por mais que pensasse que a vida tinha terminado, o que realmente estava a sentir é que a vida estava apenas a começar. E que agora que ela já não estava ali, sempre comigo, sentia uma vontade de viver como nunca tinha sentido. Mesmo que estivesse incompleto, como estava. E no meu íntimo algo me dizia que ainda não tinha sido a última vez que a tinha visto. Não conseguia perceber isto, mas a verdade é que enquanto também eu me afastava dela, apenas me conseguia lembrar de algo que tinha lido uma vez,

"O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende."



(Um filme bonito. Acho que é só isso que posso dizer. Ou então dizer que um dia gostava de escrever uma história assim. De um humor agreste, de uma humanidade desconcertante, de um mundo que quase não nos deixa espaço para descobrirmos quem realmente somos. Gostava mesmo de escrever coisas como esta bonita história. Vou vê-lo outra vez, para ver se aprendo alguma coisa...)




segunda-feira, junho 07, 2010

Um buraco no coração





(ou como por vezes apenas apetece desviar o olhar e não pensar em mais nada...)


domingo, junho 06, 2010

segunda-feira, maio 31, 2010

Sinal horário

Hoje ouvi a tua voz outra vez. É estranho, é sempre estranho ouvir a tua voz quando já não estás cá. Fico quase com a sensação que tudo não passou de um sonho mau e que afinal ainda estás aqui, ao meu lado, nunca me deixaste, foi tudo apenas um sonho mau. Tento mesmo convencer-me disso, fecho os olhos e imagino que não é só a tua voz, és tu como um todo que voltou para o meu lado. Mas isto dura apenas uns instantes, cedo me apercebo que é apenas uma gravação da tua voz, um eco de ti, nada mais. E depois choro. E continuo a chorar. A tua ausência torna-se mais real de cada vez que ouço a tua voz. E ela continua a ouvir-se, todos os dias, todas as horas, muito tempo depois de nos teres deixado. Mas será que nos deixaste, realmente? E depois páro de chorar. E recordo todos os momentos que tivémos juntos. Todos os anos, meses, dias, horas, segundos que vivemos lado a lado. Todos os pequenos pormenores que tenho agora, aqui, neste momento, a toda à minha volta, pequenas coisas onde está o teu olhar, o teu sorriso, o teu ser. E no ar ouço mais uma vez a tua inconfundível voz. E sorrio. E enxugo as lágrimas. Pois sei que ainda aqui estás, ainda me rodeias com tudo aquilo que foste e sempre serás no meu coração. E volto a sorrir e volto a sair para a rua. Para o sol. Lá fora.

(esta não é a minha voz. é uma voz ficcionada para outrém. outrém que admiro.)

quinta-feira, maio 20, 2010

"Mas ando pela vida feito placa de auto-estrada, que ensina o caminho aos outros mas pouco sabe de si
Mas ando pela vida por ver andar meus amigos, e confesso que por vê-los nem me custa andar aí"




segunda-feira, maio 17, 2010

As intermitências da morte

"Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu."

José Saramago


quinta-feira, maio 06, 2010

Ser benfiquista

"Uma derrota do meu Benfica perfura-me o ânimo, sem cuidar da anestesia. Uma vitória do meu Benfica alimenta-me mais do que o mais calórico dos alimentos, e anima-me mais do que uma mão-cheia de antidepressivos. Na vitória, o amor ao clube é partilhado, mas no desaire a solidão dá-lhe uma expressão infinita e incondicional. Como acontece com a pessoa amada, o verdadeiro teste do afecto concretiza-se nos momentos difíceis. O Benfica é ao mesmo tempo afecto e privilégio, coração e razão, vitamina e analgésico, fermento e adocicante, saudade e desafio, cumplicidade e aconchego."


Utilizo as palavras de outrém pois acho que são a explicação possível para o que significa ser adepto de algo. Quando as emoções se misturam cá dentro a um ritmo avassalador, quando passamos no espaço de um minuto da maior das euforias ao mais profundo dos desesperos. E acho que isto é algo com que qualquer adepto se pode relacionar, independentemente da sua cor clubística. Todos somos treinadores de bancada, todos achamos que sabemos a táctica perfeita, todos pensamos que sabemos o segredo por trás da vitória, dos golos, das bandeiras e dos cachecóis a rodopiarem no ar. No fundo, não passa de um jogo, algo que também atravessa a nossa vida, mas que não passa disso mesmo, de um jogo. Que por vezes se leva a si próprio demasiado a sério, mas enfim, se fosse a feijões a paixão não existiria. Assim, e independentemente do que aconteça este próximo fim-de-semana, neste campeonato o meu clube já me deu enormes alegrias. Desde a avalanche de golos, aos passes de letra do Di Maria, dos pontapés bombásticos do Carlos Martins, às fintas do Saviola, dos pulmões enormes do Ramires, ao nervoso miudinho de cada vez que o Cardozo ia marcar uma penalidade, da força de vontade do Jorge Jesus, às vezes em que preferia que o mesmo Jesus ficasse mudo e calado. Houve de tudo este ano e agora que, sem cinismos, espero que o campeonato fique ganho, mesmo que isso não aconteça, o meu Benfica já cumpriu uma coisa em relação a mim. Devolveu-me, nem que seja só este ano, o gosto de ver futebol bem jogado. E isso, é bem melhor que um Picasso de 81,3 milhões de euros (ou não...).

sábado, maio 01, 2010

Um buraco no coração





(ou como o tempo se deixa arrastar interminavelmente...)


sexta-feira, abril 30, 2010

Gula

Alenquer Bemhaja nem queria acreditar. Na sua longa carreira de três semanas e meia como inspector da Judiciária já tinha assistido a muita coisa. Três zaragatas conjugais, cinco furtos de pipocas no Alvaláxia, duas manifestações de naturistas em Rio de Mouro e uma tentativa de assassinato à estátua do Marquês. Mas nada se comparava à horrenda cena que se lhe apresentava naquela noite. Não fossem os vizinhos a notarem o desagradável cheiro a tomate que ainda persistia e nunca teriam encontrado o corpo a tempo de evitar o bolor que certamente se iria instalar. Ninguém merecia uma morte como aquela, nem mesmo o mais horripilante ser da terra. Nem mesmo os constantes protagonistas da ARtv mereciam um fim daqueles. Dois fins como aquele sim, apenas um não. De acordo com o médico legista, a mulher deveria ter 25 anos, um metro e setenta, sessenta e três quilos, destra, nascida no Alentejo, adepta do Desportivo de Chaves, sócia do viva-fit há dois meses, com especial apetência por fetiches relacionados com cintas anatómicas e capaz de comer três mcbacons seguidos. Alenquer Bemhaja ficava fascinado com os avanços da medicina forense e pensava que ainda a semana passada teria que ter aberto a carteira da vítima para saber tudo isto. Afinal, havia efeitos secundários positivos de tantas séries policiais televisivas, isto se excluirmos as vendas galopantes de luvas de látex. Aproximando-se do corpo, o inspector Bemhaja procurava não tropeçar nas muitas garrafas de quetchupe vazias que rodeavam o corpo da vítima. Parecia demasiado macabro alguém falecer de sobre-ingestão de molho de tomate, mas era exactamente isso que tinha sucedido. Um monstro tinha obrigado aquela pobre rapariga a ingerir quetchupe e mais quetchupe, uma garrafa após outra, sem parar. E nem ao menos tinha tido a decedência de colocar a garrafas vazias no contentor verde da reciclagem, apenas as deixou ali, todas espalhadas e, pior que tudo, sem qualquer vestígio de impressões digitais. Apenas uma coisa era certa, isto era um crime passional. E não era só a mensagem escrita a quetchupe que o assassino tinha deixado na parede, "isto foi um crime passional!!!". Não, havia algo mais no instinto de Bemhaja que lhe dizia isto. Talvez fossem as alcaparras que alguém tinha esquecido em cima da mesa. Ou talvez fosse mesmo o rasto de almôndegas que havia na escada de serviço do prédio. Fosse como fosse, o inspector não iria descansar enquanto não visse o criminoso atrás das grades. Ou, pelo menos, enfiado numa cataplana, numa cama de vegetais salteados, pronto a ser deglutido na cantina da esquadra de polícia, de preferência numa sexta-feira como alternativa às horrendas caras de bacalhau que o Sá Pessoa insistia em preparar como forma de protesto associativo. E enquanto cogitava sobre o crime, Alenquer Bemhaja tirou uma embalagem de nuggets do bolso e aproveitou um pouco do quetchupe na parede, deixando uma críptica mensagem a pairar sobre a investigação, "i to fo u rime onal!!!"...

quinta-feira, abril 22, 2010

quinta-feira, abril 08, 2010

Um buraco no coração



(ou como por vezes não adianta mesmo nada derramar lágrimas...)

quinta-feira, abril 01, 2010

Haja luz...


... e ideias iluminadas, se não for pedir muito.

Saudades de Nova Iorque

"Sinto-me invulgarmente despreocupado, liberto, em casa. A subtil tristeza que sempre me faz companhia não me pesa aqui. Por momentos consigo pensar no que antes me atormentava e depois tudo isso se evapora com um sopro. Viajar serve para despistar os demónios com uma finta."

Pedro Paixão


segunda-feira, março 29, 2010

Os Meus Problemas

"As pessoas felizes são aquelas que têm vergonha de falar nisso. Em Portugal, dizer «Eu sou feliz» é como dizer «Eu sou rico» ou «Eu sou de boas famílias». É escandaloso. Pode dizer-se «Hoje estou bem disposto!», porque é como confessar uma anormalidade. É notícia. Dizer «Hoje estou mal disposto» é muito menos assunto de primeira página - é como a notícia «Homem mordido por cão no Rossio». Em contrapartida, a notícia «Hoje acordei bem disposto» é mais aliciante; como «Cão mordido por homem no Terreiro do Paço».

Ninguém tem pachorra para aquelas bestas sadias que estão sempre alegres e bem dispostas - é uma atitude de desrespeito perante a vida e a desgraça dos outros. Em Portugal, o que convém é andar mais ou menos. À pergunta altamente irritante «Então? Bem disposto?», não é lícito nem responder que não («Deixe-me soterrá-lo nalgumas misérias minhas»), nem responder que sim («Deixe-me enaltecer junto de si alguns dos meus triunfos pessoais mais recentes»). A resposta de protocolo é «Oh...», encolher os ombros, sorrir como quem diz «O que é que se há-de fazer?» e perguntar «Então e tu?», com ar de quem já sabe a resposta.

(...)

A felicidade, em Portugal, é considerada uma espécie de loucura. Porquê? Porque os Portugueses, quando vêem uma pessoa feliz, julgam que ela está a gozar com eles. Mais precisamente: com a miséria deles. Não lhes passa pela cabeça que se possa ser feliz sem ser à custa de alguém. Acham que as pessoas felizes são esponjas-com-pernas, daquelas de banho, cor-de-laranja, muito alegres, que andam pelas ruas a chupar a felicidade toda às outras pessoas."

Miguel Esteves Cardoso