domingo, junho 01, 2014

Cotão


nome masculino

1.
lanugem de alguns frutos

2.
pelo que se desprende do pano pelo uso

3.
desperdício da lã

4.
partículas que se juntam às paredes e debaixo dos móveis, quando não há limpeza

(Do árabe qu Tun, «algodão», pelo francês coton, «idem»)

(in Infopédia)

(realmente, não podia haver melhor simetria entre a casa real e esta casa virtual.) 


quarta-feira, maio 21, 2014

Vida e obra de um poeta

   "Hoje, nada sei de quem me amou ou ama. Nada me
reparte no tempo. Abro-me à unidade da vida - e amo o
passado e o futuro com um só fervor: completo. A geografia
não existe. Quem está em Joanesburgo e me ama ou possui
um breve poema rabiscado nas costas de um envelope, ou
quem me odeia em Roterdão e apenas tem algumas palavras
sem destinatário, nada poderá supor da minha lenta maturi-
dade. Esses papéis pouco valem, e esses sentimentos (de amor
e ódio). Vale quem sou. Ultrapasso as palavras escritas aos
trinta anos. O poema que agora escrevesse diria como estou
pronto para morrer, referiria enfim a excelência do meu corpo
urdido nas aventuras da solidão e da comunhão, e falaria de
tudo quanto auxilia um homem no seu ofício - a ferocidade
dos outros, o apartamento, ou o seu amor que, ferido pela
ignorância, se inclina para ele, para o seu trabalho, o desejo, a
expectativa. Morrerei como se fosse numa retrete de Paris -
só, com a minha visão, o pressentido segredo das coisas.
   E é na morte de um poeta que se principia a ver que o
mundo é eterno."

Herberto Helder

sábado, maio 10, 2014

Fome

"I have my belief, and in all its simplicity that is the most powerful thing."



 


quinta-feira, maio 08, 2014

Cinzento

"Poeiras de crepúsculos cinzentos.
Lindas rendas velhinhas, em pedaços,
Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços,
Como brancos fantasmas, sonolentos...

Monges soturnos deslizando lentos,
Devagarinho, em misteriosos passos...
Perde-se a luz em lânguidos cansaços...
Ergue-se a minha cruz dos desalentos!

Poeiras de crepúsculos tristonhos,
Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos,
A névoa das saudades que deixaste!

Hora em que o teu olhar me deslumbrou...
Hora em que a tua boca me beijou...
Hora em que fumo e névoa te tornaste..."

Florbela Espanca

 

quarta-feira, maio 07, 2014

Humanidade desconstruída

"As lágrimas saltaram-lhe, os soluços fizeram-no estremecer.
Entregava-se agora a eles pela primeira vez na ilha; espas-
mos intensos e frementes de sofrimento pareciam puxar-lhe
violentamente todo o corpo. A voz dele elevou-se acima do
fumo negro perante os destroços inflamados da ilha; conta-
giados por aquela emoção, os outros garotos começaram tam-
bém a tremer e a soluçar. No meio deles, com o corpo imundo,
o cabelo emaranhado e um nariz gotejante, Ralph chorou
pelo fim da inocência, pelas trevas no coração do homem e
pela queda no vazio do verdadeiro e sensato amigo a que cha-
mavam Piggy."

William Golding

 

terça-feira, maio 06, 2014

A humanidade é algo de absurdamente desconcertante...



"How could I write a letter without ink or paper? There is nobody I want to write to 'cause I hain't got no friends living as I know of. That Armsby is a lying drunken fellow. You know this, just as you know that I am constant in truth. Now, master, I can see what that Armsby is after, plain enough. Didn't he want you to hire him for an overseer? That's it. He wants to make you believe we're all going to run away and then he thinks you'll hire an overseer to watch us. He believes you are soft soap. He's given to such talk. I believe he's just made this story out of whole cloth, 'cause he wants to get a situation. It's all a lie, master, you may depend on't. It's all a lie."


quarta-feira, abril 23, 2014

Nada a declarar.

Não escrevo.
Coloco apenas as palavras de outros, outros melhores que eu.
Isso basta-me, apenas isso e mais nada me basta.
Como alguém dizia, tenho a cabeça limpa.
E isso não é nada de mau, pelo contrário.
Há-de haver outros dias, outras alturas, outras épocas.
Em que as minhas palavras voltarão a aparecer.
Por agora, nada.
Nada a declarar.



Debaixo de algum céu

     "Talvez amemos só pelo que o amor nos traz, ou pelo que
podemos ser quando alguém nos ama. Seremos assim tão tortos?
É possível que só saibamos dar a nós mesmos? Orgulho, respeito,
altruísmo, abnegação. São coisas que atiramos porque sabemos
que hão-de voltar, como um pau que um cão nos há-de devolver.
     Já não sei nada, que se foda o amor, andamos todos para aqui
a estragar as vidas uns aos outros com os melhores propósitos.
«Eu sempre te amei», «És a mulher da minha vida». O caralho
é que és, o caralho é que amei. Quis prazer, como tu quiseste,
serenidade, certeza, posse. Sim, quisemos isso tudo e pensá-
mos que nos ficava de graça, uns beijos e algumas palavras, tudo
por amor, mas não se trata de amor. Trata-se de outra merda
qualquer que nos faz falta e não tem nome, é simplesmente
outra merda qualquer."

Nuno Camarneiro

 

segunda-feira, abril 21, 2014

e a noite roda

"Tu dizes que tens uma vida e eu apareci. Tu dizes que
julgavas ter uma vida e eu apareci. Tu dizes que julgavas
ter uma vida e eu apareci mas que fazer? Eu digo que
se não sabes terminemos, antes que tudo se torne pior."

Alexandra Lucas Coelho

 

domingo, abril 20, 2014

Maravilhosa e delirantemente WesAndersoniano...


"You see, there are still faint glimmers of civilization left in this barbaric slaughterhouse that was once known as humanity. Indeed that's what we provide in our own modest, humble, insignificant... oh, fuck it."


sexta-feira, abril 18, 2014

Aquele que dá a vida

"Um touro preto é uma espécie de massa rebarbativa, com
uma obscura vida interna onde se imagina que circulam ima-
gens fundas e carregadas. É difícil discernir os teoremas que,
pela acção, vai demonstrar. E a maneira como o fará, com
suas improvisações e inspirações repentinas. Mas existe uma
fenda nesse sistema de energias, a ponta de um ferro, a imper-
ceptível abertura oferecida pelo destino à derrota e à morte.
Pois cada criatura subtilmente se conjuga com os impulsos da
destruição. Tecido de imperscrutáveis forças que de súbito se
animam. É um jogo cerrado, difícil."

Herberto Helder


quinta-feira, abril 17, 2014

O fado, à distância de um piano

Ontem tive o prazer de ouvir o piano do Júlio Resende. E prazer é uma palavra demasiado tímida para descrever a música que me foi dada a ouvir. Apenas sei que o fado também passa por ali, por um piano que parece possuído, choroso, alegre, revoltado, saudoso nas mãos do Júlio. E por tudo aquilo, acabei por me lembrar de palavas que já escrevi há uns anos, mas que fazem todo o sentido no meu coração, na minha alma. Não resisto a voltar a elas.



Começou a ouvir as primeiras notas a ecoarem no silêncio do prédio. A vizinha de cima acabava de começar o seu "concerto" de final de tarde. Encostado no sofá, depois de mais um dia de trabalho, com a janela meio aberta, a deixar entrar alguma corrente de ar e aquela luz magnífica que só os fins de tarde de verão podem ter, no silêncio do seu apartamento, vai ouvindo as bonitas notas de um jazz de uma beleza em câmara lenta que a sua vizinha de cima toca de cada vez que os seus dedos encontram as teclas brancas e negras do seu piano. Naqueles dias quentes, acaba por ser a única coisa que o faz descontrair e arrefecer o espiríto. Imagina que ela toca apenas para ele, que as notas atravessam as paredes da casa com o único intuito de chegar aos seus ouvidos, a todos os recantos da sua mente, dando-lhe paz e sossego. Gosta mais das suas notas de verão. Mas também sente o coração reconfortado nas tardes chuvosas de inverno, quando a vizinha de cima toca peças clássicas, frias e minimais, das quais ele desconhece o nome do compositor. Nunca foi um conhecedor de música erudita e até quase que podia dizer que a mesma não o entusiasmava por aí além. Mas a combinação da contenção daquele piano, com as gotas de chuva a acariciarem o vidro da janela, e com o crepitar das pequenas labarelas na sua lareira, proporcionavam-lhe algo que não conseguia explicar. Talvez já morasse sozinho há demasiado tempo. Talvez os antigos pequenos momentos de solidão que apreciava se estivessem a tornar num vazio cada vez menos suportável. Talvez fosse apenas a sua cabeça a pregar-lhe partidas. Ou, naquele preciso momento, talvez o calor que vinha lá de fora fosse de tal forma abafado que a sua mente tivesse fugido para aquele antro de pensamentos esvoaçantes, ao som de um piano que não pedia permissão para se insinuar por toda a casa. Era engraçado que, de cada vez que tentava imaginar a vizinha de cima a tocar, apenas conseguia formar uma imagem mental das suas mãos a percorrerem o teclado, como se de uma peça de porcelana se tratasse. Não era porque não a conhecesse. Tinham-se cruzado umas quantas vezes, nas escadas, à entrada do prédio, em frente às caixas do correio. Algumas palavras de circunstância, bom dia, boa tarde, o tempo, as plantas da entrada, o carteiro que se enganava na correspondência, pouco mais. Nada sobre os concertos de piano. Tinha receio que ao mencionar algo sobre isso a deixasse desconfortável e o piano ficasse quedo e silencioso. Por isso, ele conhecia a sua vizinha de cima, sabia como eram as linhas e curvas do seu rosto, as formas do seu corpo, até o som da voz dela. Mas, naquele momento, sentado, no silêncio entrecortado pelo fluir das cordas do piano, a única imagem dela que lhe surgia era a dos seus dedos, movendo-se sem esforço, sentindo as teclas como se fossem extensões das falanges, as notas a sua voz. E se para apreciar a beleza sublime daquelas horas, daqueles verões, daqueles fins de tarde, se o preço a pagar fosse a solidão daquele apartamento que lhe servia de casa, pois então que fosse. Não se importava. Ouvir a sua vizinha de cima a tocar o piano era o amor que lhe chegava para incendiar o seu coração.


Piano negro, música iluminada

"Não há barco que de noite não seja negro. E não há dia que em certo momento não se confunda com a noite. E mesmo com os pés em cima de chão que não balance corres sempre o risco de naufrágio. Estar vivo é estar num barco, sim, e a cor dele, a tinta, se raspares bem, debaixo de mil outras, é sempre a mesma: o barco é negro, meu caro, não te iludas, sempre negro, sempre negro.

(Mas enquanto os elementos naturais e os elementos malvados não rasparem as tintas alegres, aproveita, meu caro. Por exemplo, hoje, ali, do outro lado da rua, parece que querem começar um baile. E já te enviaram o convite.)"

Gonçalo M.Tavares in "Amália por Júlio Resende"






domingo, abril 06, 2014

O gangster, o cangalheiro e o falso alentejano



Uns senhores. É isto apenas que tenho para dizer. Tenho de os voltar a ver em concerto, urgentemente. Um concerto do caralho, perdoem-me a expressão.


quarta-feira, março 12, 2014

É possível descrever a amizade

Sobre uma das minhas palavras predilectas.

"Mas é possível descrever a amizade? Quando nos con-
frontamos com a pergunta, sentimos que as dificuldades se
ampliam. Entramos num campo onde não há muitas decla-
rações exatas, até porque de sua natureza a amizade é implí-
cita, mesmo se contribui tão decisivamente para tornar a
vida explícita e vasta. Há uma ética da amizade, mas essa
não vem escrita, não é tutelada legalmente, e escapa ao ar-
bítrio dos pactos sociais. A amizade é singularíssima e
mune-se de uma desconcertante simplicidade de meios. O
traço mais universal da sua gramática é, talvez, o da pre-
sença: mas esta tanto se faz de muitos encontros, como de
poucos; de muitas palavras ou de um silêncio espaçado e
confidente; de um telefonema por dia ou por ano; de uma
ou de incontáveis atenções... O importante é que tudo isso
se torne, a dada altura, uma história que nos acompanha e
por onde o essencial da vida passa."

José Tolentino Mendonça

 

segunda-feira, março 10, 2014

Um buraco no coração



(..."this whole world's wild at heart and weird on top.")



quarta-feira, fevereiro 26, 2014

O profundo silêncio das manhãs de domingo

"O ideal, já se sabe, é que pudéssemos todos che-
gar a ser felizes. A maior parte dos vivos tem, porém,
de se contentar com a infelicidade de não chegar a
ser feliz. Sendo assim, talvez haja na ideia de uma
bela infelicidade algo de redentor, como uma espécie
de meta de consolação. Não sendo possível atingir a
felicidade, é ainda assim aceitável viver infelizmente
- se formos capazes de plantar na nossa infelicidade
um instante de doce melancolia, algo como o raio de
sol que vem tornar suportáveis as manhãs de chuva."

Manuel Jorge Marmelo

 

sábado, fevereiro 15, 2014

Pré-aviso

Hoje há mais uma sessão de vai e vem. Tornaram-se também parte da rotina dos últimos quase quatro anos de interior continental. É um par de horas que normalmente passa num instante, a mais das vezes ao som de memórias musicais de outros tempos. Talvez que a lembrar que a vida por aqui deixou, há muito, de ser uma simples linha recta, com mais curvas e contracurvas que a antiga estrada de Lamego. Vou provavelmente ter a companhia da chuva e das nuvens cinzentas que ultimamente cavalgam os nossos céus. Seja. Não é a primeira vez e não será certamente a última. As chegadas a "casa" compensam sempre os rigores das viagens, o calor dos corações que nos amam é o melhor bálsamo para melancolias e demais devaneios mentais. Vou, como também já começa a ser tradição, com a esperança de encontrar amizades várias. Dos mais diferentes recantos da minha vida, mas com a base comum de fazerem parte do meu ser. Já sei que não vou conseguir estar com todos e alguns não vão conseguir estar comigo. Faz parte. Não há problemas nem chatices, haverá mais oportunidades e não será pela falta de vaivéns. Por enquanto tem e será assim. No futuro logo se vê. É andar por aqui e assitir aos próximos capítulos. E ir gravando uns instantâneos e andar sempre com a caneta e o caderno atrás, nunca se sabe quando é que as palavras certas se poderão atravessar no nosso caminho. E é isto. Bater a porta, rodar a chave, destravar e carregar no acelerador. Vêmo-nos desse lado.