domingo, fevereiro 09, 2014

Da alma.

Houve um momento no concerto de ontem à noite onde tudo ficou claro como a água. Onde as palavras, a voz, a guitarra portuguesa, o foco de luz que atravessava a escuridão, se juntaram à enorme alma que Camané coloca nas suas canções e encheram aquele palco de uma luminosidade como poucos conseguem trazer para a música. Foi gratificante ver a sala completamente cheia a aplaudir. Mais um bonito concerto que vou guardar no meu baú de memórias portalegrenses.

"Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou."


quinta-feira, fevereiro 06, 2014

O pintor debaixo do lava-loiças

"Todos os jardins da nossa infância são o jardim
do paraíso. A pele suave desses tempos em que se
corria com as pernas arqueadas soltando uma espé-
cie de luz pela respiração. Ríamos a correr para os
braços dos adultos numa entrega absoluta. Eles, os
adultos, atiravam-nos ao ar e apanhavam-nos com
mãos ásperas, e, talvez por isso, quando crescemos
nunca mais deixamos de, esporadicamente, sonhar
que voamos. E de sonhar com gigantes e anões, pois
eram essas as nossas proporções".

Afonso Cruz

 

segunda-feira, janeiro 27, 2014

Claustrofobicamente fenomenal



"I get it, it's nice up here. You could just shut down all the systems, turn down all the lights, just close your eyes and tune out everyone. There's nobody up here that can hurt you. It's safe. What's the point of going on? What's the point of living? Your kid died, it doesn't get any rougher than that. It's still a matter of what you do now. If you decide to go then you just gotta get on with it. Sit back, enjoy the ride, you gotta plant both your feet on the ground and start living life. Hey, Ryan, it's time to go home."


sexta-feira, janeiro 24, 2014

"I am fire... I am death!"


(Só por isto já valia a pena. Isto e uma série de orcs a serem chacinados, claro :)))


Normas e regulamentos

Quando cheguei à última página, lembrei-me de outros tempos, outros locais, outras hierarquias, resumindo outras "espécies" de pessoas. De como há tantas diferenças entre os cenários que quase dava para escrever um livro inteiro de como não fazer as coisas de forma correcta. Aliás, a única coisa que me passava pela cabeça enquanto lia parágrafo após parágrafo era que a minha vida anterior estava lentamente a tentar arrombar a porta da minha actual vida. Mas agora tudo à minha volta está muito diferente, e para bem melhor. Mesmo com algumas preocupações e ansiedades pontuais, muito melhor. E assim a única coisa que realmente podia fazer foi exactamente o que fiz, sorrir. Sorrir e pensar que fiz coisas que, à distância de uma fronteira, me parecem irreais e que, aqui, seriam ainda mais estranhas e inconvenientes. E voltei a sorrir e lembrei-me dos amigos e amigas do quotidiano que agora ficou lá atrás e que apenas os vejo de vez em quando no presente. E que eles e elas foram as melhores lembranças desse tempo de antigamente. E serão sempre. Era o que deveria dizer a trigésima norma, se ela existisse.


domingo, janeiro 05, 2014


Nunca, repito nunca haverá outro como tu. Dez anos antes de eu nascer fizeste magia futebolítica nos relvados da pátria mãe do futebol. Nunca haverá outro como tu. Descansa em paz.


quinta-feira, janeiro 02, 2014

Um buraco no coração


(ou como o meu coração ainda acredita em história de amor eternas...

"Legendary hearts
tear us all apart
make our emotions bleed
crying out in need")

Último capítulo.

Comecei o ano a acabar de ler um livro. E ao ler as últimas palavras trocadas entre Abel e Silvestre, apercebo-me lentamente que tenho uma parcela de cada um deles dentro de mim, na minha consciência. Dou por mim a torcer pelas intenções de Silvestre enquanto sei também que as coisas acabam por ser mais reais pelos olhos de Abel. No fundo, são os dois uma e única pessoa, não há muita volta a dar isto, o coração não é fácil de enganar, sei-o bem enquanto leio a última frase, que ficará a ecoar dentro de mim nos próximos dias deste novo calendário que agora começa...

"O dia em que será possível construir sobre o amor não chegou ainda..."

"you turn me good and god-fearing
well, tell me what am i supposed to do with that"


 

terça-feira, dezembro 31, 2013

vi, ouvi e li

north by northwest, alfred hitchcock
killing them softly, andrew dominik
drive, nicolas winding refn
a turma, laurent cantet
alien, ridley scott
frankenweenie, tim burton
django unchained, quentin tarantino
the deer hunter, michael cimino
the great gatsby, baz luhrmann
the searchers, john ford
life of brian, terry jones
rush, ron howard

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fade, yo la tengo
push the sky away, nick cave & the bad seeds
drive original soundtrack
regions of light and sound of god, jim james
trouble will find you, the national
pale green ghosts, john grant
standards, lloyd cole
casulo, márcia
dream river, bill callahan
almost visible orchestra, noiserv
amália por júlio resende, júlio resende
as canções d'a naifa, a naifa

.......................................................................

a queda de um anjo, camilo castelo branco
fúria, salman rushdie
o caminho mais longo, ewan mcgregor e charley boorman
i'm your man - the life of leonard cohen, sylvie simmons
the art of travel, alain de botton
yoga for people who can't be bothered to do it, geoff dyer
granta portugal I - eu
1q84 - the complete trilogy, haruki murakami
caderno afegão, alexandra lucas coelho
onde os rios se separam, mark spragg
granta portugal II - poder
no meu peito não cabem pássaros, nuno camarneiro

 

quarta-feira, dezembro 25, 2013

Do Mal o Menos

"Se por algum desígnio voltar a esta terra amada gostava de ser uma árvore visitada por aves no verão, por onde se passeassem os esquilos, onde se escrevessem no tronco pequenos nomes humanos apaixonados. Uma árvore de uma floresta do norte onde no inverno cai a neve e há aquele silêncio que tudo guarda. E que depois fosse cortada por um lenhador, pai de uma família grande e saudável, e que parte de mim fosse logo queimada, o seu calor cozendo a comida de todos e que com a melhor madeira se fizesse uma mesa onde alguém um dia escrevesse uma carta a alguém que estivesse longe para lhe dizer que a amava."

Pedro Paixão


sábado, dezembro 14, 2013

Saudades da "minha" cidade

"Trezentas mil pessoas habitam Lisboa enquanto Fernando
dorme. Entre as oito da manhã e as oito da noite há três mil
cantos contemporâneos dentro das fronteiras da cidade. Um
canto por cada cem habitantes. A densidade melódica de Lis-
boa, uma das mais elevadas do hemisfério norte, é responsá-
vel por algumas das particularidades dos seus habitantes. Há
muita gente impreparada para tanta melodia, gente vulnerável
às emoções com que esbarra a cada instante. Não há protec-
ções eficazes contra emoções cantadas e há quem fuja, quem
enlouqueça e quem escreva poemas. Em Lisboa, entre as oito
da manhã e as oito da noite, as cabeças enchem-se de eco e cada
um faz o que sabe fazer."

Nuno Camarneiro

 

segunda-feira, dezembro 02, 2013

Mantra

"Life's a piece of shit
When you look at it
Life's a laugh and death's a joke, it's true.
You'll see it's all a show
Keep 'em laughing as you go
Just remember that the last laugh is on you."



 


No meu peito não cabem pássaros

"Viver num sítio é ser esse sítio, emprestar-lhe uma alma e receber outra em troca. As biografias deviam ordenar-se por lugares, e não por datas. Nesta rua fui assim, numa outra fui diverso. Ninguém sabe descrever uma cidade, são as cidades que nos escrevem a nós."

Nuno Camarneiro

 

domingo, dezembro 01, 2013

Ode

Sexta-feira a meio da tarde. Café Alentejano. Um café onde não há televisão. Não há noticiários deprimentes nem reality shows boçais e desinteressantes. Um café onde também não há rádio. Não há blocos de publicidade intermináveis nem músicas irritantes repetidas ad nauseam. Não, neste café apenas se ouvem as vozes e palavras das pessoas sentadas nas mesas e das pessoas atrás do balcão. Pessoas que se cumprimentam e sorriem. Vozes que comentam as últimas novidades de uma cidade do tamanho de uma noz. Conversas em voz alta que trazem um sorriso mesmo ao mais empedernido daqueles que se escondem atrás de um jornal ou de um livro. Murmúrios inaudíveis quando a conversa é mais séria e apenas interessa às cabeças daqueles que falam. Um após outro cliente que se dirigem ao balcão com a esperança de uma raspadinha premiada ou de um jogo onde a sorte caia para o seu lado. Sempre, em todas as vezes, um desejo de boa fortuna da senhora que recebe o dinheiro de não sei quantas ilusões em forma de gente. Um empregado que nos entretantos também canta um ou outro verso, de canções da sua infância, que canta quando parece que ninguém está a olhar, palavras cantadas são sempre mais bonitas. Tudo isto se ouve no Café Alentejano. Mas também se ouve o silêncio, todos os silêncios que já se tornam raros hoje. O silêncio de quando ninguém entra no café durante largos minutos, o rendimento do dia já ficou feito de manhã, com os pequenos-almoços. O silêncio do empregado que abraça alguém que entra, vindo da igreja onde jaz o corpo de um familiar que não mais entrará no café. O silêncio de alguém que acena do outro lado do vidro enquanto passa apressado. O silêncio de um dia que caminha para o seu fim enquanto os céus ficam tingidos de vermelho. O silêncio de um cliente que se queixa dos seus ossos, velhos e cansados. No Café Alentejano o silêncio não importuna ninguém e ninguém o teme. Sabemos que haverá sempre uma voz que entra por ali adentro e o envia para o canto mais escuro do Café. Haverá sempre um riso pronto a enfrentá-lo e um olhar triste pronto a acolhê-lo. Assim se vive no Café Alentejano. Vidas à solta.


quinta-feira, novembro 21, 2013

Enquanto Longe Divagas

"Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
- Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
- Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombras
- Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
- Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba"

Sophia de Mello Breyner Andresen


(E é isto tudo. Frase após frase. Como o ar que neste momento respiro. Obrigado, Sophia.)

  (a dobrar)

domingo, novembro 10, 2013

Está quase naquela altura do ano...

... em que lanço as minhas próprias gaivotas por aí, com palavras por mim tatuadas e que povoam os meus sonhos despertos sobre os seus destinatários, estejam eles mais perto ou mais longe. São gaivotas que, basicamente, servem de ponte entre o meu coração e os daqueles que por cá moram. Faço-me entender?


(quadro de Narda Alvarado)


domingo, novembro 03, 2013

O bêbado da cidade

Encontrá-lo de pé, a andar e de cara menos inchada, menos fechada, deve ser algo próximo daquilo que normalmente se designa como um milagre. Novembro tem coisas destas.




quinta-feira, outubro 24, 2013

A Desumanização

"Ainda que as palavras sejam débeis. As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. (...) A esperança da humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos. Que acreditem em nós. Dizermos algo que se toma como verdadeiro porque o dizemos simplesmente."

Valter Hugo Mãe