quinta-feira, agosto 01, 2013

Serviços mínimos


... que a vida não está para se viver acima das nossas possibilidades (bocejo).
... ou como já se dava uma volta de 180 graus a este país, cujas pessoas tanto o merecem.


quarta-feira, julho 17, 2013

Das palavras que gostava de ter sido eu a escrever...

"No dia em que se separaram, Erik Gould abriu a porta da rua, lentamente, e saiu para o jardim. Ficou parado em frente aos canteiros de flores. Tirou o cinto, despiu as calças, depois a camisola de lã, depois a camisola interior, depois as meias. Ficou nu no meio das flores. Debruçou-se e rasgou as mãos no canteiro das rosas. Abraçou-as, acariciou-as até sangrar das mãos, dos braços, do peito, dos lábios, do sexo, da cara, até não poder mais com a dor espetada na carne.
Voltou para casa e regou o corpo com álcool enquanto gritava. Deitou-se de seguida e dormiu mais de dezoito horas. Acordou com dores no corpo todo, a espremerem-lhe a carne como se faz sumo. As feridas causadas pelos espinhos das rosas acabaram por cicatrizar passado uma semana e desapareceram. Gould não pensava em outra coisa que não fosse a sua mulher e assim continuou, como se as feridas das rosas afinal nunca mais desaparecessem. As unhas dos pés apodreceram, a sua imaginação caiu como as maçãs demasiado maduras, as notas do piano soavam a mofo. As teclas eram para bater em vez de tocar. Sentava-se ao piano, contudo, e pensava que seria possível tocar como os encantadores de serpentes, fazer com a sua mulher voltasse. Por vezes tocava mais de um dia sem parar. Os sonhos de Gould eram uma forma de Elizaveta se deitar dentro da sua cabeça. Não pensava em mais nada que não fosse Elizaveta.
Os anos sucediam-se, eram cicatrizes de trezentos e sessenta e tal dias, mas a sua esperança não diminuía. Apagava cigarros no braço e sentia que essa dor era uma espécie de alegria. Quando saía, mesmo que a ausência não fosse maio do que alguns minutos, telefonava para casa. Parava em todo o lado onde houvesse um telefone e marcava o número da sua própria casa. Ouvia o sinal e desligava quando ninguém atendia. Acreditava que Elizaveta pudesse voltar quando ele não estivesse em casa para a receber e a beijar dos pés até ao coração."

Afonso Cruz

 

quarta-feira, julho 10, 2013

Em Busca D'Eus Desconhecidos

 "A ficção - certa ficção - talvez seja a forma mais poderosa de exercitar o pensamento, de acelerar a realidade lenta do quotidiano. Escrita ou lida, a ficção escava-nos por dentro, rasga novos canais para o eu. Desacerta-nos com o que éramos. E tanto faz que sejamos nós a escrever ou a ler."

Dulce Maria Cardoso


 

terça-feira, junho 25, 2013

Yoga For People Who Can't Be Bothered To Do It

"There is something about leaving a place on a small boat - something about the movement of the waves, the noise of the engine: it is like you are leaving your life behind and yet, since you are part of the life you have left behind, part of you is still there. Dying, at its best, might be something like this. Everything was a memory, and everything was still happening in some extended present, and everything was still to come."


Geoff Dyer


(isto podia ser eu. no ano 2000. a deixar Mindoro atrás de mim.)


domingo, junho 23, 2013

Prunus Avium

Viver no interior continua a ser uma experiência inesquecível. Tanta coisa para ver, tanta coisa para contar. E no centro de tudo as pessoas. As pessoas que continuam a surpreender-me com os seus olhares, as suas partilhas, a sua forma de estar aqui, na raia. Longe de tudo, hoje, no meio de serras e muito calor, fui mais uma vez presenteado com essa maravilha que é a simplicidade de sermos nós próprios, sem nos armarmos aos cucos, sem tentarmos impressionar quem seja, simplesmente estarmos com quem gostamos e com quem gosta também de nós. Obrigado. Vocês sabem quem são.




segunda-feira, junho 17, 2013

Vistas desafogadas


@Serra de Montejunto



(... enquanto se espera pelo regresso à normalidade e pelo fim das "maratonas"...)


sábado, maio 25, 2013

The Art of Travel

"Among all the places we go to but don't look at properly or which leave us indifferent, a few occasionally stand out with an impact that overwhelms us and forces us to take heed. They possess a quality that might clumsily be called beauty. This may not involve prettiness or any of the obvious features that guidebooks associate with beauty spots. Recourse to the word might just be another way of saying that we like a place."

Alain de Botton


 

quarta-feira, maio 22, 2013

Horizonte

Quando as coisas correm bem, têm tendência para correr muito bem.
Têm sido dias muito bons, com muito trabalho mas sempre compensatórios. Com suor e chatices qb, mas simultaneamente com sorrisos, boa disposição, camaradagem. E nem consigo pôr em palavras o bom que é sair todos os dias de manhã de casa e ir trabalhar com vontade, com a alma limpa e pronta para o que der e vier. E o sol a brilhar por cima da minha cabeça é sempre um extra bem-vindo.
É claro que fazem falta os suspeitos do costume. Mas um telefonema aqui, um sms ali, um skype acolá, e as coisas vão-se mantendo em níveis aceitáveis de eterna saudade. E assim a mudança continua, dois anos e meio depois, a fazer todo o sentido e os astros continuam a alinhar-se de forma quase perfeita, o que quer que essa sandice signifique.
E mesmo quando acabo de ler algumas palavras de um dos meus escritores preferidos, que me fazem regressar atrás no tempo, quase fico incrédulo com algumas coisas e pessoas que suportei, situações que me deixaram à beira de um ataque de nervos e me deixaram de rastos. Repito, quase me parecem cenas de uma vida passada, algo que ficou tão lá atrás que tenho já dificuldade em recordá-las com nitidez. E isso é algo que nada neste mundo conseguiria pagar. Essa satisfação e alegria por deixar coisas tão tristes bem engavetadas no meu passado.
E para todos esses, pardon my french, filhos(as) da puta, estou bem e perto da felicidade. Faltam alguns pormenores, é certo, mas neste momento o meu sorriso é grande e recomenda-se. :)))


terça-feira, maio 21, 2013

The Art Of Travel

"If our lives are dominated by a search for hapiness, then perhaps few activities reveal as much about the dynamics of this quest - in all its ardour and paradoxes - than our travels. They express, however inarticulately, an understanding of what life might be about, outside the constraints of work and the struggle for survival."

Alain de Botton

quinta-feira, maio 02, 2013

Casa(s)

Cacém
Valdigem
Lisboa
Porto
Seul
Sintra
Portalegre


Por ordem cronológica.
Sem qualquer tipo de ordem afectiva, umas mais outras menos, todas com algo para contar sobre mim.


quarta-feira, maio 01, 2013

Desencontros

Esta semana deram-me uma noticia que me deixou muito triste.
Uma noticia que, de uma certa forma, simboliza mais uma acha para a fogueira que hoje, mais uma vez e a muitos quilómetros daqui, deve ter sido novamente avivada.
Mas já estou habituado, a carapaça já aguentou muita coisa.
Mas fiquei triste.
Triste por me aperceber que a história de amor mais bonita que me foi dada a conhecer, para além da dos meus pais, poderá estar a chegar ao fim. Um fim demasiado prematuro e não anunciado. Uma história de amor que merecia não ter fim, ser eterna e dar-nos a todos esperança que o mundo ainda não está completamente virado do avesso. Infelizmente, parece que assim não será.
E por isso aqui me fico, triste e com o coração pesado.

E triste porque um dia escrevi isto:



sexta-feira, abril 26, 2013

Book of Mercy

"In utter defeat I came to you and you received me with a
sweetness I had not dared to remember. Tonight I come to you
again, soiled by strategies and trapped in the loneliness of my
tiny domain. Establish your law in this walled place."

Leonard Cohen

 

domingo, abril 21, 2013

Para memória futura...

"Amarás o teu supositório assim como o do próximo."

"Não cobiçarás o supositório alheio."

"Amarás Pai, Mãe e supositório."

"Unsere Dame von Zapfchen."



Há coisas mesmo parvas. Mas se provocam gargalhadas de ir às lágrimas, é sinal que estamos vivos, bem como as nossas amizades.


terça-feira, abril 16, 2013

Burton Ad Eternum



"Ladies and gentlemen. I think the confusion here is that you are all very ignorant. Is that right word, ignorant? I mean stupid, primitive,unenlightened. You do not understand science, so you are afraid of it. Like a dog is afraid of thunder or balloons. To you, science is magic and witchcraft because you have such small minds. I cannot make your heads bigger, but your children's heads, I can take them and crack them open. This is what I try to do, to get at their brains!"


Vénia a QT


"Django. The D is silent."


quinta-feira, abril 11, 2013

Recta da meta

Pensar onde vou estar daqui a dez anos. O que quero ser, o que quero estar a fazer, onde é que quero estar. Custa e não é uma coisa que me agrade, lembra-me periodos da minha vida que não foram fáceis. E claramente, pelo menos comigo, é um exercício meramente teórico. Mas hoje, curiosamente, colocou-me as roldanas neuronais a funcionar num destino que muito me agradaria mas que sei ser próximo do impossível (ainda que tenha sido felicitado pela minha resolução e igualmente respeitado pela minha eterna timidez). Ainda assim, daqui a um ano tenho que voltar a ler algumas das coisas que escrevi hoje. Talvez nessa altura leve com um merecidamente dado pontapé no rabo para me mexer na direcção certa.


quinta-feira, abril 04, 2013

Ontem

Um dia especial, com as emoções à flor da pele. Um dia bonito e cheio de pequenos instantes para recordar daqui a muitos anos. Certamente que não vamos esquecer, aqueles que lá estivémos, a chuva, a paisagem, a comida, o vinho que alegremente partilhámos, os risos, as lágrimas, as canções, os olhares de ternura, a alegria de vermos a nossa matriarca cumprir mais uma Primavera da sua vida. E, mais que tudo, o seu riso e uma ou outra lágrima que derramou. Risos pelos que estavam com ela, sentados à mesa e à distância de um telefonema. Lágrimas pelos que já não estão aqui, mas que vivem para sempre nas nossas almas e à distância de uma lágrima que corre pela cara inadvertidamente. O tempo que estivémos contigo, querida e amada avó, merecia ter sido muito mais, os beijos e conversas que partilhámos mereciam ficar gravados nos nossos corações, já que a tua consciência começa lentamente a fugir-te quando menos esperas. Mas, ainda assim, foi maravilhoso festejar as tuas noventa e quatro Primaveras e, correndo o risco de estar enganado, acho mesmo que provavelmente não mudarias nada nessa longa, complicada, inesquecível vida que continuas a viver com o sorriso e o olhar de uma rapariga de espírito jovem que, por acaso, já tem três gerações de descendência. Ontem e sempre foste e és a nossa alegria, minha querida e maravilhosa avó.


quinta-feira, março 28, 2013

Páscoa 2

Levantaram-se. Os dois ao mesmo tempo. Tinham trocado um último olhar cúmplice antes de o fazerem e isso tinha sido o suficiente para saberem o que se iria seguir. Levantaram-se, deram as mãos e dirigiram-se para a porta da sala, ignorando os olhares surpresos de todos os que os ficaram a ver. Todos acompanharam a sua saída com ar estupefacto e, ao mesmo tempo, invejando a sua decisão. A reunião pareceu ficar suspensa, todos sem saberem muito bem o que fazerem. Sentados à volta de uma longa disposição de mesas em semi-círculo, todos os formandos desviaram o olhar da apresentação, hipnotizados que estavam pela fuga dos seus dois colegas. Os slides da apresentação continuaram a passar enquanto o formador olhava também as duas pessoas a saírem pela porta da sala de reuniões, incapaz de dizer o que quer que fosse. Todos sem reacção. Apenas eles os dois sabiam o que tinham de fazer. Darem as mãos, saírem daquela sala e irem lá para fora, viverem a vida que sempre desejaram viver. Longe de reuniões, formações, objectivos, pressões, inimizades, tudo aquilo que agora tinham e com o qual já não conseguiam viver. Aliás, e ambos pensavam assim, a única coisa boa que aquela vida lhes tinha trazido era o conhecimento um do outro e o amor que entre eles tinha nascido. Á medida que fechavam a porta atrás de si, ouviam os comentários dos seus colegas, o que estavam eles a fazer, onde é que iam, não sabiam que estavam a um passo do despedimento, tudo falsas preocupações de pessoas que não passavam de completos desconhecidos daquilo que eles os dois realmente eram. Tanto ele como ela, ainda de mãos dadas, não conseguiam evitar um enorme sorriso enquanto ouviam o trinco da porta que se fechava atrás deles. O sorriso de quem ia começar uma nova vida ao lado de alguém que finalmente o(a) compreendia como ninguém...

quarta-feira, março 27, 2013

Páscoa

Será normal ter sonhos românticos entre pessoas que nunca conhecemos na vida, para lá de um filme passado a altas horas da noite num qualquer canal de televisão?

Talvez que seja melhor ter sonhos assim do que não sonhar de todo.

Talvez que assim seja menos solitário ou, melhor dizendo, menos acabrunhado nos meus sonhos mais estranhos, aqueles dos quais desperto de forma inesperada, tanto assim que não sei se realmente acordei, uma vez que passados minutos estou outra vez imerso neles, sem saber o porquê disso acontecer.

Talvez que seja da chuva, das nuvens escuras, ou simplesmente do tempo livre que o meu cérebro também aproveita para descansar e pregar-me estas partidas imaginárias.

Deve ser da quaresma, com toda a certeza.

Venham sonhos mais normais, asap.