segunda-feira, setembro 05, 2011
domingo, setembro 04, 2011
Pequena (grande) nota
Era só mesmo para ficar escrito. Cada vez me apaixono mais pelo Alentejo, pelo nosso país interior, pelas pessoas que aqui vivem, por tudo o que essas pessoas lutam e pela força de vontade com que o fazem. São pessoas admiráveis e que mereciam tudo nas suas vidas. Que eu continue a partilhar os meus dias com elas é tudo o que de momento tenho a pedir. Resumindo, mais um dia daqueles para recordar até à eternidade.
sábado, setembro 03, 2011
da minha Amiga Calamidade, que se lembrou de mim
"A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.
E assim, até à noite final
irás morrendo a cada instante
da vida que ficou fingindo vida.
Redescubro a tua morte como outros
redescobrem o amor,
porque em cada lugar, cada momento,
tu estás vivo.
Viverei até à hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.
o único presente verdadeiro é teres partido."
Adolfo Casais Monteiro
(obrigado. por estares desse lado.)
quinta-feira, setembro 01, 2011
Isso.
Al: Nice-looking woman.
Robert: She isn't my type.
Al: What are you talking about? Look at yourself. You're nothing. You're nobody. You're wanted in connection with a violent crime. You're cleaning the floor of a diner. She is an intelligent, passionate, beautiful, rich woman. The issue of whether or not she's your type is not one that you're likely to have to resolve in this world... or, indeed, the next, since she will be going to some heaven for glamorous pussy, and you will be cleaning the floor of a diner in hell.
Robert: I guess so.
Al: So why are you even thinking about it?
Folga.
Ontem fez oito dias.
Hoje chove lá fora.
Costuma dizer-se que não há coincidências, e eu acredito que não haja mesmo. De qualquer forma, quando as nuvens, o céu, o sol escondido, decidem imitar o nosso estado de espírito, é dificil não ficar tentado a cair num lado mais espiritual, menos racional do nosso cérebro. Mas neste momento, tudo o que sirva para aliviar um pouco a mágoa, nem que seja um placebo do consciente, é bem-vindo e ajuda a lembrar apenas os bons momentos, o carinho e a amizade, os olhos meigos, e a vontade de nunca parar, de continuar sempre as suas caminhadas, de passear pelo meio das oliveiras que o viram crescer. É bom lembrá-lo, mesmo com lágrimas. É sempre bom lembrá-lo e vê-lo em fotos antigas, e pensar que agora a sua alma pode descansar em paz, sem necessitar de bengalas ou quejandos. Fica bem, meu querido.
(Apesar de todos estes últimos escritos carregados de tristeza, estou melhor. Melhor que há uma semana, e a melhorar com cada dia que passa. Obrigado, meus amigos e amigas, pelo carinho que me têm dado. Vocês têm sido o meu melhor remédio.)
segunda-feira, agosto 29, 2011
Parêntesis.
Hoje foi um dia complicado. De coração apertado. Com vontade de estar junto daqueles com quem tinha estado até ontem. Com saudades deles todos, vivos e mortos. Na verdade, e agora que me ponho a pensar, já não sentia realmente isto, e com tanta força, desde o primeiro ano deste século. Ou o último ano do século passado, escolha-se a doutrina que se quiser. Não sentia tamanho peso dentro de mim desde aqueles dias, em que errava pelas ruas sem destino, sem pontos de referência, com as indicações cheias de caracteres estranhos e incompreensíveis. O sentimento é igual, ainda que hoje não tenha tido tempo para andar pelas ruas. E tal como nessa altura agora longínqua, quase como se de outra vida se tratasse, chego também ao fim do dia sem forças e sem vontade de continuar, mas sabendo, no meu íntimo, que tudo passa e que tudo tem de seguir em frente, por mais dor e saudades que se tenha. Valha-nos as ligações telefónicas, no caso dos vivos. Valha-nos as memórias e histórias acumuladas ao longo de uma vida, no caso dos mortos.
Descanso. Amanhã vai correr melhor.
Descanso. Amanhã vai correr melhor.
domingo, agosto 28, 2011
Interregno.
Tenho tanta coisa para escrever. Tantas coisas que gostava de vos contar. Mas receio que se o fizer agora, apenas conseguirei colocar aqui lágrimas e não palavras. Por isso, e enquanto faço uma pausa na palavra escrita, deixo aqui algo que já tem mais de dois anos. É só um parágrafo, mas neste momento nem o consigo acabar de ler. Adeus, meu querido António.
Ontem partilhámos provavelmente o momento mais íntimo que alguma vez tivémos. Bem sei que era uma actividade perfeitamente banal, mas quando os meus olhos encontraram os teus continuamente marejados pelas lágrimas que agora te aparecem tão facilmente, por pouco não chorei também. Armei-me em forte e sorri e pedi o teu sorriso, que de tão bonito devias exibi-lo todos os dias. Quando viraste as costas, enxuguei as minhas lágrimas enquanto pensei que momentos como aquele são aqueles que irei guardar no meu coração quando a tua hora de partir der os primeiros sinais. E derramei mais algumas lágrimas quando pensei nisto.
(escrito nesta data.)
Ontem partilhámos provavelmente o momento mais íntimo que alguma vez tivémos. Bem sei que era uma actividade perfeitamente banal, mas quando os meus olhos encontraram os teus continuamente marejados pelas lágrimas que agora te aparecem tão facilmente, por pouco não chorei também. Armei-me em forte e sorri e pedi o teu sorriso, que de tão bonito devias exibi-lo todos os dias. Quando viraste as costas, enxuguei as minhas lágrimas enquanto pensei que momentos como aquele são aqueles que irei guardar no meu coração quando a tua hora de partir der os primeiros sinais. E derramei mais algumas lágrimas quando pensei nisto.
(escrito nesta data.)
segunda-feira, agosto 15, 2011
Família.
Hoje fui recordado mais uma vez de como esta vida pode ser injusta. De como nos pode privar dos bons, daquelas pessoas que mereciam viver para sempre, espalhando por este mundo a sua bondade, a sua coragem, a sua força de viver. De que somos realmente apenas um pouco de luz que atravessa a vida daqueles que nos rodeiam, de que a amizade e o amor são valores intemporais, indiferentes ao espaço e ao tempo que passam, impiedosos. De tudo isto e mais. Que há pessoas que têm tanta força dentro de si que nuncam, jamais, haverá alguma doença que apague a sua presença das nossas vidas, que as memórias serão guardadas como peças fundamentais do nosso coração. E que, no fundo, os bons ganham sempre, sempre! Por isso, minha querida amiga, choremos sim, para aliviar a nossa dor e a nossa tristeza, mas ao mesmo tempo continuemos a sorrir, imitando o sorriso que ela nos devolve, que sempre nos devolverá, agora e sempre. E como sei o que sentes, e como já escrevi palavras sobre isso mesmo, quero que saibas que essas mesmas palavras são também para ti e para todos aí em casa. Com o amor de um amigo que estará sempre contigo.
Ainda se sente a tua ausência. Quando entramos na casa, desviamos o olhar para onde te vimos pela última vez, na esperança de reavivarmos as memórias que temos de ti. Já passou quase um ano que não te temos junto de nós mas os olhos ainda ficam tristes quando não te vemos onde sempre te encontrámos. Falta-nos a tua alegria, o teu sorriso, a tua forma de ser que sempre nos fazia voltar. Sentimos que há uma parte de nós que foi contigo também, uma parte da nossa inocência e do nosso sentimento de mortalidade. Continuamos a nossa vida, como tu o desejarias, e continuamos a reunirmo-nos como o fazíamos contigo. Celebramos as nossas pequenas festas e aniversários e recordamos-te nos nossos risos e amor uns pelos outros. Tentamos esconder as nossas saudades por ti mas há sempre uma lágrima que nos denuncia e, ao mesmo tempo, te recorda. A dor não desaparece dos nossos corações mas quando nos juntamos, juntamo-nos para celebrar a tua vida e todos os momentos em que tocaste a nossa. Quero que saibas que, onde quer que a tua alma se encontre, nós nunca te esqueceremos nem ao amor que tinhas por nós. Temos saudades tuas. Sentimos a tua falta.
(escrito a 21 de Maio de 2006)
Ainda se sente a tua ausência. Quando entramos na casa, desviamos o olhar para onde te vimos pela última vez, na esperança de reavivarmos as memórias que temos de ti. Já passou quase um ano que não te temos junto de nós mas os olhos ainda ficam tristes quando não te vemos onde sempre te encontrámos. Falta-nos a tua alegria, o teu sorriso, a tua forma de ser que sempre nos fazia voltar. Sentimos que há uma parte de nós que foi contigo também, uma parte da nossa inocência e do nosso sentimento de mortalidade. Continuamos a nossa vida, como tu o desejarias, e continuamos a reunirmo-nos como o fazíamos contigo. Celebramos as nossas pequenas festas e aniversários e recordamos-te nos nossos risos e amor uns pelos outros. Tentamos esconder as nossas saudades por ti mas há sempre uma lágrima que nos denuncia e, ao mesmo tempo, te recorda. A dor não desaparece dos nossos corações mas quando nos juntamos, juntamo-nos para celebrar a tua vida e todos os momentos em que tocaste a nossa. Quero que saibas que, onde quer que a tua alma se encontre, nós nunca te esqueceremos nem ao amor que tinhas por nós. Temos saudades tuas. Sentimos a tua falta.
(escrito a 21 de Maio de 2006)
quinta-feira, agosto 04, 2011
Do mesmo sangue.
Ao longo da minha vida tem havido uma série de momentos, comigo e sem mim, que tento evitar que caia naquele abismo do nosso cérebro onde muitas das memórias se deixam ir até ao desaparecimento eterno. Recordo-as uma e outra vez, com a ajuda dos que lá estiveram, reavivando a mente dos contornos de cada momento, cada palavra dita, cada imagem que passou pela retina. Tento sempre, sem desistir, pois são momentos que constituíram em granda parte aquilo que sou neste exacto momento em que escrevo estas palavras. Tudo isto sou seu, é o mantra a utilizar. Até porque, e estamos a chegar lá, em grande parte desses instantâneos do quotidiano, não houve polaroides a acompanhar os momentos, ficando as imagens apenas naquilo que é conhecido pela massa cinzenta. Daí que, com a facilidade de nos dias de hoje qualquer coisa ser capaz de tirar fotografias, acreditem que é um enorme alegria poder registar um momento que, ao mesmo tempo que me fez recuar no tempo, fez-me acreditar que o futuro está já ali, à minha frente, que a distância não existe quando os corações batem em simultâneo, quando os olhares de muitos e muitos anos se cruzam mais uma vez, e de que efectivamente blood runs thicker than water. Haja muitos instantes assim.
quinta-feira, julho 28, 2011
A tua voz.
Estes dias têm vindo a ser uma confirmação de como a nossa vida, o nosso ser, é de uma fragilidade tão grande que nem sonhamos. De como de um dia para o outro, deixamos de ser capazes de ter a memória apurada até ao fim dos nossos dias, ou as pernas que até ontem nos permitiam percorrer quilómetros como se nada fosse. O tempo consegue ser bondoso, mas na maior parte dos casos, e por muito que lutemos contra, será impiedoso e deixará as suas marcas profundas, com quais temos que viver, dia sim dia sim, com um sorriso nos lábios e com lágrimas nos olhos, alegria e tristeza de mãos dadas, por nós e por aqueles que nos rodeiam. Não há muito para dizer, na realidade sem que não fique inundado por uma onda de dor e tristeza, premonitória do que ainda está para vir e que teremos, como um todo, que enfrentar. Apenas quero aqui deixar que já não tenho medo da morte, tenho sim medo de envelhecer. Assim. Desta forma. Ponto final.
domingo, julho 03, 2011
Ainda a propósito...
"Não há relação tão única e exclusiva como a relação entre irmãos. Não há mais nenhuma que nos consiga elevar aos mesmos níveis de desespero e irritação. Que tão depressa nos deixe de rastos como de bem com o mundo. Que nos recompense com os mesmos níveis de solidariedade, de amor e de apoio. (...) Que nos permita um mergulho conjunto em memórias de cheiros, sons, sabores, lugares. (...) Há gargalhadas e lágrimas que só fazem sentido nesta relação tão própria e especial."
por Sofia Barrocas, Notícias Magazine de 3 de Julho de 2011
Sou filho único. Durante grande parte dos meus primeiros anos de vida lembro-me de perguntar à minha mãe quando é que iria ter um mano ou uma mana. Acho que cheguei mesmo a pensar que tal prenda estava guardada para um qualquer Natal mais especial ou algo do género. Os meus pais sorriam com este meu pedido e deixavam sempre no ar a ideia que sim, um dia podia acontecer. Era um puto, ainda estava longe de compreender o porquê de acabar por ser o único. Hoje já percebo e claro que não sinto ressentimentos por continuar a ser um filho único. Nunca os teria, na realidade, pois sei perfeitamente o quão difícil foi o meu nascimento, logo apenas posso considerar a minha mãe como a pessoa mais corajosa que até hoje conheci. Mas mesmo que não soubesse isso, apenas me sinto único no sentido "sangue do mesmo sangue" da coisa. Porque, ao longo da minha vida, sempre tive irmãos e irmãs. Fossem eles primos e primas, amigos de longa data, amigos de curta data, houve sempre pessoas com quem partilhar as minhas alegrias, as minhas tristezas, os meus receios, os meus desejos, toda a minha vida houve sempre alguém do meu lado para sentir esta ligação que a Sofia Barrocas escreveu. E se nos dias de hoje há irmãos e irmãs que estão mais perto do meu coração e outros que estão um pouco mais longe, o certo é que, aos meus olhos, continuam todos a serem as pessoas, para além dos meus pais, que me apoiaram e me agarraram nos bons e maus momentos. E isso é algo que viaja comigo sempre, vá eu para onde for, faça eu o que fizer desta vida. E sei perfeitamente que não preciso de listar os seus nomes, pois eles também sabem que independentemente das encruzilhadas do tempo, serei sempre irmão deles e delas.
por Sofia Barrocas, Notícias Magazine de 3 de Julho de 2011
Sou filho único. Durante grande parte dos meus primeiros anos de vida lembro-me de perguntar à minha mãe quando é que iria ter um mano ou uma mana. Acho que cheguei mesmo a pensar que tal prenda estava guardada para um qualquer Natal mais especial ou algo do género. Os meus pais sorriam com este meu pedido e deixavam sempre no ar a ideia que sim, um dia podia acontecer. Era um puto, ainda estava longe de compreender o porquê de acabar por ser o único. Hoje já percebo e claro que não sinto ressentimentos por continuar a ser um filho único. Nunca os teria, na realidade, pois sei perfeitamente o quão difícil foi o meu nascimento, logo apenas posso considerar a minha mãe como a pessoa mais corajosa que até hoje conheci. Mas mesmo que não soubesse isso, apenas me sinto único no sentido "sangue do mesmo sangue" da coisa. Porque, ao longo da minha vida, sempre tive irmãos e irmãs. Fossem eles primos e primas, amigos de longa data, amigos de curta data, houve sempre pessoas com quem partilhar as minhas alegrias, as minhas tristezas, os meus receios, os meus desejos, toda a minha vida houve sempre alguém do meu lado para sentir esta ligação que a Sofia Barrocas escreveu. E se nos dias de hoje há irmãos e irmãs que estão mais perto do meu coração e outros que estão um pouco mais longe, o certo é que, aos meus olhos, continuam todos a serem as pessoas, para além dos meus pais, que me apoiaram e me agarraram nos bons e maus momentos. E isso é algo que viaja comigo sempre, vá eu para onde for, faça eu o que fizer desta vida. E sei perfeitamente que não preciso de listar os seus nomes, pois eles também sabem que independentemente das encruzilhadas do tempo, serei sempre irmão deles e delas.
sábado, junho 25, 2011
sexta-feira, junho 24, 2011
Concerto.
Subiu ao palco, encandeado com o foco de luz branca que o seguia por todo o lado. Tanto assim que quase não conseguia ver as pessoas cujos gritos e aplausos e assobios afundavam o som da banda num caos sonoro que já não lhe trazia nada de novo. Noite após noite. Quase sempre a mesma reacção ao início de mais um concerto. Era naquelas alturas que se sentia mais perdido, mais só. Era nessas alturas que se agarrava ao microfone e ao seu apêndice com uma fúria que seria interpretada por todos os jornalistas de música como o comprovar da sua independência musical, a explosão do verdadeiro génio da banda. Merdas. Constantes e sempre sem uma única ponta de novidade de léxico. Quando apenas ele sabia a verdade. A verdade que o impelia sempre a agarrar no suporte do micro como se a sua vida dependesse disso mesmo. Não dependia, mas era sempre aos primeiros acordes da primeira música que as tonturas quase o derrubavam, quase o deitavam por terra. E ele agarrava-se, qual bóia salvadora, deixando o corpo a salvo o suficiente para cantar com todas as suas forças, gritando as palavras e versos que um dia tinha escrito num pequeno caderno oferecido pela pessoa que estava ali, a meia dúzia de passos dele, fazendo vibrar incessantemente as cordas de um baixo que ele próprio lhe tinha oferecido em troca. Era o último concerto dela. Era o último concerto da tourneé mas ele também sabia que era a última vez que ela pisaria o mesmo palco que ele. Talvez por isso ela estivesse ainda mais distante dele, perdida no seu mundo de notas musicais e cordas e distorção e sons ainda mais graves do que em todos os outros concertos. Ele cantava, cantava sempre, estivesse feliz, estivesse triste, estivesse terrivelmente triste, como nesta noite. Mesmo sendo uma tristeza conformada, resignada às consequências que o fim de uma relação pode ter em tudo à sua volta. A culpa tinha sido dele e quase podia jurar que de cada vez que o baterista fazia explodir as percursões, era como se estivesse a bater nele, a tentar dar-lhe murros com todas as forças que podia. Não era o fim da banda, claro. Havia demasiados compromissos, demasiados fãs, demasiado dinheiro, e no fim do dia, aquele era o emprego de quatro pessoas que pouco mais sabiam fazer para além de canções que pareciam agradar a todos os que se cruzavam com a sua música. Não, não era o fim. Já havia audições marcadas para a semana para arranjar-lhe um substituto. O guitarrista e o baterista, amigos de há muito, tratariam disso. Ele nem sequer conseguia imaginar alguém no lugar dela. Nem como baixista nem como... Eles tratariam disso. E sempre seria uma forma de estarem algum tempo afastados, talvez assim a mágoa que sentiam em relação a ele diminuisse um pouco. Não os podia censurar, a culpa era dele. Já estava embalado depois das primeiras músicas, já podia mandar o suporte ao chão. Aplausos e mais gritos estridentes. Guitarrista e baixista a tocarem lado a lado. Baterista a marcar o ritmo lento da canção enquando aproveitava para beber. E ele, sempre no centro das atenções, cantando, declamando, gritando, letras que a um tempo lhe lembravam momentos que não se repetiriam, que pouco significado já tinham. Mas ele conseguia, enterrava tudo isso lá dentro, e cantava, cantava, cantava. Cantava enquanto pensava por quantos mais anos conseguiria fazer isto, subir a um palco, ver as multidões literalmente aos seus pés, fazer com que tudo o que soava da sua garganta o fosse feito pela última vez na vida. Preferia pensar nisto, se sim se não, a ter de olhar nos olhos dos seus parceiros. Ainda havia demasiado rancor. Em todos. Menos nos olhos dela. Neles parecia haver uma espécie de alívio, por saber que aquela era a última noite. A última noite que tocariam juntos. A última noite em que partilhariam o mesmo quarto. A última noite. Música após música, tinham chegado ao espaço do encore. Todos se foram retirando do palco. As luzes apagaram-se. Os gritos do público continuaram. Até que apenas ele tinha ficado, sozinho na escuridão do recinto. Ali se deixou ficar enquanto as pessoas pediam mais canções, mais momentos para depois recordarem. Queria falar com eles. Queria poder dizer-lhes que se calassem, que por favor se calassem. Queria silêncio, queria conversar. Queria contar-lhes como o seu amor tinha realmente terminado, que não era apenas mais uma nova música que lhes estava a apresentar. Queria poder perguntar-lhes se sabiam o que se faz quando isso acontece, o que é que nos pode valer para podermos continuar em frente, como é que conseguimos fazer com que o nosso coração torne a bater. Não disse uma única palavra. Apenas esperou que a banda voltasse ao palco, esperou até que à sua volta os instrumentos entoassem as últimas duas músicas, aquelas que toda a gente à sua frente queria ouvir, pelas quais tinham esperado e esperado. As duas músicas que, ironicamente, eram sobre ela, a que estava ali a meia dúzia de metros dele. As duas músicas que, muito provavelmente, ele nunca mais conseguiria cantar novamente. Sabia que lhe chamariam tudo e mais alguma coisa. As mesmas pessoas que agora cantavam com ele, palavras após palavra, seriam as mesmas que não compreenderiam a sua decisão e o iriam queimar em praça pública. Seja. Ele não queria saber. Cantava mais uma vez e procurava os olhos dela, que sabia não estarem lá. O olhar dela já era outro. Era um olhar que já não queria saber dele para nada, um olhar já virado para o futuro que seria longe dele. Gritou as últimas palavras por cima do público, fugiu ao foco luminoso e a todas as outras luzes, e foi o primeiro a sair do palco. Não conseguia ficar ali e ver o último acto de um amor defunto. Tinha participado no velório, mas não queria ver as luzes e os aplausos e as vénias cobrirem o caixão de uma vida a dois que tinha deixado de respirar. Saiu do palco, fugiu por onde tinha entrado. As luzes do teatro começaram lentamente a acender-se. Obrigado, vocês são os maiores, nós adoramo-vos. Até à próxima.
domingo, junho 12, 2011
Uma inspiração
"Os ideais que acalentamos, os nossos sonhos mais íntimos e as nossas esperanças mais ardentes podem não ser concretizados no nosso tempo de vida. Mas isso não é o mais importante. A consciência de termos cumprido o nosso dever e de termos estado à altura das expectativas dos nossos contemporâneos é em si mesma uma experiência gratificante e uma conquista magnífica."
Nelson Mandela
terça-feira, junho 07, 2011
um buraco no coração
(ou como, por vezes, não sabemos lidar com o amor que temos e quando finalmente o descobrimos, a nossa mente já fugiu para sítios recônditos...)
1778 escritos
Hoje tive um sonho em que, de certa forma, me vi envolvido nos ambientes deste filme, que vi recentemente numa das longas viagens de avião. E fiquei com a sensação que me falta algo nos últimos tempos, falta-me o momento de pegar numa caneta e escrever algo que saia da minha imaginação real ou da minha realidade imaginada e que faça devolver um pouco de vida a este Espaço. O que é que se há-de fazer? Se calhar aproveitar o próximo dia de descanso, deixar que o portátil continue em greve, e pegar no bloco de estórias... Haja boas intenções...
quarta-feira, maio 04, 2011
sexta-feira, abril 22, 2011
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