
quarta-feira, fevereiro 24, 2010
Vínhamos de mãos dadas, descendo a rua como o fazíamos quase todos os fins-de-semana. Trazias o teu gorro, o teu cachecol e as tuas luvas, procurando de alguma forma não entrar em contacto com o vento frio que vinha do rio. O pouco sol que havia não era suficiente para aquecer os nossos corpos, e eu apertei também o casaco depois de alguns arrepios. Já quase não precisavas da minha ajuda para suplantares os paralelipípedos que surgiam debaixo dos nossos pés. Daí que não me espantasse com as tuas palavras quando chegámos à escadaria que nos levaria à baixa. “Pai, hoje não quero ajudas. Vou descer sozinho. Pode ser?” “Podes. Mas não largas o corrimão, está bem?” Acenaste rapidamente com a cabeça, enquanto atacavas os primeiros degraus. Sim, estavas a crescer em frente aos meus olhos. Começavas a percorrer as ruas como se fossem já tuas. Enquanto descias os degraus, primeiro temerário depois mais cauteloso, pensava que gostarias de ter conhecido o meu pai. Sim, irias sem dúvida ter gostado dele. A generosidade que ele tinha para com todos à sua volta, a forma como nos deixávamos invadir pelos seus olhos doces, o jeito que ele tinha para ser criança junto das verdadeiras crianças. Gostava de ser para ti um infímo daquilo que o meu pai foi para mim. Gostava, desejava que a tua infância seja tão inesquecível como a minha. Gostava que tivesses conhecido o meu pai, o teu avô. Na verdade, acho que me posso dar por feliz por ainda teres conhecido a minha mãe, a tua avó. Pois ela, mesmo tendo sido a pessoa que me deu disciplina, que me ensinou o que é respeito, embora tenha sido ela a "mão pesada" durante os meus tempos de criança, sei que nunca vais esquecer o amor que ela teve por ti desde o segundo em que nasceste. Ajeito-te o cachecol enquanto vais descendo a escadaria bonita, como tu lhe chamas. Sabes que foi a avó que to tricotou, não sabes? Claro que sabes, deve ser por isso mesmo que nunca queres usar outro que não esse. Apesar da terrível doença que a levou, e que me fez explicar-te cedo demais o que significa nunca mais vermos alguém que amamos, sei que ela vai estar sempre contigo. Não é por acaso que, no teu quarto, decidiste pôr uma moldura com uma fotografia em que estás ao colo dela, ao colo da minha mãe, juntamente com outros fotografias que escolheste, tuas, minhas, da tua mãe. Sei que vais recordar sempre o sorriso da tua avó, mesmo quando ela já não tinha razões para sorrir e quando escondia as lágrimas de ti, chorando apenas quando saías do quarto. Sim, tu não esquecerás a tua avó, eu não consigo esquecer a minha mãe. Chegamos ao fim da escadaria. “Bravo. Conseguiste.” “Estás a ver, pai? Já estou grande.” E dizendo estas palavras, como se celebrasses a maior das vitórias, voltaste a dar-me a mão. Sabendo que a rua era tua, tal como eu era teu. Sem ajudas.


Um Circo no Nevoeiro
"o gato espia do telhado
a vida a partir
em cada comboio que passa,
o tempo que se arrasta
na dor metálica dos carris.
é feriado nas mãos,
trago uma canção triste
e o teu rosto no bolso."
a vida a partir
em cada comboio que passa,
o tempo que se arrasta
na dor metálica dos carris.
é feriado nas mãos,
trago uma canção triste
e o teu rosto no bolso."
Renata Correia Botelho
terça-feira, fevereiro 23, 2010
Foi no banco traseiro daquele táxi que soube que te amava. Quando as nossas mãos se juntaram sob o frio da napa do banco. Não ousei beijar-te pois os teus olhos continuavam a olhar para além do vidro por onde corriam milhentas gotas de chuva. Não ousei beijar-te nem na face onde as tuas lágrimas ainda não tinham secado. Nunca te tinha visto chorar. Em tantos anos que nos conhecíamos e em tantas diferentes ocasiões em que a vida tinha teimado em nos juntar, e nunca te tinha visto chorar. E nem sequer eras um daqueles machões idiotas que insistem que o choro é para as carpideiras, escape tipicamente feminino. Não, nunca te revi nesse protótipo de homem tão fútil. Nunca, por uma vez que fosse, me recriminaste quando secava as minhas muitas lágrimas de muitos falhanços amorosos no teu ombro. Pelo contrário, sempre afirmaste que o choro era a melhor maneira de nos purgarmos, de largarmos um pouco da frivolidade dos nossos dias. Mas mesmo com palavras como essas, nunca te vi chorar. E, no entanto, nas últimas vinte e quatro horas, pareces ter derramado todas as lágrimas acumuladas por uma vida inteira. As últimas vinte e quatro horas de vida da tua mãe, depois de muitos meses de uma luta com o pior dos monstros. Meses de um monstro que invadiu o corpo dela e que asfixiou a tua vida. Acompanhei tudo isso na medida em que me deixaste estar ao teu lado. Também era amiga da tua mãe, afinal ela conhecia-me desde que eu era criança. Como me custou ver aquela mulher forte, corajosa e humilde transformar-se num farrapo humano, numa versão tão pequenina do que ela realmente era, onde apenas o seu sorriso foi subsistindo ao longo de toda aquela provação. Mas não consigo sequer imaginar aquilo que, enquanto seu filho, deves ter sofrido. E mesmo agora, enquanto vejo o teu olhar perdido no meio da cidade chuvosa, penso que ainda não acabou, pelo menos não para ti. Que o alívio que a tua mãe sentiu ainda não chegou a ti. Que as lágrimas que agora derramas ainda te irão acompanhar por muito tempo. Que toda a dor que sentes me amarra e tenta esconder o que o meu coração vai apertando cá dentro. Uma vontade indomável de te amar, de te amar até ao fim dos nossos dias. Como nos filmes. Aperto a tua mão mas tu não tiras os olhos do vidro. E a chuva lá fora cai com mais força ainda.
sábado, fevereiro 20, 2010
Alentejo Blue
"Sometimes I think I can't really exist. I dig my nails into my skin to see if I'm really there. I'm doing it now, and it's good when the blood comes because that proves something and you can't just believe, you have to have proof."
Monica Ali
Não se esqueçam de falar com Marshak...
"The Uncertainty Principle. It proves we can't ever really know... what's going on. So it shouldn't bother you. Not being able to figure anything out. Although you will be responsible for this on the mid-term."

Desconcertante. Maravilhosamente negro. De uma surrealidade tão real que nos pode deixar tão depressa à beira do riso desenfreado como da mais solitária tristeza. No fundo, experiência cinematográfica de beleza singular. Ou, como diria o senhor Park,

Desconcertante. Maravilhosamente negro. De uma surrealidade tão real que nos pode deixar tão depressa à beira do riso desenfreado como da mais solitária tristeza. No fundo, experiência cinematográfica de beleza singular. Ou, como diria o senhor Park,
"Please. Accept the mystery."
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
Mirandés Central ó Raiano
Qual serie la sensaçon de cuncretizar la fuga? Naqueilhes dies, el nun cunseguia pensar noutra cousa que nó fusse simplesmente bater cula puorta, mandar to aquel quotidiano a la merda i simplesmente fugir, correr, deixar to aqueilha eisisténcia çancadielha para trás de las cuostas. Haberie culpas del, cierta mente, el tenie assinado por baixo i era antoce cul sou cunsentimiento que todo aqueilho tenie acuntecido. Mas nunca tenerie el eimaginado que las cousas chegassen a un punto an qu'el sinceramente cuntemplasse treminar cun todo, rialmente todo. I por esso ye qu'agora solo le ocorria fugir, para adonde naide l cunseguisse ancontrar. Nin aqueilhes qu'amaba, nin aqueilhes qu'odiaba. Solo i solo ampeçar todo de l zero. Ua spece de renacimiento de la sue pseudo-alma. Melhor i menos drama quen, un reset de la massa cinzenta, squecendo to l'angústia i delor que ls redadeiros dieç anhos de la sue bida le tenien proporcionado. Era triste aqueilha fuga, pus deixaba tamien muita cousa buona para trás. Mas l que fazer cun amisades que ne l redadeiro segundo nun chegában pa l salbar? L que fazer cun todas aqueilhas retratos stupendas, qu'agora solo se lhemitában a ganhar pó an albuns i caixas? L que fazer cun amores tan apaixonadamente bebidos, qu'agora se tenien tornado an mimórias azedumes que nanhun sistema de suporte de bida cunseguia reanimar? Ne l balancete de las cousas, l passibo cunseguia anterrar ls restos mortales de l'atibo. I por esso nun habie outro camino. Tenie de fugir, para alhá de la lhinha de l'hourizonte i antes de l sol se poner. Qual mísera caricatura dun lhucky lhuke sin selombra nin cabalho.
(depuis de passar ls uolhos pula Lhei Seca)
(depuis de passar ls uolhos pula Lhei Seca)
domingo, fevereiro 14, 2010
Saudades de Nova Iorque
"O amor gosta de sacrificar os corações mais tenros."
Pedro Paixão
segunda-feira, fevereiro 08, 2010
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
A criança que ri na rua
"A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo
Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer coisa de amor,
Ainda que o amor seja mudo."
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo
Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer coisa de amor,
Ainda que o amor seja mudo."
Fernando Pessoa
(ainda na sequência do escrito anterior, na primeira página de um livrinho especial, escrito por uma pessoa especial. obrigado, continua por aqui e bem vivo.)
Arrumações
Devia ser proibido ler cartas antigas.
Por vezes acabamos por esquecer parte daquilo que outrém nos escreveu há anos e anos atrás. As coisas boas, as coisas menos boas, as coisas que já são passado, as coisas que continuam a acontecer no presente. Custa ler as palavras de pessoas que foram seguindo outros caminhos, longe dos nossos. Custa ler as palavras de pessoas que continuam a fazer parte da nossa vida, mas de forma diferente, muito diferente daquilo que eram e daquilo que nos fizeram sermos tão próximos. Custa ler as palavras que lemos no passado, num sítio longínquo, onde apenas podíamos imaginar o sorriso da pessoa que nos escrevia, onde sentíamos as lágrimas a aparecerem quando pensávamos na lágrima que corria na face de alguém que estava longe. Ficamos felizes por lermos palavras que são tão válidas hoje como o eram há dez anos atrás. Sentímo-nos impotentes por lermos palavras de quem nos amou e que depois nos deixou, palavras desamparadas, palavras paradas no tempo que impacientemente correu até nos deixar num presente onde estas palavras parecem punhais. As cartas trazem consigo as imagens do passado, aquelas imagens que não podem ser fotografadas, que caminham pelas ruas perdidas da nossa memória. Mas elas trazem também consigo o contraste do presente, a ausência que nos percorre quando algumas palavras são tão duras de ler. E mesmo assim, recusamo-nos a lançar essas cartas na fogueira do esquecimento, pois mesmo sendo trespassados por esses punhais feitos de tinta escrita à mão, é importante que fiquem por ali, arrumadas numa gaveta, a lembrarem-nos que já fomos felizes, já chorámos, já fomos amados, já fomos inocentes e tudo aquilo ainda somos nós e elas, as pessoas cujo eco das palavras continua a ressoar dentro da nossa alma.
Devia ser proibido ler cartas antigas.
Ou, faz parte da tua vida.
:)
Por vezes acabamos por esquecer parte daquilo que outrém nos escreveu há anos e anos atrás. As coisas boas, as coisas menos boas, as coisas que já são passado, as coisas que continuam a acontecer no presente. Custa ler as palavras de pessoas que foram seguindo outros caminhos, longe dos nossos. Custa ler as palavras de pessoas que continuam a fazer parte da nossa vida, mas de forma diferente, muito diferente daquilo que eram e daquilo que nos fizeram sermos tão próximos. Custa ler as palavras que lemos no passado, num sítio longínquo, onde apenas podíamos imaginar o sorriso da pessoa que nos escrevia, onde sentíamos as lágrimas a aparecerem quando pensávamos na lágrima que corria na face de alguém que estava longe. Ficamos felizes por lermos palavras que são tão válidas hoje como o eram há dez anos atrás. Sentímo-nos impotentes por lermos palavras de quem nos amou e que depois nos deixou, palavras desamparadas, palavras paradas no tempo que impacientemente correu até nos deixar num presente onde estas palavras parecem punhais. As cartas trazem consigo as imagens do passado, aquelas imagens que não podem ser fotografadas, que caminham pelas ruas perdidas da nossa memória. Mas elas trazem também consigo o contraste do presente, a ausência que nos percorre quando algumas palavras são tão duras de ler. E mesmo assim, recusamo-nos a lançar essas cartas na fogueira do esquecimento, pois mesmo sendo trespassados por esses punhais feitos de tinta escrita à mão, é importante que fiquem por ali, arrumadas numa gaveta, a lembrarem-nos que já fomos felizes, já chorámos, já fomos amados, já fomos inocentes e tudo aquilo ainda somos nós e elas, as pessoas cujo eco das palavras continua a ressoar dentro da nossa alma.
Devia ser proibido ler cartas antigas.
Ou, faz parte da tua vida.
:)
quinta-feira, fevereiro 04, 2010
O que se leva desta vida...

... ou como já não bastava o baptismo de snoopie.
... ou como a minha vida ainda não era completa até saber ler nos lábios de alguém «vamos jogar o totobola».
... ou como mais uma vez recordar que há dez anos atrás estava a conhecer pessoas que dez anos depois estariam ao meu lado, a recordarem-me como a amizade é uma coisa preciosa.
terça-feira, fevereiro 02, 2010
Responde se és homem
"Rita, por amor de Deus, a angústia existencial faz parte de qualquer pessoa com razoável e positiva ambição e cultura. Por isso não tens paciência para quem vem desabafar contigo, pois a dor dos outros é efectivamente abstracta e só raramente nos identificamos com ela. Refugiamo-nos na crítica para entreter a nossa tristeza egoísta, e encontramos algum prazer em ver como os outros são falsos ou pirosos num enterro de carpideiras."
Rosado Fernandes
Minha querida professora, é verdade que com um atraso de mais de um ano, lá cheguei às palavras que foram tua oferta natalícia. Gostei das epístolas, ainda que eu próprio continue a ser um incrédulo, um perdido nestas questões de género/sexo. Mas as palavras inspiraram-me, tenho isso a dizer, e vamos a ver que coisas serão escritas por este espaço nos próximos tempos. E é claro que partilho do desejo que me deixaste escrito na primeira página, isso seria um pequeno milagre a acontecer nas nossas vidas. Um grande obrigado do fundo do meu coração, minha querida professora.
segunda-feira, fevereiro 01, 2010
Invictus
"Out of the night that covers me,
Black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.
In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.
Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul."

E que pena é que haja apenas um Nelson Mandela e que ele não seja imortal. E digo imortal pois creio que já é eterno na nossa memória colectiva. E por trás de toda a magia que gira à volta de uma estória de rugby, há uma verdadeira lição de humanidade que atravessa todo o filme, e que todos os seres humanos deviam conhecer e aprender, assim o mundo fosse um lugar justo e nobre.
(Disse e repito, Clint Eastwood can do no wrong. Period.)
quinta-feira, janeiro 28, 2010
Empreendorismo
Não se consegue resistir ao poderio da Maçã Trincada...
Ele é o iPod, o iPhone, o iPad...
Pois bem, e eu apresento em primeira mão...
Ele é o iPod, o iPhone, o iPad...
Pois bem, e eu apresento em primeira mão...
sexta-feira, janeiro 22, 2010
O velho
Lembro-me que era das primeiras coisas que ouvia quando acordava. Primeiro apareciam os pios dos passáros que poisavam nas macieiras do pátio das traseiras. Depois era invariavelmente o canto dos sinos da igreja da terra, logo seguido orquestralmente pelos sinos das igrejas das terras vizinhas, o eco de todos esses sinos atravessando os vales e as terras onde já se cultivava desde que o sol se tinha levantado. E era então que começava a ouvir o sussurro de alguém que parecia entoar uma ladainha, repetindo as palavras tão rapidamente para que ninguém as pudesse perceber. Só quando o som que vinha do rádio se sobrepunha às palavras, só nessa altura se percebia que quem quer que estivesse a murmurar, estava na realidade a rezar. Um ciclo de rezas que parecia não ter fim e que normalmente durava toda a manhã.
Chamavam-lhe Pap'Arroz. Uma daquelas alcunhas que vinham dos tempos de infância e que atravessavam o tempo, agarrando-se ao nome de todas as pessoas que viviam na aldeia e as acompanhavam até ao fim dos seus dias. Nunca cheguei a perguntar o porquê daquele nome e, na verdade, não sei explicar porque nunca o fiz. Sabia, por exemplo, porque é que a minha avó chamava Ganso ao meu pai. Sabia porque é que o meu avô tinha o pregão de Pinguinhas agrafado ao seu nome. Mas o porquê daquele eremita-que-não-o-era-verdadeiramente se chamar Pap'Arroz, nunca me ocorreu perguntar.
A figura daquele homem velho atravessou boa parte da minha infância, sempre que passava férias na velha aldeia onde os meus pais e os pais deles todos nasceram. Lembro-me da sua casa, antiga como poucas naquela parte da aldeia, onde começavam a surgir a toda a volta vivendas compradas e construídas com as divisas que chegavam de outros países europeus. Era uma casa feita de pedra, com um aspecto tão duro e desgastado como o homem que a habitava. A porta da casa era, como muitas na aldeia, "partida" ao meio, permitindo que a parte de baixo ficasse fechada, enquanto a parte de cima podia ficar aberta, tornando-se mais uma janela para ver o que se passava lá fora. Era por aí que surgia, logo pela manhã, o som da missa pelo éter, acompanhado pela ladainha oratória do homem.
Raramente vi aquele homem sair da sua casa. Talvez numa ou outra procissão, sempre atrás de todas as outras pessoas que seguiam os andores. Lembro-me que havia uma única pessoa que o visitava, que lhe levava coisas lá para casa, uma familiar distante que vivia numa aldeia vizinha, do outro lado do rio. Lembro-me ainda que sempre que ocorriam estas visitas, não tardava muito até ouvir os gritos do homem e da familiar, discussões que me deixavam aterrado, ainda com mais medo do que aquele que já sentia por aquela figura. Não que o homem alguma vez me tenha feito mal. Aliás, acho que nunca lhe teria dado oportunidade para tal. Um punhado de vezes tentou mesmo falar comigo mas a sua voz grave como um trovão, ou assim me parecia, era o suficiente para eu desatar a correr pelas escadas acima da casa do meu avô. Aquela voz, as suas roupas quase sempre pretas e gastas, o chapéu com que até dentro de casa andava, e a sua longa barba negra constrastando com os cabelos já esbranquiçados que fugiam por debaixo do chapéu, todo aquele aspecto deixava-me com um medo tal que nem mesmo os enormes cães de guarda da quinta ali ao lado, sempre a latir quando me viam passar, nem esses monstros continuamente a ladrar me deixavam com tanto medo. Era um puto, e os medos e receios que nos assaltam quando somos putos não se explicam. Curiosamente, quando o velho Pap'Arroz rezava, não tinha receio e até cheguei a pensar que eram pessoas diferentes, que nunca o velho de voz de trovão poderia ser a mesma pessoa cujo suave murmúrio entrava todos os dias pela janela. Seja como fôr, acabou por ser uma daquelas pessoas que associava imediatamente aos dias que passava naquela aldeia longe da minha casa. E o tempo foi passando, e eu cresci, e o medo foi-se desvanecendo até não passar de uma memória de criança.
Já estaria na universidade. Foi dos últimos verões que acabei por passar na terra. Daí a algum tempo os meus avós começariam a sua romaria entre as casas das filhas e só nos tornaríamos a encontrar todos na terra em algumas ocasiões especiais e cada vez mais dispersas. Naquele verão fui dar com a casa do velho Pap'Arroz fechada e sem o habitual som do rádio. Perguntei à minha avó. Tinha morrido na passagem do inverno para a primavera. A familiar distante tinha-o encontrado deitado na cama, com as mãos fechadas a segurarem um terço, e já com o rádio silencioso na mesinha de cabeceira. Perguntei à minha avó se tinha ido muita gente ao funeral. Ela quase estranhou a minha pergunta e disse-me que sim, claro que sim, era uma pessoa da terra e nunca as pessoas da terra são deixadas sozinhas enquanto rumam ao seu último lugar de descanso. Disse-me ainda que da próxima vez que fôssemos ao cemitério, levaríamos também algumas flores para deixar na campa do velho.
Fiquei a pensar durante toda a tarde nas suas palavras. E fiquei a pensar também que com o desaparecimento daquele velho eremita-que-não-o-era, também uma parte da minha juventude desaparecia com ele. E que a partir daquele dia só teria a companhia do piar dos pássaros e do repicar dos sinos nas minhas preguiçosas manhãs passadas na aldeia.
Chamavam-lhe Pap'Arroz. Uma daquelas alcunhas que vinham dos tempos de infância e que atravessavam o tempo, agarrando-se ao nome de todas as pessoas que viviam na aldeia e as acompanhavam até ao fim dos seus dias. Nunca cheguei a perguntar o porquê daquele nome e, na verdade, não sei explicar porque nunca o fiz. Sabia, por exemplo, porque é que a minha avó chamava Ganso ao meu pai. Sabia porque é que o meu avô tinha o pregão de Pinguinhas agrafado ao seu nome. Mas o porquê daquele eremita-que-não-o-era-verdadeiramente se chamar Pap'Arroz, nunca me ocorreu perguntar.
A figura daquele homem velho atravessou boa parte da minha infância, sempre que passava férias na velha aldeia onde os meus pais e os pais deles todos nasceram. Lembro-me da sua casa, antiga como poucas naquela parte da aldeia, onde começavam a surgir a toda a volta vivendas compradas e construídas com as divisas que chegavam de outros países europeus. Era uma casa feita de pedra, com um aspecto tão duro e desgastado como o homem que a habitava. A porta da casa era, como muitas na aldeia, "partida" ao meio, permitindo que a parte de baixo ficasse fechada, enquanto a parte de cima podia ficar aberta, tornando-se mais uma janela para ver o que se passava lá fora. Era por aí que surgia, logo pela manhã, o som da missa pelo éter, acompanhado pela ladainha oratória do homem.
Raramente vi aquele homem sair da sua casa. Talvez numa ou outra procissão, sempre atrás de todas as outras pessoas que seguiam os andores. Lembro-me que havia uma única pessoa que o visitava, que lhe levava coisas lá para casa, uma familiar distante que vivia numa aldeia vizinha, do outro lado do rio. Lembro-me ainda que sempre que ocorriam estas visitas, não tardava muito até ouvir os gritos do homem e da familiar, discussões que me deixavam aterrado, ainda com mais medo do que aquele que já sentia por aquela figura. Não que o homem alguma vez me tenha feito mal. Aliás, acho que nunca lhe teria dado oportunidade para tal. Um punhado de vezes tentou mesmo falar comigo mas a sua voz grave como um trovão, ou assim me parecia, era o suficiente para eu desatar a correr pelas escadas acima da casa do meu avô. Aquela voz, as suas roupas quase sempre pretas e gastas, o chapéu com que até dentro de casa andava, e a sua longa barba negra constrastando com os cabelos já esbranquiçados que fugiam por debaixo do chapéu, todo aquele aspecto deixava-me com um medo tal que nem mesmo os enormes cães de guarda da quinta ali ao lado, sempre a latir quando me viam passar, nem esses monstros continuamente a ladrar me deixavam com tanto medo. Era um puto, e os medos e receios que nos assaltam quando somos putos não se explicam. Curiosamente, quando o velho Pap'Arroz rezava, não tinha receio e até cheguei a pensar que eram pessoas diferentes, que nunca o velho de voz de trovão poderia ser a mesma pessoa cujo suave murmúrio entrava todos os dias pela janela. Seja como fôr, acabou por ser uma daquelas pessoas que associava imediatamente aos dias que passava naquela aldeia longe da minha casa. E o tempo foi passando, e eu cresci, e o medo foi-se desvanecendo até não passar de uma memória de criança.
Já estaria na universidade. Foi dos últimos verões que acabei por passar na terra. Daí a algum tempo os meus avós começariam a sua romaria entre as casas das filhas e só nos tornaríamos a encontrar todos na terra em algumas ocasiões especiais e cada vez mais dispersas. Naquele verão fui dar com a casa do velho Pap'Arroz fechada e sem o habitual som do rádio. Perguntei à minha avó. Tinha morrido na passagem do inverno para a primavera. A familiar distante tinha-o encontrado deitado na cama, com as mãos fechadas a segurarem um terço, e já com o rádio silencioso na mesinha de cabeceira. Perguntei à minha avó se tinha ido muita gente ao funeral. Ela quase estranhou a minha pergunta e disse-me que sim, claro que sim, era uma pessoa da terra e nunca as pessoas da terra são deixadas sozinhas enquanto rumam ao seu último lugar de descanso. Disse-me ainda que da próxima vez que fôssemos ao cemitério, levaríamos também algumas flores para deixar na campa do velho.
Fiquei a pensar durante toda a tarde nas suas palavras. E fiquei a pensar também que com o desaparecimento daquele velho eremita-que-não-o-era, também uma parte da minha juventude desaparecia com ele. E que a partir daquele dia só teria a companhia do piar dos pássaros e do repicar dos sinos nas minhas preguiçosas manhãs passadas na aldeia.
sexta-feira, janeiro 15, 2010
Mulher em branco
"pode ser não mais que amarmos sem regras, demora às vezes uma vida percebermos que o amor não tem afinal regras, pode acontecer que o inferno nos guie por vezes, e sem darmos muito por isso estamos numa busca de selva, à procura de outra coisa, de outra coisa que nem sabemos bem o que é, que simplesmente se assemelha muito ao que já tivemos e queremos preservar, às vezes cometemos erros atrás de erros atrás de erros porque não aceitamos que o encanto terminou, que ficou só terra queimada, não temos já maneira de segurar
(Como um pássaro ferido nas mãos em concha)"
(Como um pássaro ferido nas mãos em concha)"
Rodrigo Guedes de Carvalho
quinta-feira, janeiro 14, 2010
Mágoa
"Há muito que os especialistas defendem que o tratamento do cancro está demasiado fragmentado e que para haver maior qualidade é necessária concentração. Nesse sentido, a Coordenação Nacional para as Doenças Oncológicas (CNDO) fez sair este mês um documento onde surgem os requisitos necessários para que uma unidade preste cuidados em oncologia. Um deles define como 500 o número mínimo de novos casos por ano para que um serviço se mantenha aberto."
(escrevinhado no público)
Racionalizem tudo o que quiserem.
Façam todas as avaliações de custos e relatórios de produtividade que quiserem.
Entrem em todas as rivalidades políticas e regionais que queiram.
Façam tiroteio de números o quanto tempo quiserem.
Mas saber que vai haver mais hipóteses de haverem pessoas a sofrer com uma doença que nos rouba quase toda a nossa dignidade e nos leva quase tudo menos os ossos...
Saber que há hipóteses de haverem ainda mais famílias e amigos dilacerados pelo sofrimento de quem amam e pelo eventual roubo dessa presença nas suas vidas...
Saber que o ser humano é apenas um número e nada mais...
Espero que a vossa consciência vos grite aos ouvidos até ao final das vossas vidas.
(escrevinhado no público)
Racionalizem tudo o que quiserem.
Façam todas as avaliações de custos e relatórios de produtividade que quiserem.
Entrem em todas as rivalidades políticas e regionais que queiram.
Façam tiroteio de números o quanto tempo quiserem.
Mas saber que vai haver mais hipóteses de haverem pessoas a sofrer com uma doença que nos rouba quase toda a nossa dignidade e nos leva quase tudo menos os ossos...
Saber que há hipóteses de haverem ainda mais famílias e amigos dilacerados pelo sofrimento de quem amam e pelo eventual roubo dessa presença nas suas vidas...
Saber que o ser humano é apenas um número e nada mais...
Espero que a vossa consciência vos grite aos ouvidos até ao final das vossas vidas.
domingo, janeiro 10, 2010
Wild Thing

Lembrou-me todas as minhas brincadeiras de infância. Todas as aventuras imaginadas na minha cabeça que se passavam no espaço das quatro paredes do meu quarto. Lembrou-me as minhas correrias pelos corredores de casa, a fugir de monstros terríveis ou a perseguir extraterrestres não muito amigáveis com a minha arma de raios laser. Lembrou-me tudo aquilo que, de certa forma, tornou a minha infância tão feliz. E lembrou-me ainda como vivemos com o coração ao pé da boca, quando somos crianças. Como deixamos que as emoções nos invadam e nos deixemos inundar pela alegria, pela tristeza, pela revolta, pela solidão, pelo facto de sermos ainda pequenos e ninguém querer saber a nossa opinião. E, lá está, de como no fundo todos nós temos dentro de nós todos aqueles monstros, os bons e os menos bons. E de como podemos ser todos eles, sendo sempre nós próprios. Gostei, claro.
(Não é o melhor filme do Spike Jonze, mas mantém o nível de excelente criador de ideias cinematográficas.)
sexta-feira, janeiro 08, 2010
Liberdade
Fez esta semana dois anos que escrevi esta pequena estória.
Hoje é dia de arco-íris. Sem chuva. Sem hipocrisia.
Hoje é dia de arco-íris. Sem chuva. Sem hipocrisia.
quinta-feira, janeiro 07, 2010
"Queima o sangue um fogo de desejo,
De desejo a alma é ferida,
Dá-me os teus lábios: o teu beijo
É o meu vinho e minha mirra.
Reclina para mim a cabeça
Ternamente, faz que eu durma
Sereno até que sopre um dia alegre
E se dissipe a névoa nocturna."
De desejo a alma é ferida,
Dá-me os teus lábios: o teu beijo
É o meu vinho e minha mirra.
Reclina para mim a cabeça
Ternamente, faz que eu durma
Sereno até que sopre um dia alegre
E se dissipe a névoa nocturna."
Aleksandr Púchkin
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