sábado, janeiro 16, 2016

MMP

Hoje, na rádio, alguém dizia que a música portuguesa era reconhecida, a nível internacional, como da mais original que era feita actualmente.
Subscrevo completamente.
Bem hajam.


No Ar

 

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Campanha

Descer a rua, sem pressas, sem chuva. Constatar que nos últimos quinze dias não houve lojas a fecharem, o que é um bom sinal. Cumprimentar um nativo aqui, cumprimentar um nativo acolá. Constatar que, mesmo depois de uma semana e meia de chuva, nuvens escuras e frio, a boa disposição desta gente continua a não ter igual. Virar a esquina e sentar-me no local do costume. Abrir a leitura, beber um líquido que aqueça as entranhas, ouvir a excelente banda sonora do costume, com os sorrisos femininos que aquecem um coração solitário. Ouvir, sem querer, conversas alheias que se podiam passar em qualquer ponto deste país. Ver o Sol a cair por trás da Serra da Penha, como tantas outras vezes antes do dia de hoje. Voltar à rua e descê-la mais um pouco. Beber um café além, apenas para meter cinco minutos de conversa com aquele senhor simpático que, ainda por cima, tem um gosto musical impecável. O sítio está diferente, com muita pena minha, mais parecido com um normal café, muito menos parecido com aquele paraíso passado, de doces pecaminosos, tisanas reconfortantes e outras bebidas mais adultas. Enfim, é o preço do presente, extraordinaria e infelizmente formatado e sem espaço para os originais. Um até outro dia, um passou-bem, e de volta ao exterior. Não poder deixar de entrar na livraria e ficar mais uma e outra vez maravilhado com as estantes, com o cheiro dos livros, com toda a profusão de palavras espalhadas por milhões e milhões de páginas. Hoje há inventário, não há tempo para conversas, é pena. Eu também estou meio distraído, nada compro, o que não é necessariamente mau, tendo em conta a mesa de cabeceira lá de casa. Deixo-os a contar livros e mais livros, sei bem o que isso custa. Estou quase no fundo da rua, a desembocar no largo das lojas do chinês, uma ao lado da outra e ao lado de mais uma. Até me admira que ainda não haja resmas de fatos de carnaval à venda, e outras coisas que tais. Ao menos já retiraram as decorações de natal, stock guardado no armazém que isto agora é um tirinho até estarmos em novembro novamente. Os velhotes devem rir-se imenso a ver estas movimentações consumistas, sentados lado a lado nos seus bancos cobertos de um plátano que não tem fim, ainda que com canadianas. Mas há uma movimentação anormal hoje. Mais pessoas do que é costume. Mais câmaras de televisão do que é costume. Há por ali um candidato presidencial. Ou melhor, o candidato presidencial. Parece que já passou por todo o lado da cidade, já cumprimentou meio mundo, já beijou não sei quantos bebés, já abraçou todos os residentes da santa casa da misericórdia, já deixou mais uns soundbytes para todos os telejornais de logo à noite. Vem na minha direcção, parece que quer cumprimentar mais alguém antes de se ir embora e nunca mais cá voltar. Estende a mão. Dou-lhe um soco em cheio na face esquerda, deixando-o por terra perante o olhar atónito de todos os seus apoiantes. Afinal, o dia de folga acabou por correr muito melhor do que eu estava à espera.


segunda-feira, janeiro 11, 2016

Uma estrela que nos deixa





E o verdadeiro Starman lá nos deixou, orfãos da sua genialidade e imaginação musical, e rumou sem destino pelo meio das estrelas, sem medo de as deixar pálidas e sem luz ao verem a sua figura esguia e deslumbrante a aproximar-se... E é "apenas" isto que me vem à cabeça, um pequeno raio de esperança perante o facto de ver partir mais um dos meus heróis musicais. Nada é eterno nesta breve vida, mas há aqueles que mereciam acompanhar-nos a vida inteira, estando sempre lá para o que desse e viesse. Ficam as músicas, os acordes inesquecíveis, as letras tão geniais como obscuras, mas que tinham o condão de "mexer" connosco e atingir-nos directamente no coração. Que tenhas uma longa vida entre as estrelas, meu caro!






sexta-feira, janeiro 08, 2016

Inception Day



Por outras palavras, o futuro foi já ali.
Ou, como diria outro brilhante personagem de ficção, estamos a ficar demasiado velhos para esta m...


quarta-feira, janeiro 06, 2016

Novo ano

E continua-se em frente.
Mais 365 dias que ficam para trás e que se tornaram passado.
Olhemos para o presente, esqueçamos a chuva e frio e procuremos o quentinho das boas amizades que nos aquecem o coração e a alma.
E, já agora, comecemos o ano a ouvir e a ler sobre um dos momentos mais belos da música.





quarta-feira, dezembro 30, 2015

vi, ouvi e li

2046, wong kar wai
the thin red line, terrence malick
20 000 days on earth, iain forsyth e jane pollard
the tale of princess kaguya, isao takahata
the wind rises, hayao miyazaki
the good lie, philippe falardeau
eternal sunshine of the spotless mind, michel gondry
perfect sense, david mackenzie
like someone in love, abbas kiarostami
the martian, ridley scott
monty python and the holly grail, terry gilliam e terry jones
paris je t'aime

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panda bear, panda bear meets the grim reaper
norberto lobo, fornalha
mirror people, voyager
sufjan stevens, carrie & lowell
moullinex, elsewhere
best youth, highway moon
beach house, depression cherry
benjamin clementine, at least for now
criolo, convoque seu buda
chantal acda, the sparkle in our flaws
ólafur arnalds & nils frahm, collaborative works
mogwai, central belters


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o meu amante de domingo, alexandra lucas coelho
as três vidas, joão tordo
o anjo esmeralda, don delillo
dália azul ouro negro, daniel metcalfe
que coisa são as nuvens, josé tolentino mendonça
2666, roberto bolaño
trigger warning, neil gaiman
uma gaivota com óculos, carlos pinhão
número zero, umberto eco
gente melancolicamente louca, teresa veiga
o que fazem mulheres, camilo castelo branco
flores, afonso cruz

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Enquanto o tempo é tempo

Amanhã é véspera de Natal. Altura de estarmos com quem gosta de nós e, no meu entender, lembrar quem costumava estar e agora já está do outro lado da vida. Não esquecer aquelas pessoas que nos marcaram, que deixaram a sua marca na nossa memória, que nos "cicatrizaram" no bom sentido. Sejamos como a lava petrificada, onde as marcas ficam, onde deixam a sua beleza gravada durante séculos e séculos. E, quem sabe, amanhã ficaremos com mais algumas marcas para recordarmos daqui a algumas décadas. Nunca é tarde para aumentarmos o espaço consagrado às boas recordações, momentos de alegria que ficam para todo o sempre. Feliz Natal para todos aqueles que por aqui passarem e lerem estas palavras que nascem ainda da esperança que é renovada todos os dias, esperança que haja paz.




quarta-feira, dezembro 09, 2015

14e Arrondissement

Faça-se um exercício de extrapolação.

Substitua-se a cidade e o país. Risquemos os cães. Passa a haver boa gastronomia. Mantenha-se a independência e as caminhadas. Saliente-se ainda mais as trocas constantes de idiomas. O "mudar de vida" é realmente levado a níveis ainda mais altos. Sem expectativas, com muitos pensamentos a vaguear cá dentro. Conheça-se muitas pessoas de uma simpatia inigualável. Também há cemitérios, também há pessoas que partem para sempre. Nada de tristezas, também a busca da partilha. Muitas paisagens de perder a respiração, muitos jardins pelos quais passear. E, se calhar, também houve um momento muito parecido com aquele. Sim, vivo. Sim, apaixonado.

É mais ou menos isto.





domingo, dezembro 06, 2015

Flores

"Segundo o padre, o pai do senhor Ulme dizia que o
Dia D fora anunciado pela rádio com um verso de Verlaine.
Era a maneira de todos saberem que o Dia D estava a
chegar. A poesia até para acabar com a guerra servia, era
isto que o pai do senhor Ulme anunciava antes de começar
a dizer um poema: «A poesia serve para acabar com a
atrocidade, é uma bala na cabeça do horror, é uma pedra
atirada contra este cenário de mau gosto, este mundo
que acreditamos ser a realidade.» Obrigava toda a aldeia
a ouvir poesia, ele próprio reunia os habitantes, como
um verdadeiro pastor, juntava-os debaixo da varanda e
havia sempre mais gente a ouvir poemas do que a assistir
à missa ao domingo de manhã. Aliás, isso é algo que o
padre não consegue ainda perdoar, passados tantos anos,
nem ao pai do senhor Ulme nem aos habitantes da aldeia.
Ninguém ligava nenhuma aos poemas, é certo, mas a força
do hábito criou raízes, a força do hábito vivia no campo,
fez como fazem as árvores. Não gostando de poesia, como
é que a preferiam aos sacramentos? Não lhes perdoo."

Afonso Cruz


quarta-feira, novembro 25, 2015

Folk Nocturne

"Nós habitámos o tempo dos grandes fogos e o tempo da colheita,
olhámos tudo de nossa janela e muitas vezes corremos para entrar
nos campos, vimos centelhas perseguindo-nos pelas costas e pelas
barreiras laterais do corredor das chamas, algumas das centelhas
ficaram presas a nossas camisas, fomos de fogo, corremos para a
água para acalmar a nossa ferida. Certas feridas se transformaram
nas cicatrizes mágicas que nos sustentam até hoje. Vimos as larvas
desenvolverem-se no chão e algum caruncho comer nossos móveis,
foi assim que ganhámos consciência da constante mudança das coi-
sas. Nossos corpos mudavam tanto quanto as coisas. Perdemos pai
e mãe em nossa casa, perdemos a vontade e nos fizemos ao espaço
novo, fomos contra espelhos só para ver se doía e só para ver se a
sorte vinha, a sorte nunca veio, mentira, a sorte demorou a vir mas
veio nalgum dia. E depois se desfez de novo."

Matilde Campilho

   

Catarse

ca.tar.se [kɐˈtarz(ə)
 
nome feminino

1. purificação emocional
2. LITERATURA (Aristóteles) purgação das paixões do público em face das emoções fortes (horror, piedade, etc.) evocadas numa tragédia
3. (Antiguidade) cerimónias religiosas de purificação
4. PSICOLOGIA terapêutica psicanalítica que pretende o desaparecimento de sintomas pela exteriorização verbal, dramática, emocional de traumatismos recalcados
5. MEDICINA evacuação

(in Infopédia)


ou, como se poderia traduzir por aqui, escrita. muita escrita.

 

triste

Invariavelmente, num dia como o de hoje, é impossível não pensar em algo que não seja a mortalidade das coisas. Como, de uma maneira ou de outra, tudo o que nos rodeia seja finito, tenha os dias contados. Pode demorar uns minutos, alguns dias, muitos anos, décadas, mesmo séculos, mas nada impede o avançar do tempo e o aproximar do fim inevitável. E é este o pensamento que me atravessa quando recebo uma notícia tão triste como a de hoje. Por muito que tente afastá-lo da minha mente, tal qual um parasita que se instala, todas as imagens, todas as sinápses vão dar ao mesmo. Tento distrair-me, ler um livro, ouvir música, sair para a rua e caminhar sem destino, mas a minha alma continua a ser invadida por imagens agora agridoces, perdidas no tempo e com todo um novo significado. Recordações de quando nos conhecemos, da alegria da nossa amizade, dos momentos bons que passámos e que ficaram registados em fotografias de papel mate, dos momentos menos bons que passámos, das pessoas que amámos e que nos deixaram, das pessoas que continuamos a amar e que vimos quase à beira do abismo, de como ainda nos mantínhamos em contacto mesmo se a vida decidiu afastar-nos um pouco nesta grande bola azul a que chamamos Terra. Todas essas recordações regressam agora aos meus olhos, que ficam turvos perante a forma como tudo acabou. A morte é algo que já não me assusta, já passei por muita coisa, muita dor, muita tristeza, mas há um sentimento de aceitação que agora existe em mim, o tal fim anunciado ao qual nenhum de nós consegue fugir. Isso está há muito cá dentro. Agora, a forma como tal acontece e o momento, isso sim continua a deixar-me perdido, abandonado no meio de um terrível labirinto que teima em manter-me fechado claustrofobicamente. E é assim que hoje que me sinto, com dificuldade em respirar, com dificuldade em ver a luz, mesmo com o sol a brilhar intensamente, com muita dificuldade em compreender a razão que possa haver por trás de semelhante tragédia. Gostava de tentar perceber mais o ser humano e a sua consciência. Gostava de perceber os seus meandros, os seus cantos mais escuros. Gostava de tentar arranjar algum sentido para aquilo que aqui andamos a fazer. Se realmente valeu a pena a evolução fantástica do ser humano. Se pode haver algo que equilibre os sentimentos de dor, de angústia, de ausência, de tristeza. Se a memória vai realmente perdurar, ou se daqui a um ano a nossa mente já virou a esquina, e são poucas ou nenhumas as gavetas que dispensou para aquilo que sinto hoje. Gostava tanto de saber tudo isto e muito mais. Mas também sei que trocava todos estes desejos de bom grado, se isso significasse não ter recebido aquele telefonema, se isso significasse que ainda estavas aqui, connosco, junto das pessoas que te amavam e que te queriam tanto bem. Se ao menos a vida fosse regida por estes sentimentos, poderia ser que, ao menos por um breve instante, a vida fosse realmente iluminada, assim como tu a iluminaste para quem te conheceu. Que a tua alma esteja feliz. Que a tua alma seja o raio de sol que entra neste preciso momento pela janela, enquanto escrevo estas palavras e algumas lágrimas correm pela minha face.


segunda-feira, novembro 09, 2015

De uma beleza imensa.



Por mim partia outra vez para lá já amanhã.
E, fica a prova, é mesmo na Terra e não na Lua.


quinta-feira, outubro 08, 2015

A Noite e a Madrugada

    "Raia de Espanha. Serranias azuis e violentas que se ama-
ciam subitamente em olivais, campinas de trigo, planaltos de
terra vermelha. Caminhos de estevas, de fragas, onde o perigo
sai dos barrancos e dos muros, ou caminhos melancolicamente
guarnecidos de plátanos, abrindo clareiras na mata de pinheiros
mansos, de um verde calmo e opulento, onde se escondem os
celeiros das companhias agrícolas. Mas antes de os ganhões
desempregados e os contrabandistas de profissão chegarem a
essas terras têm de atravessar os baldios do seu país. Para
cá das faldas desabrigadas, com o rio Erges esmagado entre
muralhas de granito, o casario nasce dos moinhos afogados nas
enxurradas, sobe penosamente as margens das ribeiras, aga-
cha-se à sombra das rochas e espraia-se por fim em aldeolas
mesquinhas. Depois vem a planície, triste como um descampado,
devassada pelo vento de Espanha, que satura o ar de poeira
e solidão. Planície nua, crestada pelo sol, que amadura as infin-
dáveis searas de trigo."

Fernando Namora

 

quarta-feira, outubro 07, 2015

primus inter pares

Tantos e tantos anos sem entrar naquela casa. Apenas passava ao largo. E, no entanto, havia uma enorme vontade de voltar a passar aquelas portas e perceber se a memória continuava a guardar alguma coisa dos tempos passados entre aquelas quatro paredes. Foi preciso acordar cedo, enfrentar a chuva e ir ao seu encontro. Lá dentro, a casa continua exactamente como me lembrava. As colunas, o chão, os azulejos, os vidros, nada mudou. Está tudo bem conservado e parece que voltei décadas no tempo. Aqui e ali, pequenos recantos onde tantas estórias houve, onde tantas amizades nasceram. Mal consigo prestar atenção às palavras e canções que se ouvem ao meu redor, prefiro olhar para ali e para além e deixar a minha mente vaguear por todas as recordações que aquele espaço evoca. Mas a nostalgia vai-se dissipando e lentamente regresso ao presente e vou começando a ouvir as palavra que me chegam da outra ponta da casa. E aí sou atingido pela verdadeira mudança que está ali a acontecer. Ouço palavras que nunca ouvi, palavras que me tratam como o adulto que sou, que não condescendentes e que são realmente deste tempo. Definitivamente parece que o futuro desta casa vai ser diferente, não vai esquecer o seu passado mas parece que vai haver mãos para não deixar a casa morrer, não a deixar eternamente no passado. E fico satisfeito, sorrio e fico deveras surpreendido com tudo isto. Mas, repito, fico satisfeito que assim seja. Talvez que não vá ficar novamente tantos anos sem voltar a entrar aqui. Se este for o caminho, sem dúvida que podem contar comigo. E já era tempo de deixar entrar novos ares por aquela porta. Como se costuma dizer, aguardo com muita expectativa os próximos episódios. Bem hajam.


"Nascemos nus, húmidos e com fome. Depois a coisa piora."

 

quinta-feira, outubro 01, 2015

à distância

"Sei agora o que nunca soube - que o amor encontra o seu estado mais puro quando julgamos que o fim chegou; finalmente entendo que o amor pode ser precisamente essa ausência, o deixar de estar, ser capaz de apreciar cada minuto da nossa memória como se segurássemos, entre as mãos, um punhado de brasas num deserto de gelo."


João Tordo


 

sexta-feira, setembro 18, 2015

Sector terciário

As pessoas andam demasiado nervosas, agitadas. Sempre com pressa, sempre com muita pouca paciência, sempre a quererem estar debaixo dos holofotes, à frente e acima de todos. Determinadas em terem o que querem, quando querem e nas condições que lhes interessam e apenas a si. Se for preciso mandar uns berros, insultar alguém, tratar alguém como se fosse menos que eles, pois que seja. Houve ali um olhar impertinente? Mostre-se os dentes, levantem-se as sobrancelhas, grite-se do mais alto que os pulmões tiverem para oferecer. De uma simples palavra dita sem qualquer tipo de má intenção, faça-se todo um filme onde a sua importante pessoa tenha sofrido o mais grave dos ultrajes e humilhe-se até à exaustão o pobre ser que está do outro lado. Mas o que é isto? Como é que chegámos a este ponto? Como é que deixámos que a nossa humanidade pudesse passar a ser definida por títulos, ou bens, ou mesmo credos políticos, religiosos, nacionalistas ou mesmo desportivos? Toda a educação vai por água abaixo só porque não mereci toda a atenção do outro. Manifestemos toda a raiva e frustração que temos dentro de nós contra o primeiro pobre diabo que nos apareça pela frente e que apenas tentou ajudar a resolver um problema que afinal era apenas um pretexto para o "combate". E depois fica o sentimento de angústia e, no pior dos casos, a incerteza que fica a morar na mente de quem apenas tentou fazer o seu trabalho o melhor que pode e sabe. Mas para lá de tudo isso, fica a tristeza. O sentimento de que é triste haverem pessoas assim a atravessarem-se pelo nosso caminho, como um tsunami com consciência, apostado em submergir tudo aquilo que nos define. Tristeza.

quinta-feira, setembro 17, 2015

O verdadeiro alentejano

De que é que se conversa com alguém que conhecemos há sensivelmente trinta e cinco anos e com quem já não estávamos há pelo menos quinze anos? De tudo e de nada. De namoros, casamento, divórcio e descendência. De caminhos profissionais tão diferentes e com tantos pontos de contacto que, ao descrevermos alguns eventos, deixamos um sorriso cúmplice nos lábios. De viagens a mundos distantes, de viagens a mundos ao virar da esquina, das idas do campo para a cidade e vice-versa, como se de um truque mágico se tratasse. Da família, sempre a família ao nosso lado e a apoiar-nos, das cumplicidades maternais que vão ainda mais longe do que as nossas vidas, até a um tempo em que ainda só existíamos enquanto ideia desejada. De como ao fim de uma frase regressamos à nossa infância, como se nada se tivesse passado, como se nunca tivéssemos saído daquela sala de aulas magnífica, que tantas alegrias, conhecimento e amizades nos trouxe, daquelas quatro paredes onde aprendemos muito mais do que matemática ou português ou os rios e as serras deste país, onde verdadeiramente aprendemos a ser seres verdadeiramente humanos, onde absorvemos tudo o que uma professora/cúmplice/mãe/amiga (e tantas palavras poderiam aqui ser colocadas, ad eternum) nos legou e nos deixou mais ricos enquanto pessoas de, na altura, de palmo e meio. E tantas vezes a sua memória foi evocada que quase, quase nos permitimos ficar com os olhos marejados. Ela, os nossos antigos colegas, aqueles que gostávamos de encontrar mais uma vez, aqueles que desapareceram já deste mundo, os que se encontram em parte incerta, até mesmo aqueles que se deixaram ir por uma espiral de dor e tristeza abaixo, quando mereciam muito mais desta vida madrasta. Mas não falámos só do passado, também pensámos no presente, no futuro, na superação de doenças malditas, na superação do flagelo do desemprego, naquelas pequenas coisas que tornam a nossa presença nesta terra um bem inestimável. Falámos, falámos, comemos, falámos, bebemos, e no fim aquilo que foram horas, pareceram breves minutos. Foi bom, meu amigo, foi muito bom. E o melhor de tudo é que ficámos com a completa certeza de que haverá mais em breve, mais conversa, mais memórias, mais angústias, mais partilhas, mais anseios para o que aí vem. E a melhor certeza de todas, é que não vai passar tanto tempo até à nossa próxima tertúlia. Aqui te deixo um enorme brinde à tua vida, à tua coragem, à nossa bonita amizade que merecia este recomeço.