terça-feira, junho 23, 2015

Um buraco no coração




(..."why do I fall in love with every woman I see who shows me the least bit of attention?")



segunda-feira, junho 22, 2015

domingo, junho 21, 2015

2666

" (...) quando é bem sabido, pensou Archimboldi, que a História, que é uma puta simples, não tem momentos determinantes, mas é sim uma proliferação de instantes, de brevidades que rivalizam entre si em monstruosidade."

Roberto Bolaño



segunda-feira, junho 15, 2015

Reclusão



A precisar de calor, Sol e luminosidade. Pelo menos, muito mais disto do que tem acontecido nos últimos dias. Caso contrário, ainda me arrisco a transformar numa batata de sofá...


sexta-feira, maio 22, 2015

Da memória que nos foge...

"A estação da Primavera vem todos os anos, não é? Mas a nossa não volta mais. A mocidade não volta mais. Acabou no fim!"



O Povo Que Ainda Canta



sexta-feira, maio 08, 2015

Para ti.

Meu irmão,
hoje cumpres mais uma Primavera. Que seja mais uma das muitas que te desejo, de preferência com a tua amizade como tem sido até aqui desde o momento em que nos conhecemos. E escrevo amizade quando devia escrever Amizade, pois há poucas pessoas neste mundo que me conheçam tão bem como tu. Temos estado juntos nos momentos bons, inesquecíveis, aqueles momentos que nos marcam para toda uma vida. E tem sido bom partilhá-los contigo. Mas também tens estado comigo nos momentos menos bons, naqueles que nos arrastam para o fundo escuro do poço, em que precisamos de uma mão amiga que nos puxe lá de baixo, que nos faça ver novamente a luz do Sol, a luz que deve invadir a nossa vida especialmente quando temos vontade de ficar nas trevas. E tu, meu irmão, tens estado sempre lá, quando preciso mais do teu abraço, da tua mão amiga, das tuas palavras que me empurram para a frente. Por isso, e porque não há prendas suficientes que se possam dar a quem queremos parabenizar com toda a felicidade do mundo, deixo-te estas pequenas palavras, de alguém que muito te admira, que quer continuar a ser teu amigo até andarmos de bengalas e andarilhos, e que quer sempre o teu bem, como se fôssemos realmente irmãos. Porque, não haja dúvidas quanto isso, és o melhor irmão quem alguém poderia ter. Seja aqui neste país pequenino mas tão grande, seja do outro lado do planeta no cimo de uma montanha com o vento na cara. Um grande, enorme abraço para ti.





sexta-feira, abril 24, 2015

o sal da vida

                                                       " (...) E elenca, então por
um processo de associação espontânea, aquilo de nós que não
vemos ou não chegamos a valorizar devidamente: perceções, peque-
nos prazeres, detalhes dolorosos ou alegres, momentos de humor,
curiosidades, lugares, flagrantes quotidianos. Deixo-vos com
alguns exemplos: assobiar com um fio de erva na boca; limpar
o prato com um bocado de pão; assistir a uma cavalgada num
western; saltar à corda que duas amigas fazem girar sempre mais
rapidamente; sentar-se com as próprias forças na cama de um
hospital; recordar-se já sem vergonha das imbecilidades que fize-
mos lá atrás; cair do pódio à frente de cem pessoas; dançar mara-
vilhosamente a valsa, mas também a rumba, o tango e o rock'n'roll;
passar uma noite em branco para ler até ao fim um romance;
escrever à mão; perder tempo a formular melhor uma ideia;
improvisar durante a semana um jantar de amigos; perder-se a
contemplar um formigueiro que ferve de atividade; não fazer de
conta que não se vê o sofrimento alheio; não conseguir recordar-se
da sequência de uma anedota, apesar de todo o esforço; preparar
uma mousse de chocolate seguindo a receita (cheia de manteiga)
herdada da avó; respirar devagar e de olhos fechados num prado;
amar as palavras, degustando a sua sonoridade; reencontrar no
armário o calçado de verão, quando ainda é inverno; pensar com
prazer nos encontros que nos mudaram a vida; ser feliz quando os
outros o são."

José Tolentino Mendonça

 

sexta-feira, abril 17, 2015

Fonte

VI

"Estás verdadeiramente deitada. É impossível gritar sobre esse abismo
onde rolam os cálices transparentes da primavera
de há vinte e dois anos. Quando aperto as pálpebras
ou descubro o teu nome como uma paisagem,
só há grutas virgens onde os candelabros se apagam.
Mãe, pouco resta de ti na exaltação do mundo. Às vezes
misturas-te um pouco nos terrores da noite ou olhas-me,
vertiginosa e triste, através
das palavras.

No outro lado da mesa estás inteiramente
morta. Parece que sorris de leve no meu
pensamento, mas sei que é apenas
a solidão espantada. Como pudeste morrer
tão violenta e fria,
quando os meus dedos começavam a agarrar-te
a cabeça inclinada dentro
das luzes? Não podes levantar-te dos retratos antigos
onde procuro afogar-me como uma criança
nocturna. E não atravessaremos juntos as cidades redentoras,
perdidos um no outro, sorrindo
como se estivéssemos debaixo de uma árvore inspirada e eterna.

Conheço algumas cidades da europa e a fantasia vagarosa
da cidade da minha infância.
Tu desapareceste. É um erro
das musas distraídas. Não há guindaste que te levante
do coração das águas
onde apodreceste envolvida no halo do teu amor invisível,
ou recolhida na tua carne rápida, ou
ligeiramente tocada pelo ardor
de uma existência pura. Conheço grandes casas
onde não habitas, flores que cheiro, tarefas
silenciosas que cumpro humildemente, e luzes,
instrumentos de música,
laranjas que devoro sentindo o gosto da vida desde a garganta
às mais finas raízes das vísceras. Tu
desapareceste.

Imagino que seria possível tocares porventura
a minha boca. Tocares-me tão viva ou tão misteriosamente
que eu estremecesse nas traves
da cega inspiração. Poderias estar vergada sobre os meus
ombros até que as lágrimas
na minha boca se confundissem com a ansiosa subtileza
dos teus dedos, e eu me sentisse
perdido entre os pilares e os túneis das cidades
ressoantes.

Depois talvez pudesses vir com o rosto um pouco coberto de poeira,
e os olhos delicados de mulher restituída,
e os pés brilhando sobre os caminhos do meu silêncio exaltado
- talvez
pudesses salvar-me como uma palavra pode
salvar um pensamento, ou uma
breve música pode acordar do abismo inocente
da noite
um instrumento encerrado nas cordas extenuadas."

Herberto Helder



sexta-feira, abril 10, 2015

domingo, abril 05, 2015

o amor em visita

"(...)

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

(...)"

Herberto Helder

 

quinta-feira, março 19, 2015

O Anjo Esmeralda

    "E o que é que recordamos, no fim de contas, quando
toda a gente voltou para casa e a centelha da devoção e da
esperança se apagou nas ruas varridas pelo vento ribeiri-
nho? A recordação é escassa e amarga e envergonha-nos
com a sua falsidade intrínseca - toda feita de subtis cam-
biantes, mera silhueta saudosa? Ou o poder da transcendên-
cia perdura, a perceção de um acontecimento que viola as
forças naturais, uma coisa sagrada que pulsa no horizonte
abrasado, a visão que desejamos ardentemente porque pre-
cisamos de um sinal que erga contra as nossas dúvidas?"

Don DeLillo



 (raios parta este gajo, de tão bem que escreve. quem me dera um bocadinho que fosse.)




domingo, março 15, 2015

Life is a second of love


Com os sapatos vermelhos, ela apareceu, cantou, tocou, encantou e mostrou que não é preciso haver grandes artifícios para se ser um talento bem importante na nossa música. Foi muito bom ouvir as músicas antigas mas melhor ainda foi ouvir as novas e comoventes músicas novas. E aquela versão da Joni Mitchell foi qualquer coisa de sublime... Foi óptimo sair de casa e ir ao encontro da Rita, aplaudi-la como se a sala estivesse realmente cheia. Sinais do tempos que correm, como ela própria lembrou muito ao de leve. Bem haja, menina dos sapatos vermelhos, mesmo com um salto partido.


terça-feira, março 03, 2015

M

“Porque tinha sal em minhas pestanas, porque existe um salmão dourado onde o amor sempre dança, porque a ideia de ir até o mar de metrô era a oração que nos fazia ficar acordados até de manhã, porque há um osso se estilhaçando constantemente dentro das paredes mestras e nós já sabíamos isso, porque a paixão não é de todo a coisa mais importante mas é sim o canudinho através do qual dá para ver que o mundo é muito feito de construções de papel — celulose que vem da árvore e que depois se transforma em lista telefônica de onde alguém arranca a página e logo transforma em veleiros e montanhas. Talvez porque na porta do restaurante habitual alguém toca clarinete ao sol, porque até as ruínas podemos amar nesta cidade, porque eu tenho um olho em você e você um dedo em mim (...)”

Matilde Campilho

 

segunda-feira, março 02, 2015

Da música. Das palavras. Do amor.

Já passaram quase três anos. Quase três anos que o Bernardo se "juntou às estrelas", como diz o Carlos Martins. Quase três anos que este pequeno país ficou musicalmente, humanamente mais pobre, mais cinzento, com menos luz no meio de nós. Valha-nos a memória, os discos, a presença em ondas sonoras de quem nos faz muita, muita falta.



E valha-nos também o novo disco de Carlos Martins. Uma homenagem bonita, sincera, despida de outros conceitos que não seja celebrar a vida, a música, o homem que Bernardo foi e ainda é nos corações de quem não se cansava de o ver, curvado sobre o piano, intensamente tocando e tirando notas de porcelana daquelas teclas que os seus dedos percorriam sem se cansarem. Valha-nos a música. Valha-nos as palavras que o próprio Carlos escreveu para este disco, que nos deixam com os olhos turvos, à beira das lágrimas, mas ainda assim com um leve sorriso, um sorriso por haver amizades assim, eternas e feitas de muito amor.



A primeira música deste disco, Caminho da Manhã, cujo título se inspira num texto lindíssimo, uma oração de Sophia, estava a ser escrito quando na noite de 10 de Maio de 2012 o Zé Pedro me ligou a perguntar se tinha estado ou sabia onde estava o Bernardo Sassetti. Menos de uma semana antes tínhamos almoçado, eu e o Bernardo, e tínhamos combinado fazer um CD “espiritual” cheio de silêncios e contemplação, e eu sabendo da sua capacidade de produção tinha resolvido começar nesse dia. Depois desse telefonema ainda consegui rever alguns acordes que me soavam já distantes mas não consegui trabalhar mais. Aquela ausência já estava dentro de mim, tal como a esperança de que nada de mal tivesse acontecido, e na verdade já tudo tinha acontecido. Essa ausência, gosto do nome em inglês, Absence, haveria afinal de se confirmar e de se tornar no golpe mais fundo na minha alma depois da morte dos meus pais. Durou até agora o silêncio que me alagou o espírito e a vida. Este disco é uma libertação e uma dedicatória de amor ao Bernardo e ao seu inspirador talento como homem e artista: Absence são as minhas saudades tuas e o cumprir da promessa de gravarmos algo que poderia ter uma forma assim de silêncio e contemplação. E por ironia do destino entras ainda a tocar neste disco e fazes no fim da última faixa, com a divina graça que te sorria, uma referência às “estrelas” onde agora habitas. No resto das canções eu, o Alexandre, o Carlos e o Mário ainda te ouvimos enquanto fazíamos os arranjos ou gravávamos em estúdio. De resto oiço-te quase todos os dias…quer se trate de “um assunto muito sério” ou a dizer: “Tá Boa”!





Há quantos dias estamos aqui? Quantos dias nos restam?



"Mostly I write, tapping and scratching away, day and night sometimes. But if I ever stop for long enough
to question what I'm actually doing, the why of it, well, I couldn't really tell you. I don't know. It's a world I'm creating... ...a world full of monsters and heroes, good guys and bad guys. It's an absurd, crazy, violent world... where people rage away and God actually exists. And the more I write, the more detailed and elaborate the world becomes and all the characters that live and die or just fade away, they're just crooked versions of myself. Anyway, for me, it all begins in here in the most tiniest of ways."


terça-feira, fevereiro 17, 2015

Eu sou gengibre

"Toda a paixão é um ataque ao sistema imunitário. Se
precisamos dela para viver, mais precisamos que ela
acalme, ou seja, acabe, para continuarmos vivos. A ami-
zade é o contrário, um estoque ilimitado de gengibre."

Alexandra Lucas Coelho


 

domingo, fevereiro 15, 2015

A luz entra na nossa escuridão, sem pedir licença



"This great evil, where's it come from? How'd it steal into the world? What seed, what root did it grow from? Who's doing this? Who's killing us, robbing us of life and light, mocking us with the sight of what we might've known? Does our ruin benefit the earth, does it help the grass to grow, the sun to shine? Is this darkness in you, too? Have you passed through this night?"