quinta-feira, janeiro 15, 2015

Wishful thinking

Vivemos com um défice de heróis.
Pessoas que possamos admirar, livres de quaisquer dúvidas sobre eles, sobre a sua personalidade, sobre a sua conduta. Precisamos desesperadamente de pessoas assim, que nos possam acordar da nossa inércia, do nosso sonambulismo quotidiano.
Será que vamos ficar eternamente a olhar para os heróis do passado, resignados a suspirar por um tempo onde alguém se levantava contra a injustiça, contra a falta de humanidade, contra a tirania e os déspotas?
Desejo que assim não aconteça.
Mas, tenho de admitir, a minha bitola será sempre alta, meus senhores e senhoras.
Herói não é quem quer. É quem não deseja esse reconhecimento, mesmo sendo a sua perfeita imagem.




(a dobrar, depois de quase uma eternidade...)


quarta-feira, janeiro 14, 2015

Sejamos nuvens

"Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis..."

José Gomes Ferreira

 

segunda-feira, janeiro 12, 2015

Intimidade

in.ti.mi.da.de [ĩtimiˈdad(ə)]

nome feminino

1. qualidade de íntimo; familiaridade
2. relações íntimas
3. vida íntima; privacidade
4. interioridade
5. qualidade do que proporciona bem-estar e privacidade

 (in Infopédia)

 

domingo, janeiro 11, 2015

Com amor,

Gaspar gostava de escrever dedicatórias. Era incapaz de oferecer um livro, a sua prenda de eleição, sem que houvessem umas palavras suas por ali escritas. Um pequena intromissão nas grandes histórias que tinha em prazer em oferecer a quem gostava. A culpa seria do seu Tio Tomás, o principal mecenas da sua biblioteca privada. Não sabia quantas centenas de livros lhe teria oferecido o Tio Tomás ao longo da sua vida. Desde os primeiros livros de aventuras que ele lhe tinha oferecido, mal soube que ele já dominava o alfabeto, até aos livros das grandes questões da humanidade que lhe foi oferecendo à medida que crescia idade adulta dentro. Partilhavam a mesma paixão pela leitura e isso sempre tinha feito deles cúmplices e amigos íntimos. Havia apenas uma constante do primeiro ao último livro, as palavras escritas do Tio Tomás na primeira ou segunda página em branco, onde podia deixar o seu próprio prefácio personalizado ao seu sobrinho. De "meu pequenino Gaspar", passando por "meu querido sobrinho", até "meu sobrinho amigo", havia sempre algo novo para o Tio Tomás lhe ensinar, através dos seus pequenos escritos, bem como das histórias que lhe seguiam, fossem elas de Verne, de Torga, de Roth, de Saramago, de Clarke, ou de qualquer um dos seus escritores predilectos. Assim, tornou-se apenas natural que Gaspar passasse também ele a escrever dedicatórias nos livros que oferecia a familiares, amigos, namoradas, colegas. Eram sempre palavras do momento, nada planeado, tudo vindo da sua mente e do seu coração especialmente dirigido à pessoa a quem estava a oferecer o livro. Se calhar, também tinha sido por aí que tinha conquistado Teresa. Pelas suas palavras sinceras, arrebatadas pelo amor que sentia por Teresa. Ela também gostava muito de lert, ainda que não "devorasse" livros da forma como Gaspar fazia. Mas o que ela realmente gostava era de descobrir os livros que Gaspar lhe oferecia, ao mesmo tempo que estremecia de ansiedade para ver que palavras teria escrito Gaspar dessa vez. E não tardou muito que Teresa se enamorasse por Gaspar e pelas suas dedicatórias. E estas passaram de um ainda tímido "amiga Teresa" para um já consumado "minha Teresa". Gaspar mostrava o seu amor todos os dias, mas colocava esse amor ainda mais emocionadamente nas palavras escritas nos livros que lhe dedicava. E antes de mergulhar no enredo do livro, Teresa lia e relia e relia as palavras de Gaspar, como as bonitas declarações de amor que eram, apenas e só para ela. E foi assim que a sua estante foi crescendo com o seu amor, livros e sentimentos partilhados numa vida a dois que ainda hoje continua.

Como é que eu sei isto tudo? Porque, no outro dia a Teresa emprestou-me um dos seus livros e pude ler as palavras escritas pelo Gaspar há quase dez anos, e percebi finalmente o amor que vejo entre os dois sempre que tenho prazer de estar com eles. Obrigado, meus queridos amigos. E que as dedicatórias do Gaspar à Teresa durem por muitos e muitos anos.


sábado, janeiro 10, 2015

31 anos depois...

As memórias são, quase sempre, um perigoso analgésico. Mais vale deixar o tempo correr como sempre correu, os seus grãos de areia a escaparem lentamente por entre os dedos das nossas mãos, de forma inevitável e implacavelmente.




"Love is all a matter of timing.
It's no good meeting the right person too soon or too late." 


sexta-feira, janeiro 09, 2015

Sol para 2015



Parece-me um desejo perfeitamente justificado.
Mesmo para quem teima em escrever demasiado pouco para ainda manter o tasco aberto.
Um bom 2015 para quem está desse lado.


quarta-feira, dezembro 31, 2014

Amanhã é já ali

     "É o último dia do ano, os homens pensam no que aconteceu
ensaiando balanços de dinheiro, amores, sucessos e também fra-
cassos. São poucos os que se alegram, maior a ânsia, imensa a espera.
     Alguns imaginam vidas de caminho, atrás do que lhes falta,
como se o futuro fosse lugar e a felicidade um pouco de terra
que os pés pudessem pisar. Carregam a vida como a um cavalo
cansado que tem de andar sempre, à força de esporas e maus
tratos, à força de sonhos já muito sonhados.
     Só o presente é lugar, e fica aqui, no ponto exacto em que as
memórias se sublimam em desejos."

Nuno Camarneiro


terça-feira, dezembro 30, 2014

vi, ouvi e li

gravity, alfonso cuarón
the desolation of smaug, peter jackson
wild at heart, david lynch
grand budapest hotel, wes anderson
hunger, steve mcqueen
12 years a slave, steve mcqueen
o congresso, ari folman
paradise now, hany abu-assad
the maltese falcon, john huston
gone girl, david fincher
uivo, eduardo morais
paris, texas, wim wenders

.......................................................................

flora, moullinex
emmaar, tinariwen
a bunch of meninos, dead combo
artificial sweeteners, fujiya & miyagi
i never learn, lykke li
things are really great here, sort of..., andrew bird
familiars, the antlers
pelo meu relógio são horas de matar, mão morta
popular problems, leonard cohen
legao, erlend øye
banda do mar, banda do mar
diabo na cruz, diabo na cruz

.......................................................................

claraboia, josé saramago
o pintor debaixo do lava-loiças, afonso cruz
o hipopótamo de deus, josé tolentino mendonça
e a noite roda, alexandra lucas coelho
o deus das moscas, william golding
slaughterhouse 5, kurt vonnegut
all the pretty horses, cormac mccarthy
the hundred-year-old man who climbed out of the window and disappeared, jonas jonasson
the perks of being a wallflower, stephen chbosky
o livro da consciência, antónio damásio
o tempo morto é um bom lugar, manuel jorge marmelo
william shakespeare's star wars, ian doescher


quarta-feira, dezembro 24, 2014

desejos de Natal

     "E ao ouvir os sonhos de Tuahir, com os ruídos
da guerra por trás, ele vai pensando: «não inventa-
ram ainda uma pólvora suave, maneirosa, capaz de
explodir os homens sem lhes matar. Uma pólvora
que, em avessos serviços, gerasse mais vida. E do
homem explodido nascessem os infinitos homens
que lhes estão por dentro»."

Mia Couto

 

domingo, dezembro 21, 2014

Report from a besieged city

"Too old to carry arms and to fight like others—

they generously assigned to me the inferior role of a chronicler
I record—not knowing for whom—the history of the siege

I have to be precise but I don't know when the invasion began
two hundred years ago in December in autumn perhaps yesterday
     at dawn
here everybody is losing the sense of time

we were left with the place an attachment to the place
still we keep ruins of temples phantoms of gardens of houses
if we were to lose the ruins we would be left with nothing

I write as I can in the rhythm of unending weeks
monday: storehouses are empty a rat is now a unit of currency
tuesday: the mayor is killed by unknown assailants
wednesday: talks of armistice the enemy interned our envoys
we don't know where they are being kept i.e. tortured
thursday: after a stormy meeting the majority voted down
the motion of spice merchants on unconditional surrender
friday: the onset of plague saturday: the suicide of
N.N., the most steadfast defender sunday: no water we repulsed
the attack at the eastern gate named the Gate of the Alliance

I know all this is monotonous nobody would care

I avoid comments keep emotions under control describe facts
they say facts only are valued on foreign markets
but with a certain pride I wish to convey to the world
thanks to the war we raised a new species of children
our children don't like fairy tales they play killing
day and night they dream of soup bread bones
exactly like dogs and cats

in the evening I like to wander in the confines of the City
along the frontiers of our uncertain freedom
I look from above on the multitude of armies on their lights
I listen to the din of drums to barbaric shrieks
it's incredible that the City is still resisting
the seige has been long the foes must replace each other
they have nothing in common except a desire to destroy us
the Goths the Tartars the Swedes the Emperor's troops regiments of
                       Our Lord's Transfiguration
who could count them
colors of banners change as does the forest on the horizon
from the bird's delicate yellow in the spring through the green the red
                       to the winter black

and so in the evening freed from facts I am able to give thought
to bygone far away matters for instance to our
allies overseas I know they feel true compassion
they send us flour sacks of comfort lard and good counsel
without even realizing that we were betrayed by their fathers
our former allies from the time of the second Apocalypse
their sons are not guilty they deserve our gratitude we are so grateful
they have never lived through the eternity of a siege
those marked by misfortune are always alone
Dalai Lama's defenders Kurds Afghan mountaineers

now as I write these words proponents of compromise
have won a slightly advantage over the part of the dauntless
usual shifts of mood our fate is still in the balance

cemeteries grow larger the number of defenders shrinks
but the defense continues and will last to the end
and even if the City falls and one of us survives
he will carry the City inside him on the roads of exile
he will be the City

we look at the face of hunger the face of fire the face of death
and the worst of them all—the face of treason

and only our dreams have not been humiliated"

Zbigniew Herbert



quarta-feira, dezembro 17, 2014

Terra Sonâmbula

        "Quero pôr os tempos, em sua mansa ordem,
conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças
desobedecem, entre a vontade de serem nada e o
gosto de me roubarem do presente. Acendo a estória,
me apago a mim. No fim destes escritos, serei de
novo uma sombra sem voz."

Mia Couto

 

segunda-feira, dezembro 08, 2014

Um buraco no coração



(... ou como apenas nos apercebemos do frio da noite quando ele nos atinge o coração...)


sábado, novembro 22, 2014

O Tempo Morto É Um Bom Lugar

                                                            "Massagem subdér-
mica. Mesoterapia. Drenagem linfática. Termossudação. Pe-
eling. Branqueamento dentário. Modelação da silhueta. Body
pump. Talassoterapia. Pilates. Hidromassagem. Sauna. Que-
enax. Termodepilação. Fotodepilação com luz pulsada. Radio-
frequência tripolar. Pressoterapia. Bodyshape. Auriculoterapia.
Shiatsu. Cavitação. Epilação a laser de diodo. Pedicuro e ma-
nicure. Bikini waxing. Tudo praticamente de um dia para o
outro e sem pausa nenhuma (...)"

Manuel Jorge Marmelo



(Claramente nunca serei um famoso da reality tv. Ou então estou a precisar de um dicionário novo...)

segunda-feira, novembro 10, 2014

Uivo



Para uma imensa minoria, haverá sempre a saudade e a felicidade de recordar um tempo em que ouvíamos a voz do Mestre a indicar-nos o caminho da música que abria a nossa alma ao mundo. Uivo é uma bonita homenagem e recordação do que este homem significou para toda essa imensa minoria. Seja a que hora for e em que delta for, vão ver e prestem o vosso carinho ao verdadeiro Lobo.


quinta-feira, outubro 30, 2014

Alabardas

         "Boas noites, Boas noites. Dez
minutos depois o telefone de artur paz se-
medo tocou. Era felícia, Não procures en-
comendas assinadas pelo general franco,
não as encontrarias, os ditadores só usam
a caneta para assinar condenações à morte. E desli-
gou antes de que ele pudesse responder."

José Saramago


 

terça-feira, outubro 28, 2014

What...


"What are you thinking? What are you feeling? What have we done to each other? What will we do?"

 

segunda-feira, outubro 13, 2014

segunda-feira, outubro 06, 2014

Subi as escadas. Degrau a degrau, enfrentando a quase total escuridão apenas quebrada pela claridade invasora vinda das janelas. Vejo as teias de aranha, nos cantos e recantos das salas. O pó acumulado de um ano sobre as pastas, as mesas, as cadeiras. Um ano sem vivalma entrar naqueles espaços. Aqui e ali pequenos vestígios da presença humana. Uma garrafa de água, ainda com algum líquido, a tampa logo ao lado, repousando ao pé de um cinzeiro apenas preenchido de pó. Um caneta, seca de tinta, acompanhada de um dossier aberto numa página em branco e de um calendário atrasado de muitos meses. Entro num antigo arquivo, uma dezena de estantes repletas de dossiers que um dia terão sido pretos, agora cobertos de uma névoa que por aqui foi ficando até se instalar por inteiro. Leio as lombadas. Invocam diferentes departamentos, variadas funções, recuando no tempo, cinco, dez, quinze anos. Os mesmos anos dos cartazes motivacionais, promocionais e outros que tais que decoram as paredes. Tudo envelhecido antes do tempo, papel amarelado, tinta desbotada, na maior parte dos casos a esconder a humidade e as infiltrações do edifício. Fico com o olhar preso num livro, em cima de uma secretária, que parece lembrar-me outros tempos, mais inocentes, da minha própria infância. Sopro o pó que o cobre, abro-o e folheio as páginas. Nomes atrás de nomes, dias atrás de dias, horas de entrada, horas de saída. Assinaturas copiadas até ao fim da cada página. Reconheço um ou dois dos nomes, numa pequena imensidão de outras pessoas, homens e mulheres que passaram e trabalharam por esta casa. Retratos a caneta bic azul de um tempo que já pertence ao passado e não verá a luz do futuro. Algumas das estantes não aguentaram o desaparecimento das pessoas e deixaram-se desfalecer sob o peso dos papéis e mais papéis. Ali jazem, no chão de fórmica, inertes, derrotadas, esperando o momento em que serão depositadas num qualquer aterro ou compactador que as devolva à vida sob uma outra qualquer forma. Papéis em cima de papéis em cima de mais papéis. Espalhados por todas as salas. Sempre à espera de um olhar que os veja mais uma vez, que os veja como mais do que uma obrigação legal, imposição burocrática que teima em desaparecer. De que servem agora? Se alguém lhes ateasse fogo, quem precisaria mais deles? Para quê? Para acabarem aqui, tão derrotados como a empresa que aqui morou. Apenas isto resta, anos e anos de trabalho, suor, vitórias, lágrimas, derrotas, tudo isto para nada mais ficar. É tempo de limpar tudo. Varrer o chão, os papéis, as teias de aranha, as vidas que abandonaram este sítio e apenas continuaram fora destas quatro paredes. Aqui dentro acabou-se. Uma nova alma virá ocupar isto, mas agora é apenas respeitar o silêncio que aqui há e recordar os erros, lembrar por momentos o que aqui houve e trabalhar para que a história não se repita e pensar que a esperança pode ser muito mais que o nome de uma aldeia ou o nome de uma infeliz campanha publicitária. A esperança, ou melhor, a Esperança pode começar neste preciso segundo. Assim o esperamos.



quarta-feira, setembro 24, 2014

Stranger Than Fiction

"As Harold took a bite of Bavarian sugar cookie, he finally felt as if everything was going to be ok. Sometimes, when we lose ourselves in fear and despair, in routine and constancy, in hopelessness and tragedy, we can thank God for Bavarian sugar cookies. And, fortunately, when there aren't any cookies, we can still find reassurance in a familiar hand on our skin, or a kind and loving gesture, or subtle encouragement, or a loving embrace, or an offer of comfort, not to mention hospital gurneys and nose plugs, an uneaten Danish, soft-spoken secrets, and Fender Stratocasters, and maybe the occasional piece of fiction. And we must remember that all these things, the nuances, the anomalies, the subtleties, which we assume only accessorize our days, are effective for a much larger and nobler cause. They are here to save our lives. I know the idea seems strange, but I also know that it just so happens to be true. And, so it was, a wristwatch saved Harold Crick. "