quarta-feira, dezembro 17, 2014

Terra Sonâmbula

        "Quero pôr os tempos, em sua mansa ordem,
conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças
desobedecem, entre a vontade de serem nada e o
gosto de me roubarem do presente. Acendo a estória,
me apago a mim. No fim destes escritos, serei de
novo uma sombra sem voz."

Mia Couto

 

segunda-feira, dezembro 08, 2014

Um buraco no coração



(... ou como apenas nos apercebemos do frio da noite quando ele nos atinge o coração...)


sábado, novembro 22, 2014

O Tempo Morto É Um Bom Lugar

                                                            "Massagem subdér-
mica. Mesoterapia. Drenagem linfática. Termossudação. Pe-
eling. Branqueamento dentário. Modelação da silhueta. Body
pump. Talassoterapia. Pilates. Hidromassagem. Sauna. Que-
enax. Termodepilação. Fotodepilação com luz pulsada. Radio-
frequência tripolar. Pressoterapia. Bodyshape. Auriculoterapia.
Shiatsu. Cavitação. Epilação a laser de diodo. Pedicuro e ma-
nicure. Bikini waxing. Tudo praticamente de um dia para o
outro e sem pausa nenhuma (...)"

Manuel Jorge Marmelo



(Claramente nunca serei um famoso da reality tv. Ou então estou a precisar de um dicionário novo...)

segunda-feira, novembro 10, 2014

Uivo



Para uma imensa minoria, haverá sempre a saudade e a felicidade de recordar um tempo em que ouvíamos a voz do Mestre a indicar-nos o caminho da música que abria a nossa alma ao mundo. Uivo é uma bonita homenagem e recordação do que este homem significou para toda essa imensa minoria. Seja a que hora for e em que delta for, vão ver e prestem o vosso carinho ao verdadeiro Lobo.


quinta-feira, outubro 30, 2014

Alabardas

         "Boas noites, Boas noites. Dez
minutos depois o telefone de artur paz se-
medo tocou. Era felícia, Não procures en-
comendas assinadas pelo general franco,
não as encontrarias, os ditadores só usam
a caneta para assinar condenações à morte. E desli-
gou antes de que ele pudesse responder."

José Saramago


 

terça-feira, outubro 28, 2014

What...


"What are you thinking? What are you feeling? What have we done to each other? What will we do?"

 

segunda-feira, outubro 13, 2014

segunda-feira, outubro 06, 2014

Subi as escadas. Degrau a degrau, enfrentando a quase total escuridão apenas quebrada pela claridade invasora vinda das janelas. Vejo as teias de aranha, nos cantos e recantos das salas. O pó acumulado de um ano sobre as pastas, as mesas, as cadeiras. Um ano sem vivalma entrar naqueles espaços. Aqui e ali pequenos vestígios da presença humana. Uma garrafa de água, ainda com algum líquido, a tampa logo ao lado, repousando ao pé de um cinzeiro apenas preenchido de pó. Um caneta, seca de tinta, acompanhada de um dossier aberto numa página em branco e de um calendário atrasado de muitos meses. Entro num antigo arquivo, uma dezena de estantes repletas de dossiers que um dia terão sido pretos, agora cobertos de uma névoa que por aqui foi ficando até se instalar por inteiro. Leio as lombadas. Invocam diferentes departamentos, variadas funções, recuando no tempo, cinco, dez, quinze anos. Os mesmos anos dos cartazes motivacionais, promocionais e outros que tais que decoram as paredes. Tudo envelhecido antes do tempo, papel amarelado, tinta desbotada, na maior parte dos casos a esconder a humidade e as infiltrações do edifício. Fico com o olhar preso num livro, em cima de uma secretária, que parece lembrar-me outros tempos, mais inocentes, da minha própria infância. Sopro o pó que o cobre, abro-o e folheio as páginas. Nomes atrás de nomes, dias atrás de dias, horas de entrada, horas de saída. Assinaturas copiadas até ao fim da cada página. Reconheço um ou dois dos nomes, numa pequena imensidão de outras pessoas, homens e mulheres que passaram e trabalharam por esta casa. Retratos a caneta bic azul de um tempo que já pertence ao passado e não verá a luz do futuro. Algumas das estantes não aguentaram o desaparecimento das pessoas e deixaram-se desfalecer sob o peso dos papéis e mais papéis. Ali jazem, no chão de fórmica, inertes, derrotadas, esperando o momento em que serão depositadas num qualquer aterro ou compactador que as devolva à vida sob uma outra qualquer forma. Papéis em cima de papéis em cima de mais papéis. Espalhados por todas as salas. Sempre à espera de um olhar que os veja mais uma vez, que os veja como mais do que uma obrigação legal, imposição burocrática que teima em desaparecer. De que servem agora? Se alguém lhes ateasse fogo, quem precisaria mais deles? Para quê? Para acabarem aqui, tão derrotados como a empresa que aqui morou. Apenas isto resta, anos e anos de trabalho, suor, vitórias, lágrimas, derrotas, tudo isto para nada mais ficar. É tempo de limpar tudo. Varrer o chão, os papéis, as teias de aranha, as vidas que abandonaram este sítio e apenas continuaram fora destas quatro paredes. Aqui dentro acabou-se. Uma nova alma virá ocupar isto, mas agora é apenas respeitar o silêncio que aqui há e recordar os erros, lembrar por momentos o que aqui houve e trabalhar para que a história não se repita e pensar que a esperança pode ser muito mais que o nome de uma aldeia ou o nome de uma infeliz campanha publicitária. A esperança, ou melhor, a Esperança pode começar neste preciso segundo. Assim o esperamos.



quarta-feira, setembro 24, 2014

Stranger Than Fiction

"As Harold took a bite of Bavarian sugar cookie, he finally felt as if everything was going to be ok. Sometimes, when we lose ourselves in fear and despair, in routine and constancy, in hopelessness and tragedy, we can thank God for Bavarian sugar cookies. And, fortunately, when there aren't any cookies, we can still find reassurance in a familiar hand on our skin, or a kind and loving gesture, or subtle encouragement, or a loving embrace, or an offer of comfort, not to mention hospital gurneys and nose plugs, an uneaten Danish, soft-spoken secrets, and Fender Stratocasters, and maybe the occasional piece of fiction. And we must remember that all these things, the nuances, the anomalies, the subtleties, which we assume only accessorize our days, are effective for a much larger and nobler cause. They are here to save our lives. I know the idea seems strange, but I also know that it just so happens to be true. And, so it was, a wristwatch saved Harold Crick. "


segunda-feira, setembro 15, 2014

the perks of being a wallflower

"I walk around the school
hallways and look at the
people. I look at the teachers
and wonder why they're
here. Not in a mean way. In a
curious way. It's like look-
ing at all the students and
wondering who's had their
heart broken that day... Or
wondering who did the heart
breaking and wondering why."

Stephen Chbosky

 

quarta-feira, setembro 03, 2014

"I'm so sorry for everything..."



Hoje tive uma ideia que já não me passava pela cabeça há muito tempo. Desde a altura em que era adolescente e tudo me parecia urgente, com o tempo a fugir por baixo dos meus pés. É uma ideia que normalmente me assusta de tão aterradora que é. Mas hoje, sentado num banco à beira-mar, sem vento e apenas com o cheiro da maresia, tenho que confessar que essa mesma ideia me pareceu acolhedora, confortável mesmo. É daqueles coisas que passam pela nossa mente, ainda que de forma fugaz, e o sentimento dura apenas alguns segundos, mas uma vez ocorrida e especialmente a forma como me senti em relação a ela, torna tudo muito difícil de interpretar. Lembro-me até de já ter escrito, ao longo dos anos, algumas palavras relacionadas com esta ideia. Mas mesmo quando o faço, acho que acabo por o fazer de uma forma distante e nunca com uma razão suficientemente forte para o justificar. Talvez não haja mesmo justificação. Acontece e pronto. Fim. E depois? Tão aterrador como a ideia em si, é não saber o que há depois. E não afasta a ideia que é uma história que fica a meio, sem a continuação normal dos dias. E como não sabemos o que acontece ao protagonista, esse mesmo fica na angústia de saber o que acontece a todos os outros, os que seguem pela estrada principal. Resumindo, tal como a ideia me deixa um pouco fora do meu normal ser, acontece que também não a consegui afastar o suficiente e ela acabou por cruzar-se comigo. No fundo sei porque é que isto acontece. Porque tenho demasiado tempo em mãos, porque os meus receios me têm rodeado mais vezes recentemente, e também porque me falta alguém. Alguém com quem a partilha fosse total, alguém que me desse a mão e se entregasse por completo a mim, alguém a quem eu me pudesse entregar na totalidade do meu ser. No meu âmago sei que isto poderia colocar ideias idiotas fora do meu cérebro. E que acabaria por ter nas minhas mãos algo mais importante que tudo o resto, algo que me reanimasse, me fizesse saltar o coração e seguir em frente. Um dia destes...


(Novembro de 2009. Toda uma outra vida que ficou lá atrás.)

"Baby, we'll be fine..."



 


terça-feira, agosto 26, 2014

Como diz ali mais abaixo...

... "um simples turista de passagem."


E o anonimato é realmente uma qualidade súbtil. Mesmo que com uma breve referência a "pratos" mais familiares e que nos lembram que o regresso também faz parte do ritual.

 

quarta-feira, agosto 20, 2014

Das palavras que me abraçam.

"as pessoas más não entendem a beleza. não constroem casas nas árvores, não andam de baloiço com os filhos ao colo, não se sentam na areia a ouvir as gargalhadas dos pequenos, não se embrulham com os caes numa obscenidade de beijos, não sabem o sabor da água salgada, não sentem o mar a acariciar a face, não sorriram ao outro, não ergueram sonhos, não brindaram aos amigos, não deram a mão à avó, não apreciaram o olhar do rosto rugoso da mãe, não provaram bolos saídos do forno, não subiram árvores para ver o mundo do alto, não ousaram tocar um dia as nuvens, não se deleitaram com a luz do luar, não se entregam em noites de amor, não comeram torradas a escorrer manteiga, não provaram o sabor da boca do outro, não dançaram ao som de musica imaginária, não deram a mão a ninguém. não quiseram. as pessoas más existem e não vivem."

(da minha querida amiga Polly Jean)

 

domingo, agosto 17, 2014

Um buraco no coração



(ou de como o passado ainda nos atormenta e nos lembra que nunca o poderemos alterar...)


sábado, agosto 16, 2014

Algo de bom...

http://3.bp.blogspot.com/_heYE5RAKBs4/SYc0RFHJK_I/AAAAAAAAAEI/oXHyZnQlPWY/s320/untitled.JPG 

(Foto de PenaBranca)


Assim que acabou de ler aqueles parágrafos já um pouco distantes, deixou ficar-se sentado, a olhar pela janela para o sol que se escondia.O sol. Seria sempre uma boa razão para manter o optimismo, especialmente naquele cenário campestre que o acompanhava. Olhou para o passeio. Algumas pessoas aproveitavam o fim de tarde para caminhar e receber um pouco de ar mais fresco nas suas faces. Da sua cadeira pensava, pensava como o tempo é realmente bem personificado na forma da ampulheta, os grãos de areia a escoarem sempre, sem se preocuparem com o que acontece à sua volta. Assim já se tinham passado mais de cinco anos desde o debate. Desde a troca de personalidades, ainda que momentânea. Era um tempo que, mesmo com todas as nuvens negras que teve, recordava com alguma saudade. Apenas alguma. Especialmente daquele tempo em que a sua troca de correspondência fluia com mais vigor, com mais facilidade, com mais, ousava dizê-lo, tranparência. Hoje em dia, mesmo estando mais vezes juntos, o debate era mais moderado, menos extremado. Sinal dos tempos, ou sinal de uma maturidade que já não deixava muito espaço para a impulsividade e emergência de outros tempos. Quando se viajava todos os anos e se deixava tudo para trás, sem remorsos ou outras âncoras que nos agarrassem. Se calhar era isso que precisava, voltar a viajar. Já não deixar a cidade nas costas, mas sim o campo bucólico e generoso, onde toda a gente se conhece e toda a gente tem um opinião para dar. Precisa de sair, ir para um sítio onde ninguém o conheça, um local onde se possa tornar de novo um anónimo, um simples turista de passagem. Sim, era mesmo isso. Provavelmente seria uma viagem a solo, só ele, sem a estimada companhia de outros tempos. Mas não seria isso que o demoveria. Aproveitou os últimos raios de sol para abrir o velhinho atlas lá de casa, ao calhas, como sempre...


segunda-feira, agosto 04, 2014

Nos nossos dias...


"I was born in a refugee camp. I was allowed to leave the west Bank only once. I was 6 at the time and needed surgery. Life here is like life imprisonment. The crimes of the occupation are countless. The worst crime of all is to exploit the people's weaknesses and turn them into collaborators. By doing that, they not only kill the resistance, they also ruin families, ruin their dignity, and ruin an entire people. When my father was executed, I was 10 years old. He was a good person. But he grew weak. For that, I hold the occupation responsible. They must understand that if they recruit collaborators, they must pay the price for it. A life without dignity is worthless. Especially when it reminds you day after day, of humiliation and weakness. And the world watches cowardly, indifferently. If you're all alone, faced with this oppression... you have to find a way to stop the injustice. They must understand that if there's no security for us there'll be none for them either. It's not about power. Their power doesn't help them. I tried to deliver this message to them but I couldn't find another way. Even worse, they've convinced the world and themselves that they are the victims. How can that be? How can the occupier be the victim? If they take on the role of oppressor and victim then I have no other choice but to also be a victim and a murderer as well. I don't know how you'll decide, but I will not return to the refugee camp."


terça-feira, julho 29, 2014

All The Pretty Horses


"That night he dreamt of horses in a field on a high plain
where the spring rains had brought up the grass and the
wildflowers out of the groud and the flowers ran all blue and
yellow far as the eye could see and in the dream he was among
the horses and the coursed the young mares and fillies over the
plain where their rich bay and their rich chestnut colors shone
in the sun and the young colts ran with their dams and trampled
down the flowers in a haze of pollen that hung in the sun like
powdered gold and they ran he and the horses out along the
high mesas where the ground resounded under their running
hooves and they flowed and changed and ran and their manes
and tails blew off of them like spume and there was nothing
else at all in that high world and they moved all of them in
a resonance that was like a music among them and they were
none of them afraid horse nor colt nor mare and they ran in
that resonance which is the world itself and which cannot be
spoken but only praised."

Cormac McCarthy