segunda-feira, agosto 04, 2014

Nos nossos dias...


"I was born in a refugee camp. I was allowed to leave the west Bank only once. I was 6 at the time and needed surgery. Life here is like life imprisonment. The crimes of the occupation are countless. The worst crime of all is to exploit the people's weaknesses and turn them into collaborators. By doing that, they not only kill the resistance, they also ruin families, ruin their dignity, and ruin an entire people. When my father was executed, I was 10 years old. He was a good person. But he grew weak. For that, I hold the occupation responsible. They must understand that if they recruit collaborators, they must pay the price for it. A life without dignity is worthless. Especially when it reminds you day after day, of humiliation and weakness. And the world watches cowardly, indifferently. If you're all alone, faced with this oppression... you have to find a way to stop the injustice. They must understand that if there's no security for us there'll be none for them either. It's not about power. Their power doesn't help them. I tried to deliver this message to them but I couldn't find another way. Even worse, they've convinced the world and themselves that they are the victims. How can that be? How can the occupier be the victim? If they take on the role of oppressor and victim then I have no other choice but to also be a victim and a murderer as well. I don't know how you'll decide, but I will not return to the refugee camp."


terça-feira, julho 29, 2014

All The Pretty Horses


"That night he dreamt of horses in a field on a high plain
where the spring rains had brought up the grass and the
wildflowers out of the groud and the flowers ran all blue and
yellow far as the eye could see and in the dream he was among
the horses and the coursed the young mares and fillies over the
plain where their rich bay and their rich chestnut colors shone
in the sun and the young colts ran with their dams and trampled
down the flowers in a haze of pollen that hung in the sun like
powdered gold and they ran he and the horses out along the
high mesas where the ground resounded under their running
hooves and they flowed and changed and ran and their manes
and tails blew off of them like spume and there was nothing
else at all in that high world and they moved all of them in
a resonance that was like a music among them and they were
none of them afraid horse nor colt nor mare and they ran in
that resonance which is the world itself and which cannot be
spoken but only praised."

Cormac McCarthy

 

segunda-feira, julho 28, 2014

"Janela"

"A vida não é menos
incoerente do que os sonhos;
é apenas mais insistente."

José Eduardo Agualusa



Gostava de ter uma "janela" igual a esta. Não só na minha casa, mas permanentemente na minha vida. Parece que olhando através dela todos os problemas e angústias desaparecem como num passe de magia. O sol, o céu azul e o mar são todo o zen que preciso, nada mais. Eu e todos os indivíduos que aqui ocorrem. Como borboletas (ou traças) que correm na direcção da lâmpada descuidadamente ligada. Nas conversas, nos olhares, nas expressões iluminadas, percebe-se a nossa cumplicidade. Ainda que anónima. Uma ou outra pessoa sentada sozinha, a maioria em casais ou grupos de amigos. Os casais parecem enamorados, prescrutando ansiosos o horizonte que se vai tornando cada vez mais vermelho. Olho e lembro-me do livro do Agualusa, que acabei ontem à noite. E penso se o nosso destino é mesmo vivermos toda a nossa vida ao lado da mesma pessoa ou se, como Faustino, devemos viver vários e diferentes amores, o mesmo é dizer viver muitas vidas dentro da nossa aparente breve existência de carne e osso? Não sei responder. Neste preciso nanosegundo, a minha vida encontra-se tão longe destes dois caminhos distintos, que tenho dificuldade em sequer pensar no que me aguarda ao virar da esquina. É o defeito de ter o mar à minha frente. Desligo os meus neurónios, não penso em mais nada, apenas na calma que me rodeia, no sol que se esconde por trás do mar imenso, no céu em chamas que me cobre, nas trevas que se vão aproximando e me prometem embalar para um outro mundo, um mundo onde posso ser eu mesmo, sem pressões, sem ter de me esconder e fugir dos meus dias que passam a correr. A resposta é que sonho em ter uma vida como a de Faustino, exactamente igual e em todos os aspectos. Mas dentro de mim, também há um coração que secretamente anseia por ser como um dos casais à beira da minha "janela". Baixa a cortina, acaba o espectáculo, pago a conta e saio porta fora .

(Novembro de 2008. Escrito no único sítio que poderia fazer sentido.)


domingo, julho 27, 2014

O Congresso



"Ultimately, everything make sense. And everything is in our mind."


sábado, julho 26, 2014

Um sonho

"A tua amiga é louca???". Pois, Pai, tu nunca o saberás mas naquele momento tivémos a mesma reacção. A diferença é tu verbalizaste as palavras que te passaram pela cabeça enquanto eu me mantive em silêncio. Aliás, ultimamente acredito cada vez mais que ficar calado perante algumas situações mais parvas que me acontecem é o caminho mais acertado. E a profusão de coisas parvas a acontecerem começa a parecer uma tempestade perfeita, umas atrás das outras. E a paciência para as suportar reduz a olhos vistos. De modo que é melhor afastar-me ou, como ontem, apenas nada dizer. Não vale certamente abrir a boca para apenas conjurar ainda mais palavras, atitudes e sentimentos que realmente não fazem bem à sanidade mental de ninguém. E admiro a tua perspicácia, meu Pai, pois não conhecendo bem a pessoa em causa, ainda assim conseguiste fazer um diagnóstico bastante claro sobre o que ali se passava. Como se tua infinita sabedoria de quem já passou por tanta coisa, identificasses perfeitamente o que se passava no âmago daquela pessoa. Sinto que não te dou tanto crédito como deveria, mas depois de ontem acredito que tal não se repetirá. Digo mesmo mais, acho que vais passar a ser o meu próprio oráculo privado...


Acordei repentinamente. Ainda não havia claridade portanto ainda não seriam sequer seis da manhã. A memória do que se tinha passado começava a dissipar-se. Puxei da caneta e do bloco de notas da secretária e fiquei sentado na cama, a escrever sob a luz do candeeiro da mesa de cabeceira. A tinta ia enchendo as pequenas páginas do bloco, retendo tudo ou quase tudo do que tinha sucedido. Quando terminei, li todas as palavras e nada parecia fazer sentido. Poisei tudo, desliguei a luz e voltei a deitar-me, com esperança que o sono ainda chegasse antes do despertador.

quinta-feira, julho 24, 2014

Epitáfio

Caiste desamparada no asfalto quente da nossa rua. A rua onde morámos mais anos do que em outro qualquer lugar das nossas vidas. Quando me apercebi da tua queda já era tarde, tão tarde para te agarrar. Apenas tive tempo de largar a bengala que me amparava e prostar-me também caído ao teu lado. Os dois, lado a lado, jazíamos olhando nos olhos um do outro. O meu olhar perdido no teu olhar distante, perdido. Segurei a tua mão, numa vã tentativa de te tranquilizar, de te dizer sem palavras que a ajuda estava a caminho, que iríamos ser salvos deste chão que nos queimava a face. De te tentar esconder a verdade, crua e cruel. Que a ajuda chegaria tarde, pelo menos para um de nós. Que estes olhares e estas palavras que te sussurrava seriam as últimas coisas que alguma vez verias e escutarias. Que a tua vida terminaria ali, ao meu lado, mas não ao mesmo tempo que a minha. Que eu ainda iria ficar aqui, para te recordar, para te amar, para viver sem ti o resto dos meus dias. Que a tua respiração terminava aqui e agora, que a minha dor estava prestes a começar. Adeus, meu amor.



terça-feira, junho 03, 2014

Um passeio a Kobe

"Trinta e tal anos. Uma coisa vos garanto: quanto mais velha uma
pessoa fica, mais solitária se torna. Isto vale para toda a gente.
Mas talvez não esteja errado. O que pretendo dizer é que, de certo
modo, as nossas vidas não passam de uma série de etapas que nos
vão ajudar a conviver melhor com a solidão. Nestas circunstâncias,
não faz sentido amaldiçoarmos a sorte. Alémn disso, e pensando bem,
a quem podemos queixar-nos?"

Haruki Murakami

 

domingo, junho 01, 2014

Cotão


nome masculino

1.
lanugem de alguns frutos

2.
pelo que se desprende do pano pelo uso

3.
desperdício da

4.
partículas que se juntam às paredes e debaixo dos móveis, quando não limpeza

(Do árabe qu Tun, «algodão», pelo francês coton, «idem»)

(in Infopédia)

(realmente, não podia haver melhor simetria entre a casa real e esta casa virtual.) 


quarta-feira, maio 21, 2014

Vida e obra de um poeta

   "Hoje, nada sei de quem me amou ou ama. Nada me
reparte no tempo. Abro-me à unidade da vida - e amo o
passado e o futuro com um só fervor: completo. A geografia
não existe. Quem está em Joanesburgo e me ama ou possui
um breve poema rabiscado nas costas de um envelope, ou
quem me odeia em Roterdão e apenas tem algumas palavras
sem destinatário, nada poderá supor da minha lenta maturi-
dade. Esses papéis pouco valem, e esses sentimentos (de amor
e ódio). Vale quem sou. Ultrapasso as palavras escritas aos
trinta anos. O poema que agora escrevesse diria como estou
pronto para morrer, referiria enfim a excelência do meu corpo
urdido nas aventuras da solidão e da comunhão, e falaria de
tudo quanto auxilia um homem no seu ofício - a ferocidade
dos outros, o apartamento, ou o seu amor que, ferido pela
ignorância, se inclina para ele, para o seu trabalho, o desejo, a
expectativa. Morrerei como se fosse numa retrete de Paris -
só, com a minha visão, o pressentido segredo das coisas.
   E é na morte de um poeta que se principia a ver que o
mundo é eterno."

Herberto Helder

sábado, maio 10, 2014

Fome

"I have my belief, and in all its simplicity that is the most powerful thing."



 


quinta-feira, maio 08, 2014

Cinzento

"Poeiras de crepúsculos cinzentos.
Lindas rendas velhinhas, em pedaços,
Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços,
Como brancos fantasmas, sonolentos...

Monges soturnos deslizando lentos,
Devagarinho, em misteriosos passos...
Perde-se a luz em lânguidos cansaços...
Ergue-se a minha cruz dos desalentos!

Poeiras de crepúsculos tristonhos,
Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos,
A névoa das saudades que deixaste!

Hora em que o teu olhar me deslumbrou...
Hora em que a tua boca me beijou...
Hora em que fumo e névoa te tornaste..."

Florbela Espanca

 

quarta-feira, maio 07, 2014

Humanidade desconstruída

"As lágrimas saltaram-lhe, os soluços fizeram-no estremecer.
Entregava-se agora a eles pela primeira vez na ilha; espas-
mos intensos e frementes de sofrimento pareciam puxar-lhe
violentamente todo o corpo. A voz dele elevou-se acima do
fumo negro perante os destroços inflamados da ilha; conta-
giados por aquela emoção, os outros garotos começaram tam-
bém a tremer e a soluçar. No meio deles, com o corpo imundo,
o cabelo emaranhado e um nariz gotejante, Ralph chorou
pelo fim da inocência, pelas trevas no coração do homem e
pela queda no vazio do verdadeiro e sensato amigo a que cha-
mavam Piggy."

William Golding

 

terça-feira, maio 06, 2014

A humanidade é algo de absurdamente desconcertante...



"How could I write a letter without ink or paper? There is nobody I want to write to 'cause I hain't got no friends living as I know of. That Armsby is a lying drunken fellow. You know this, just as you know that I am constant in truth. Now, master, I can see what that Armsby is after, plain enough. Didn't he want you to hire him for an overseer? That's it. He wants to make you believe we're all going to run away and then he thinks you'll hire an overseer to watch us. He believes you are soft soap. He's given to such talk. I believe he's just made this story out of whole cloth, 'cause he wants to get a situation. It's all a lie, master, you may depend on't. It's all a lie."


quarta-feira, abril 23, 2014

Nada a declarar.

Não escrevo.
Coloco apenas as palavras de outros, outros melhores que eu.
Isso basta-me, apenas isso e mais nada me basta.
Como alguém dizia, tenho a cabeça limpa.
E isso não é nada de mau, pelo contrário.
Há-de haver outros dias, outras alturas, outras épocas.
Em que as minhas palavras voltarão a aparecer.
Por agora, nada.
Nada a declarar.



Debaixo de algum céu

     "Talvez amemos só pelo que o amor nos traz, ou pelo que
podemos ser quando alguém nos ama. Seremos assim tão tortos?
É possível que só saibamos dar a nós mesmos? Orgulho, respeito,
altruísmo, abnegação. São coisas que atiramos porque sabemos
que hão-de voltar, como um pau que um cão nos há-de devolver.
     Já não sei nada, que se foda o amor, andamos todos para aqui
a estragar as vidas uns aos outros com os melhores propósitos.
«Eu sempre te amei», «És a mulher da minha vida». O caralho
é que és, o caralho é que amei. Quis prazer, como tu quiseste,
serenidade, certeza, posse. Sim, quisemos isso tudo e pensá-
mos que nos ficava de graça, uns beijos e algumas palavras, tudo
por amor, mas não se trata de amor. Trata-se de outra merda
qualquer que nos faz falta e não tem nome, é simplesmente
outra merda qualquer."

Nuno Camarneiro

 

segunda-feira, abril 21, 2014

e a noite roda

"Tu dizes que tens uma vida e eu apareci. Tu dizes que
julgavas ter uma vida e eu apareci. Tu dizes que julgavas
ter uma vida e eu apareci mas que fazer? Eu digo que
se não sabes terminemos, antes que tudo se torne pior."

Alexandra Lucas Coelho

 

domingo, abril 20, 2014

Maravilhosa e delirantemente WesAndersoniano...


"You see, there are still faint glimmers of civilization left in this barbaric slaughterhouse that was once known as humanity. Indeed that's what we provide in our own modest, humble, insignificant... oh, fuck it."


sexta-feira, abril 18, 2014

Aquele que dá a vida

"Um touro preto é uma espécie de massa rebarbativa, com
uma obscura vida interna onde se imagina que circulam ima-
gens fundas e carregadas. É difícil discernir os teoremas que,
pela acção, vai demonstrar. E a maneira como o fará, com
suas improvisações e inspirações repentinas. Mas existe uma
fenda nesse sistema de energias, a ponta de um ferro, a imper-
ceptível abertura oferecida pelo destino à derrota e à morte.
Pois cada criatura subtilmente se conjuga com os impulsos da
destruição. Tecido de imperscrutáveis forças que de súbito se
animam. É um jogo cerrado, difícil."

Herberto Helder